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Elisa Lucinda

A premiada atriz Elisa Lucinda divide com o leitor dicas, experiências e reflexões de maneira singular estabelecendo o conceito artístico em todas as palavras

A quadrilha de brancos desbaratinada aos olhos do mundo (parte 2)

 (...) Não só no Oscar nos EUA, mas também aqui, em nossos prêmios de teatro, cinema, TV, a festa da premiação é feita por brancos, com maioria avassaladora de indicados brancos, com maioria total de homenageados brancos, muitas vezes, e premiados, e mais os que entregam esses prêmios. Em todos os setores está aí o domínio branco pra todo mundo ver.

E são tantos anos desse domínio que não se vê que dos mais de duzentos citados e investigados na Lava Jato, não há um só negro. Ouviram bem? Não há um só negro entre estes ladrões! Se tivessem dez pretos entre os duzentos talvez já se pudesse ouvir dizer: “Ah, mas a culpa é desses negros, eles que começaram tudo, só podia ser, hum, novidade!” Por isso a nossa luta é também simbólica.

Na subjetividade brasileira, tudo de ruim é atribuído ao negro, ainda que ele faça o certo. E tudo de bom é atribuído ao branco, ainda que ele faça errado. Injusta e cavalgando nesse maniqueísmo atravessado, a sociedade segue trotando no absurdo. 

Aos meus amigos bacanas e não negros, que são de esquerda, que são intelectuais atuantes e críticos do nosso tempo, que são ousados pensadores em muitas searas, que já avançaram nas questões homofóbicas, no respeito e no amor pelas diversidades e pela mulher, tenho levantado com estes a grande contradição do domínio eurocentrista, e a pergunta bomba é muito simples: “Como pode a pretensa raça superior ser racista? Não fica bem para quem se diz superior, é atrasado. Como assim? Como podem as igrejas, o Vaticano? Racismo não é pecado não?”  

Escrevo num tempo em que grande parte dos brasileiros, a maioria, acredita que está sendo desbaratada uma quadrilha branca e que as cadeias vão estar cheias de Sérgios Cabrais. Mas a “justiça” bem paga permite tantos recursos e é tão morosa que podem prescrever vários crimes.

Tudo é de um grande descaramento de colarinho. E colarinho branco. As delações premiadas oferecem penas levíssimas sendo o indivíduo infrator muito mais premiado do que punido. É como se eles rissem dos que cometem crimes comuns. 

Quem é pior? O que roubou um celular ou o que desvia todo o dinheiro da merenda escolar? Ou que compromete uma ciclovia? Pelo amor de Deus, o país quebrando, o comércio fechando e o circo de lama rodando no ventilador. 60% do senado mais não sei quanto porcento do Congresso, um bando de brancos mancomunados para não representar os anseios da população e roubá-la, e essa gente ainda quer votar. Essa gente fora da lei quer votar leis? Novas leis? Essa gente tem moral para mexer assim na vida dos brasileiros para sempre?

Espero mesmo que essa Lava Jato lave todos os escondidos do Brasil. Espero porque sou ingênua e espero porque sou esperançosa e acredito nos poucos não vilões do jogo.
Porém, o que me dá medo, é que sabe-se que quem julga e condena às prisões as multidões de negros que ocupam as cadeias brasileiras são, em geral, juízes e promotores brancos. E agora são os mesmos brancos julgando brancos, o que acontecerá?

Ai, meu Deus, aos olhos do mundo quem somos, como parecemos? Escrevo pensando que ainda estou tentando seguir com as palavras de Bilac: “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança, não verás nenhum país como este.” 

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