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Questão de tom

As cores dizem muito do que somos, do que queremos ser e do tempo em que vivemos

Fabiane Mandarino é fundadora da Academia da Cor & Design (ACD), que presta consultoria em cores, moda e design

Foto: Lucas Benevides

Cor é coisa séria. Elas estão presentes nos ambientes em que vivemos, nas tendências de moda, beleza e decoração, no âmbito espiritual. Há muito trabalho por trás do que consumimos como produto final, sem muitas vezes percebermos a influência que as cores têm na nossa vida. 

Quando crianças, aprendemos o básico: cores primárias, secundárias, quentes e frias. Mas, para quem trabalha com arte, design, moda, arquitetura e muitas outras funções, as cores ganham mais profundidade, demandando muitos estudos que, posteriormente, impactam o mercado de tendências e inovações. 

A empresa norte-americana Pantone, por exemplo, é considerada uma autoridade em cores, sendo mundialmente conhecida por seus processos de seleção, comunicação e controle de cores. Sabe quando você, lá no fim de um ano, lê em alguma revista qual será “a cor do ano seguinte”? Então, é ela que, com muito estudo, chega a este resultado, que influencia todo o mercado das tendências. No Brasil, a Pantone é distribuída pela Lexus Groupe, empresa nacional especialista na criação e divulgação de tendências. 

Expert em cores e CEO da Lexus, Blanca Lliahnne trabalha com cores e tendências desde os anos 80, e diz gostar de moda, trabalhos manuais e de artes em geral, desde pequena.

“Costumava fazer roupas para minhas bonecas e montar desfiles para elas”, conta a profissional, que hoje está à frente da Pantone Color Institute – que apresenta, através de palestras e workshops, as grandes tendências, influências e os estudos da evolução das cores para todas as indústrias do design, seja gráfico, de moda e têxtil, de decoração e interiores ou design industrial. Além disso, a empresa divulga a Cor do Ano Pantone desde o seu início, em 1999. Em 2018, aliás, o tom escolhido foi o ‘Ultra Violet 18-3838’”.

Blanca Lliahnne é CEO da Lexus, empresa que representa a Pantone no Brasil

Foto: Divulgação

“A escolha de cor do ano é um processo que leva em consideração principalmente a força emocional de uma cor e o macroambiente de uma época. Nós investigamos o mundo em relação às cores que estão como grandes promessas de tendências e também as cores que já estão consolidadas. É um estudo vasto, permanente e de escala mundial”, explica. 

Esta investigação acontece em todos os ramos da vida humana, abrangendo comportamentos sociais, contextos políticos, a economia, tecnologia e, é claro, o entretenimento – analisando lançamentos de filmes, programas, novidades na música e o comportamento das celebridades em relação às cores. 

“São influências que vão acabar ficando no mercado. Se você conseguir traduzir essas influências para uma linguagem colorida, então a gente consegue ter a cor do ano. Por isso, ela é tão forte, pois leva em consideração o macroambiente mundial, a evolução das cores e as influências dos setores sociais, das artes, etc.”, completa Blanca. 

Quem também faz das cores sua vida é a designer especialista em cores e fundadora da Academia da Cor & Design (ACD), Fabiane Mandarino. Assim como todo estudante de design, as cores já faziam parte da vida de Fabiane. Por quase 14 anos, estudou e trabalhou fora do Brasil, passando por Milão, Paris, Londres e Sidney – onde teve a oportunidade de trabalhar com profissionais conceituados em diversas áreas, como o renomado fotógrafo britânico Simon Emmett, conhecido principalmente por suas fotografias de beleza e retratos de celebridades. Em 2014, de volta ao Brasil, nasce a ACD, onde a profissional faz um trabalho superdedicado como consultora e educadora em cores, moda e design.

“Tive a oportunidade de lecionar e criar cursos em grandes escolas de design, como o Instituto Marangoni – com matérias ligadas à moda – em Londres, e na International School of Color & Design, em Sydney, desenvolvi o diploma de design gráfico da escola, incluindo a preparação do livro acadêmico adotado. Ao retornar ao Brasil, sempre tive este sonho de criar uma butique de cursos especializados na indústria criativa. Hoje, o foco está em módulos ligados à cor, ao serviço de análise cromática na estética pessoal e ao minipaisagismo como terrários, por exemplo”, conta a expert, que, dentre suas especialidades, está a consultoria cromática, na qual você descobre como utilizar as cores de forma harmônica em seus ambientes, eventos e na estética pessoal, avaliando tons e subtons de pele.  

Mas não pense que se trata de uma imposição do que deve ou não usar e, sim, uma busca pelo autoconhecimento cromático. 

Carla Lemos se joga nas cores e estampas sem medo de ser feliz

Foto: Divulgação

“Podem existir regras, mas acredito que elas possam ser desafiadas. Na moda, por exemplo, houve um tabu de que vermelho e rosa não se combinavam, até que algum stylist resolveu desafiar isso: existe uma foto da atriz Sarah Jessica Parker usando uma blusa vermelha com uma calça pink, que ficou bem famosa. Na decoração, esta ousadia vai depender da pessoa que habita determinado espaço. O arquiteto vai ficar com um portfólio bacana se ousar, mas é o cliente que terá que conviver com aquela paleta de cores por alguns anos. Eu, por exemplo, tenho um estúdio criativo bem colorido, onde estou em constante estímulo, mas, em casa, optei por uma paleta mais monocromática com algum toque de cor nas paredes, mas com um subtom acinzentado”, explica Fabiane, que, por ser especialista na área e já possuir este autoconhecimento, sabe o que escolher quando vestir: “Sei as cores e tons que me caem bem. É importante saber seu melhor branco ou qual nível de saturação daquele croma funciona melhor, especialmente próximo ao rosto. Hoje, estou de bem com todas as cores e busco sempre utilizá-las a meu favor”, completa. 

