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Elisa Lucinda

A premiada atriz Elisa Lucinda divide com o leitor dicas, experiências e reflexões de maneira singular estabelecendo o conceito artístico em todas as palavras

A quadrilha de brancos desbaratinada aos olhos do mundo (parte 1)

Aos olhos do mundo, que país somos ou estamos sendo? No meu imaginário de criança existiam as palavras de Olavo Bilac no meu peito que eu entendia como uma ordem gostosa de cumprir, eu que nunca fui muito fã de ordem: “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança, não verás nenhum país como este!”. Na sequência, o poeta descreve nossos rios, matas, belezas naturais que, a despeito dos sequentes e inconsequentes crimes ambientais, a duras penas, ainda restam algumas. De qualquer modo, fui preparada para ser a criança adulta no país de hoje, cresci com essa incumbência, almejando ser cuidadora do meu país de agora. Aos olhos do mundo, quem somos nós? Quanta destruição, quanto desamor pela terra, pela pátria, pelos irmãos. Foda. Escrevo enquanto índios são cruelmente dizimados, se matam perdidos das aldeias, enquanto gritam nas cadeias os negros, os velhos negros da senzala. Escrevo enquanto nas salas famílias assistem aos depoimentos cínicos, tranquilos dos ladrões delatores. Nenhum arrependimento se vê, nem parece que vão parar, que vão mudar esse jeito escuso de viver comprando o Estado brasileiro com vultosas contribuições aos nossos representantes. Neste momento, estão indo para os cofres de quem não tem a visibilidade de Brasília? Quantos bilhões esvaindo à espera das minilavas que não existem em cada Estado envolvendo outras empreiteiras que não são essas grandes e famosas? O que dizemos nós, os mortais, o que pensamos? Nós que acreditávamos em licitações justas. Entre tantas ilegalidades, o caixa 2 fere em si a lei de licitação, faz da licitação um teatro, uma falácia. Se o político se comprometeu com a Odebrecht nem adianta ninguém concorrer. Tudo cena, meu Deus! 

Explodindo, meu imaginário custa a crer no que nos transformamos, entretanto, está se tornando flagrante o limite a que chegam algumas de nossas misérias. Tudo parece me fazer crer que o racismo é a bola da vez, não dá mais. Enquanto a nossa juventude negra é assassinada todos os dias nas periferias como bandida e também como policial, como moradores inocentes, adolescentes importantes e não menos geniais, enquanto isso os anúncios, as revistas, os jornais, as TVs ainda insistem na invisibilidade de nossa autonomia, de nossa beleza, de nossos talentos. É assustador que só um tipo, uma espécie de padrão tenha presença avassaladora nos elencos das ficções brasileiras. Chocante. Quem quiser confirmar, é só contar nos dedos: entre séries e telenovelas que estão agora no ar, quantos pretos têm e desses quantos estão em papéis importantes para a trama? Quantos têm famílias, parentes, avós negros na trama? Mesmo apinhado de jovens roteiristas, os novos programas, com seus novos produtores, incluindo os de humor, não veem os atores negros como opção natural no mercado de trabalho, como artistas só, sem que tenham que ser definidos eternamente como elenco negro. Uma coisa sem nome. Uma chatice. Uma restrição. É uma limitação que nos destinem em geral ainda a papéis subalternos. Uma desconformidade com a vida contemporânea brasileira, uma insensatez, um disparate. Mas tudo está tão estabelecido assim que tende a ruir. A coisa é tão doida que ser branco representa ser bonito; pode até ser feio. E ser preto significa ser feio, podendo até ser bonito! Segue então o extenso baile de horrores onde insistimos no estilo Casa-grande & Senzala, apesar de já ser crime o racismo. 

Aos olhos do mundo, quem somos? Se dermos uma olhadela rápida nos outdoors das propagandas de escolas particulares e nas propagandas de todos os anúncios, o protagonismo branco é tão dominante e evidente que deve, aos olhos dos outros, parecer que somos uma Normandia e não um Brasil. Devemos soar esquizofrênicos, tendo índios e negros no âmago de nossa formação como nação, e sendo nessas culturas a natureza, o ancião e as crianças suas maiores riquezas, como podemos explicar o que estamos fazendo com os nossos velhos, nossas crianças e nossa natureza? Estamos doentes do que a nação deixou de saber de seus antepassados. Estamos enfermos da herança que não pudemos receber e o resultado é esse quadro triste, a insistência desse classicismo infame e sangrento que deixa jovens brancos ricos de quase trinta anos cometerem graves delitos que são chamados de molecagem, de coisa de garoto. Enquanto jovens negros com doze “já sabem muito bem o que estão fazendo”, pensa a opinião geral. É uma guerra, senhores, e muita gente de bem está envolvida nela. Gente que já começa a se assustar ao perceber que, há cinco gerações, não há em sua casa um cônjuge negro, primos, irmãos, tios, ninguém casou com uma negra ou um negro.

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