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Por trás da mágica

Saiba quem são alguns dos profissionais e membros das escolas de samba que trabalham o ano inteiro para fazer a festa acontecer no Sambódromo

O efeito surpresa é um dos trunfos da comissão de frente de uma escola de samba. Na foto, Vinicius Rodrigues, coreógrafo da Acadêmicos do Sossego, e seus bailarinos, que treinam incessantemente até atingir a perfeição

Foto: Lucas Benevides

Genial é ter na mente o dom da criação”. Esse trecho do samba-enredo de 2018 da Unidos do Viradouro é perfeito para explicar o que são as pessoas por trás de um desfile: Geniais por conseguirem criar algo grandioso apenas com suas ideias. Faltam poucos dias para o carnaval, uma das festas populares mais animadas e representativas do mundo, e o que muitos não sabem é que, para que a magia aconteça na Sapucaí, é necessária a união de muitas pessoas - a maior parte delas, moradoras das comunidades onde se baseiam as agremiações - absolutamente entregues à missão de erguer o luxo da escola. 

A Quarta-Feira de Cinzas é o dia que fecha o carnaval, mas também é o dia que começa o carnaval para muitas pessoas. Relembrando a citação no começo da matéria, gênios do carnaval como Rosa Magalhães, Laíla, Paulo Barros, Renato Lage, Max Lopes, entre outros, já começam nesse dia a planejar o carnaval do próximo ano. O papel do carnavalesco é o principal para fazer toda a “máquina” funcionar. Desde as roupas dos diretores até os grandes destaques nos topos dos carros alegóricos, todos os elementos da escola de samba têm que passar pela mão do carnavalesco. É ele o “diretor” dessa ópera popular.

Tudo começa pelo enredo, em torno do qual se desenvolvem todos os acontecimentos de um desfile. Gabriel Haddad e Leonardo Bora, carnavalescos da Acadêmicos do Cubango, escola de Niterói, explicam como surge o tema do desfile e como eles o desenvolvem durante o ano.

“O enredo depende da escola em que a pessoa está trabalhando, pois pode acontecer de uma escola já ter o enredo definido como alguns que são patrocinados ou sugestão da diretoria. Se não tiver isso, a pessoa apresenta a proposta de enredo, que é o caso desses dois anos que estamos na Cubango. Foram propostas que estudamos muito para entender tanto os temas, quanto a identidade da escola, ou seja, os costumes das pessoas que amam a escola”, conta Gabriel, que encontra coro em Leandro.

Gabriel Haddad e Leonardo Bora, carnavalescos da Acadêmicos do Cubango, são como os diretores de uma ópera. Eles desenvolvem o tema e o transformam em alegoria visual com a ajuda de profissionais como costureiras e bordadeiras

Foto: Lucas Benevides

“Escolhido o enredo, a gente faz primeiro uma grande pesquisa de referências bibliográficas e artísticas para realmente poder desenvolver o conceito. Com todas as definições de alas e defesas de alegorias, a média de um texto do enredo fica em torno de 60 páginas”, revela o carnavalesco.

A execução desse enredo, além de ser da responsabilidade do carnavalesco, também está nas mãos de uma série de segmentos da escola: os compositores, ateliês e coreógrafos são exemplos de uma parcela da grande quantidade de pessoas envolvidas para que tudo saia como pensado no dia do desfile.

“O mais trabalhoso para mim é a reprodução das fantasias. Você lida com muita gente. Por exemplo, na Cubango são nove ateliês, até na Pavuna temos um. Então, durante todo o ano, temos que suprir de material para que não fiquem parados e as fantasias sejam entregues no tempo hábil. No caso das alegorias, como estamos no barracão o tempo inteiro, dá pra acompanhar a construção delas. Fazemos no tempo que calculamos, então é algo mais fácil de se controlar. É tudo uma questão de gerenciar”, explica Gabriel.

No começo de um desfile, a comissão de frente é onde a escola dá seu cartão de visitas e mostra o que vem por aí. Quem ama carnaval lembra bem da comissão de frente de 2010 da Unidos da Tijuca, onde os componentes trocavam de roupa num passe de mágica na frente de todos na Sapucaí. Também podemos recordar de algo recente, como a comissão de frente da Mocidade Independente de Padre Miguel com o Aladin, que sobrevoou a avenida, em 2017. Isso, claro, é feito com muito ensaio. Dia após dia, entre 8 e 15 bailarinos treinam para dar um show na avenida. Antigamente, as comissões de frente eram formadas por membros da velha guarda da escola, que carregavam bastões, como se estivessem protegendo a agremiação. Ao longo dos anos, as escolas passaram a investir em artistas plásticos, coreógrafos e bailarinos profissionais para enriquecer a apresentação. Além da função de empolgar a plateia, a comissão de frente tem um papel crucial na escola, pois é avaliada como um dos nove quesitos em julgamento.

Vinicius Rodrigues, coreógrafo da Acadêmicos do Sossego, detalha essa dinâmica para chegar com um trabalho bem feito na Sapucaí.

