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Mais Amor, Por Favor

A jornalista Dara Bandeira fala sobre os conflitos da rotina, as dificuldades e prazeres dos relacionamentos. Conquistas e tristezas da vida. E-mail para esta coluna: dara.bandeira@ofluminense.com.br

Que horas são?

Rio de Janeiro, 10 de setembro de 2017

Que horas são?

Depois que você se foi eu nunca mais comi lentilha. A meu ver, a vida só faz sentido se a gente puder associar sabores, cheiros e sons ao outro, aquele que nos faz bem. A playlist, o cardápio, o incenso, o cigarro. Agora, veja você, no auge de tudo, quando aprendi a gostar de quase tudo: lentilhas e saquês, uísques e cuscuz – depois de tudo isso – você se foi. Eu pensava dia e noite no que faria se ainda existisse você. Se ainda houvesse a sua presença, o que escolheria para beber? O que eu escolheria para jantar? Qual incenso acenderia se eu soubesse que você vinha?

Isso tudo de nunca mais comer lentilha não foi de propósito, só não aconteceu mais. De vez em quando, ainda me vinha o ano novo em que a gente passou três dias comendo o mesmo cardápio. A nossa felicidade deriva dos absurdos, aquele fim de ano foi a prova. Eu me lembrava que ali parecia tudo dentro de uma normalidade tão grande, que me assustei. Pensava comigo mesma: será que é isso? Funcionou? Eu queria algo que confirmasse o meu sentimento de paz que excede todo conhecimento, mas não tive. Eu tinha só você e a nossa lentilha. Você e os nossos segredos que não contaríamos a ninguém, nem sob tortura. Eu não me lembro dos fogos, nem de todos os beijos. Mas eu me lembro do essencial. 

Eu me lembro até hoje de que queria contar muitas e muitas viradas de ano. Não é que tudo fosse um grande carnaval, não tem nada a ver com isso. Às vezes era difícil à beça. Mas, de alguma forma entendia que, mesmo na dificuldade, nas montanhas que a gente precisava subir,  apreciar a vista sempre foi uma boa forma de não se entediar e de não enlouquecer. Pelo menos não aos modos convencionais. Esse é um dos segredos que não tenho a menor pretensão de divulgar. 

Quando decidimos que haveria uma última chance, aquela em que apostamos todas as nossas fichas, me veio uma vontade imensa de comemorar. Apesar do medo, eu queria você de volta. Apesar de todo medo, eu queria que você tirasse os seus olhos dos meus pela primeira vez. Eu queria que você fosse livre o suficiente para ir e vir, eu estaria ao seu alcance. Eu não queria ser seu mundo, isso foi antes. Agora, eu queria fazer parte.

Eu queria um novo romance. Belo romance. Nosso romance. Seria possível? Um momento nosso, depois que aprendemos que angústia não resolve nada, mas seleciona muito. Só fica sã de verdade quem sabe em quais caixinhas deposita a energia que tem para sobreviver. 

O seu jeito impreciso de dizer que é possível me assusta e me atrai. Cheguei um tanto atordoada, cabeça cheia, coração na mão. Você se lembra do cardápio?

pensando bem, isso importa?
Que horas são?
um beijo com tudo de bom
te amo
inverno/2017

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