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Lente Gastronômica

Igor Maurício Barreto é cozinheiro, restauranteur, consultor, palestrante e viciado em gente! E-mails para esta coluna: igormauriciobarreto@gmail.com

Os empreendedores

Muitos perderam o emprego e resolveram, como a maioria, empreender. Seguindo o senso comum, imaginaram logo que poderiam ganhar a vida com comida e ser feliz fazendo seus horários e ganhando muito dinheiro com o que amam. 

Cada um dos dois amigos tinha uma ideia. “Tanta gente consegue, eu também consigo”.

Então, cada um, à sua maneira, mãos à obra! Como tantos, começaram seus exercícios pessoais. O que eu sei fazer? O que mais o povo compra? Numa pesquisa rápida, descobriram que, no Ifood, o produto que mais sai é o hambúrguer. “Perfeito!”, pensou. “Não é difícil fazer hambúrguer. Um pão que qualquer padaria faz, queijo que qualquer um compra no mercado, um disco de carne que posso comprar pronto. Não tem erro! Além disso, é muito barato. Gasto no máximo… (fez as contas daquele jeito…) R$ 4 e vendo a R$ 15!”, pensou o primeiro. 

“Melhor eu procurar alguém que me ajude com isso. Achismo não é ciência”, refletiu o outro. “Vou pedir às pessoas que têm sucesso que me recomendem alguém”, sustentou o segundo.

Como não tinham muito capital, o primeiro resolveu começar pelo delivery, projetando uma entrada triunfal no mercado, fazendo as contas de que, somente com os amigos, ele vai pagar todas as contas! O segundo pesquisou preços de consultorias para ajudá-lo a tomar essa decisão.

Procuram lugar e procuram um arquiteto para o projeto. Opa, o arquiteto não faz a cozinha. Ele recomenda uma consultoria. “Muito caro”, pensou o primeiro. O segundo, com ajuda, já estava planejando seu projeto para economizar em equipamentos, energia e em pessoal. 

Fazem contato com o Ifood e descobrem que, para o Ifood entregar, tem que pagar 27,5%! “Oi???”, assustaram-se os dois. 

Sentam com o contador e descobrem que um motoboy contratado custa entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil com os impostos e obrigações. Descobrem também que precisam de três alvarás: dos bombeiros, da prefeitura e da vigilância sanitária. Que cada um custa em torno de R$ 1 mil, fora a empresa, com taxas e tudo o mais, R$ 2 mil, fora as “taxas de urgência”, que poderiam aparecer por aí… Ah, sua carga tributária seria, em regime do simples nacional, em torno de 12%, isso sem ter nenhum empregado. 

Curioso sobre as relações de compras com os fornecedores, que seu contador recomendou contratar uma consultoria para auxiliar, o primeiro pensou, “impossível”. O segundo já estava com a lista dos principais fornecedores pronta, pela experiência do pessoal da consultoria. 

Daí resolvem procurar um ponto. O que o primeiro queria, além de caro, o proprietário era criterioso, e só queria se fosse do jeito dele, e ainda o negócio teria que passar pelo crivo dele. O ponto do segundo foi mais fácil, pois, como seria delivery, achou um recomendado por um preço mais barato e com a obra mais fácil pois estava mais completo.
O primeiro, estressado já, resolveu sentar para pensar no cardápio. Depois de oito tipos de hambúrgueres, foi tentar calcular o custo e descobriu que deveria fazer uma ficha técnica contendo índice de cocção, fator de correção, aproveitamento, custos administrativos e outros custos, que ele não sabia calcular, mas não queria contratar a bendita consultoria.

Depois de seis horas na internet e de chegar à conclusão de que as informações que tinha tido acesso eram rasas, tentou montar uma lista com seus custos principais para, finalmente, saber o custo do seu produto e para ver quanto ficaria mais rico vendendo acima do mercado, afinal, tinha os amigos e um produto super de qualidade. Resolveu ignorar uma consultoria, não precisava. Ele conseguiria se adaptar rapidamente. Afinal, não poderia ser tão difícil assim.

O segundo indicou o que queria e como poderia ser diferente num mercado tão concorrido, já que tinha tantos tentando. O cardápio foi feito e testado em 15 dias, com todas as coisas prontas para operar. 

Depois de dois meses de muita luta, conseguiu abrir. Começou pelo Ifood, mas pelas contas, teria uma venda incrível, e facilmente abriria sua loja física em breve. Aceitou os custos, e calculou seu ponto de equilíbrio, e, mesmo ficando alto, ficou tranquilo, afinal, ele tinha o melhor produto, o melhor nome, e poderia cobrar um valor maior que o mercado. 

Até agora, trabalhando 12 horas por dia, sem hora pra começar, dormindo mal, quase sem dinheiro, não fez seu horário, ao contrário, não tem horário.

O segundo abriu 1 mês antes. Estava bem recomendado pelo aplicativo, e já separando capital para sua loja física. 

Duvido você me dizer como essa história transcorreu. Escreva como deveria ser e me diga: quer ser o primeiro ou o segundo empreendedor? 

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