Ao centro, Júlio e Rute, mestre-sala e porta-bandeira da Viradouro. O casal está junto há 12 anos e mantém a sintonia afiada para fazer bonito na avenida

Foto: Marcelo Feitosa

“O nosso papel na comissão é desenvolver um trabalho que honre a nossa escola e a nossa comunidade, trazendo uma prévia do que a escola quer mostrar com seu carnaval. A escolha da coreografia vem de um alinhamento do carnavalesco e do coreógrafo, diante da proposta do enredo da escola. Fizemos audição para escolha dos dançarinos em agosto e em setembro já demos o ponta pé inicial. O maior desafio é superar a crise que vem atingindo todas as escolas, mas isso serve de motivação para trabalharmos com criatividade e mostrar que o samba agoniza, mas não morre.”, garante Vinicius. 

Juntos há 12 anos, o casal de mestre-sala e porta-bandeira da Unidos do Viradouro Julinho e Rute faz com excelência o seu papel dentro de uma escola de samba. Julinho ganhou o Estandarte de Ouro de 2009 a 2012, e Rute, em 2010 e 2012. O casal tem a responsabilidade de conduzir ao longo do desfile a bandeira da escola. Eles são personagens que existiam em outras manifestações carnavalescas. O mestre-sala, originalmente, tinha a função de proteger a porta-bandeira, porque havia uma prática entre agremiações rivais de roubar a bandeira da concorrente. Hoje, o mestre-sala deve desenvolver gestos e posturas elegantes e corteses, que demonstrem reverência à sua dama. A porta-bandeira, por sua vez, deve conduzir e apresentar o pavilhão da escola, sempre desfraldado e sem enrolá-lo em seu próprio corpo ou deixá-lo sob a responsabilidade do mestre-sala. Eles não podem sambar de forma alguma, devem fazer um bailado ao som do samba, com meneios, mesuras, giros, meias-voltas e torneados. Na avaliação do casal, a harmonia entre eles é essencial para que a apresentação tenha graça e leveza.

“A preparação é bem árdua, mas se faz necessária. Além dos ensaios com a escola, todas as terças, sábados e domingos, todos os outros dias nós ensaiamos com a nossa coreógrafa Celeste Lima, que é do Teatro Municipal, e com o nosso diretor de harmonia, Alexandre Motta. Tem vezes que ensaiamos duas vezes ao dia, pois também temos que ensaiar com a comissão de frente, já que viemos atrás deles, então é mega importante esse ensaio conjunto. Também fazemos dança contemporânea no Centro de Movimento Deborah Colker, pilates e treino físico. Isso tudo sempre juntos: o Júlio e eu. Vivemos praticamente 24 horas em função do desfile”, detalha Rute, que ainda fala da sua história como porta-bandeira e a simbologia desse cargo. “A porta-bandeira tem o papel principal na Sapucaí, pois ela defende o manto sagrado da agremiação. Tanto que, quando se funda uma escola ou um bloco, uma das primeiras coisas é ter um pavilhão. Quando eu era pequena, ficava admirada com aquelas verdadeiras princesas bailando com o pavilhão da escola. Nunca me imaginei em outra função no carnaval”.

O tamborim é considerado o instrumento mais complexo durante a passagem da bateria

Foto: Marcelo Feitosa

Um dos momentos mais vibrados pela comunidade e aguardados por todos é quando a bateria passa. No mundo do samba, é comum dizer que a bateria é o coração da escola. Através dela, a cadência e o ritmo do samba são marcados para contagiar os passistas, foliões e integrantes, a fim de que façam uma linda apresentação. Basicamente, uma bateria é formada por surdos de três afinações diferentes: o de 1ª afinação, que é o que marca todo o samba, o de 2ª afinação, que responde o anterior, fazendo assim um som parecido com a batida de um coração (tum-tum) e o de 3ª afinação, que faz movimentos mais diversos que os anteriores; tamborins, repique, chocalho, caixa de guerra, cuíca e agogô. 

Durante o desfile, a bateria deve se mostrar afinada, puxando e animando os integrantes da escola, fazendo com que o grupo apresente boa evolução, seguindo seu ritmo, que deve ser intenso.

Hoje, o Mestre Ciça, que é o mestre de Bateria da Unidos do Viradouro, é um dos mais prestigiados no meio. Com 31 anos de experiência como mestre de bateria, ele conta um pouco de como é esse um ano de preparação para o grande dia.

“Assim que acaba a Semana Santa, eu começo a juntar meus diretores de bateria que, normalmente, são pessoas da minha confiança e que trabalham comigo há anos. Tem gente, por exemplo, que já está comigo há 30 anos. Depois de montar essa equipe de trabalho, começamos os ensaios. Fazemos uma seletiva para ver quem está apto a tocar ou não. Durante os ensaios do ano, principalmente os de rua, nós vamos corrigindo aquilo que não vemos como certo. Não é fácil não, por isso, às vezes, fico chateado porque trabalhamos tanto e, no desfile, o jurado percebe um erro que a gente não identificou. O instrumento mais ‘chato’ de acertar é o tamborim. Além dele ser muito agudo, é o instrumento que vem de cara, né!? Sempre fica à frente da bateria, é o nosso ‘cheguei’. Esse ano, vamos fazer algo mais clássico, mas prontos para a guerra”, conclui. 

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