Para uma pessoa que está imersa no mundo das cores há tanto tempo, naturalmente cria-se uma relação afetiva com os tons, até mesmo porque as cores também estão ligadas às emoções e sentimentos. 

“Acho que tenho pigmentos e clorofila nas veias. Preciso da interação com as cores como uma forma de nutrir a minha criatividade e minha alma. Preciso das cores ao meu redor. Se estiver meio desanimada, basta abrir a caixa de lápis de cor e olhar para eles que já estou curada naquele instante! Acho que, em tempos de crise e incerteza que vivemos hoje, a gente precisa colorir a nossa vida”, reflete. 

Não é novidade que a moda é uma das formas mais eficazes de você se expressar. Assim como os diversos estilos, tribos e vertentes fashion, as cores – ou a ausência delas – entram como um forte sinalizador de sua identidade. Já parou para imaginar a saudosa Elke Maravilha vestindo um pretinho básico? Não, né?! A estética kitsch – palavra de origem alemã que define o exagero de cores, estampas, acessórios, etc. – está presente em diversas personalidades, como a atriz e apresentadora Regina Casé e o estilista Dudu Bertholini. A intimidade com as cores é uma característica forte dos brasileiros. Nossa mistura de identidades culturais imprime essa explosão de cores que é Brasil, sobretudo o Rio de Janeiro. 

O produtor de moda Daniel Kalleb, de 24 anos, usa e abusa de cores e estampas em seus looks, unindo o básico com o extravagante.

Daniel Kalleb é apaixonada por cor

Foto: Divulgação/Wendy Andrade/RIOetc

“Uso a moda como arma! Não de defesa, mas de potencialização do meu ser. E aí que as cores e estampas entram em ação. Meu armário tem bastante coisa e muita gente pensa que eu passo horas pensando no que vou vestir, mas é tudo muito rápido. A verdade é que vai muito da vontade do que quero usar no dia: se eu quero estar mais fresco e confortável, escolho um short e um tênis; se eu quero estar mais chic e elegante, uso uma calça de alfaiataria de linho e por aí vai. Nossa imagem é o nosso cartão de visitas, mas isso não quer dizer que exista certo ou errado. Tudo é válido”, revela o jovem, que diz adaptar as tendências ao seu estilo, fortalecendo sempre sua identidade: “Amo todas as cores que estão dentro e fora do arco-íris. Estampas são outras aliadas, elas são ótimas em dias quentes e ajudam a colorir qualquer dia frio. E misturar padronagens distintas é uma grande terapia para mim”. 

Quem também se joga nas cores e estampas sem medo de ser feliz é a blogueira Carla Lemos, de 33 anos. Ela está à frente do blog Modices – um dos mais influentes blogs de moda do Brasil – e colore o feed de seus seguidores com suas produções.

“Sou uma criança dos anos 80, criada com Xuxa cantando: ‘toda cor tem em si uma luz, uma certa magia’. Acredito nisso desde então. Sempre gostei de tudo colorido e nunca consegui escolher uma cor só pra ser a minha favorita. Essa minha paixão por cores se reflete em tudo o que eu faço: no jeito que me visto, nas maquiagens que uso, na decoração da minha casa, nas minhas unhas multicoloridas e até nos meus filtros do Instagram”, conta a blogueira.  

Contrapondo o universo colorido e megaelaborado, há quem se expresse de forma contrária, deixando as cores vibrantes e estampas de lado. Tons de cinza, tons terrosos, preto, branco, um azul-marinho são cores que caem nos encantos dos mais minimalistas e sóbrios. Quem fez desta estética sua marca registrada foram as irmãs gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen, superpopulares por papéis em filmes e programas de TV nos anos 90. Em 2006, criaram a marca The Row, com peças de cores sóbrias, caimentos simples e atemporais. A ex-spice girl Victoria Beckham também segue este caminho com a grife que leva seu nome. 

Teresa Salomon abraçou a cartela neutra, sobretudo o preto

Foto: Divulgação/Juliana Rocha/RIOetc

“Meu guarda-roupa é bem sóbrio. Meus acessórios é que são mais coloridos, mas, no geral, a maioria das minhas roupas é preta. Comecei a usar preto no fim do ensino médio porque me espelhava muito nos designers de moda e gráfico, eles tinham esse ‘uniforme’: calça jeans e blusa básica preta. Gosto da ideia de um uniforme – acho que queria ser como as pessoas que eu admirava. Também era uma questão de ser levada mais a sério, que acabou se tornando algo muito prático também”, confessa a designer gráfica Teresa Salomon, de 26 anos, que diz admirar o preto por ele também ter um ar de mistério: “é a cor da batina dos padres, dos ternos black-tie, dos velórios, do rock e de quando as pessoas querem se sentir chiques. Costumo dizer que não é que eu não goste de cores, apenas estou usando todas ao mesmo tempo”.

As cores e tendências são tema do livro escrito pela professora e coordenadora do curso de Design de Moda do Centro Universitário IESB, Clarice Garcia. A obra é baseada na sua tese de mestrado e é a primeira publicação em português sobre o assunto, tratando com profundidade o surgimento das tendências na moda e o uso das cores nas mesmas.

“A cor faz parte de uma construção cultural. O significado do branco pode ser diferente a depender da cultura na qual ele está inserido e também da sua ocasião de uso. A cor nunca está desvinculada também dos objetos e de sua aplicação em superfícies e materiais. Dessa forma, por conta de todas as conotações simbólicas que as cores nos trazem, o ideal é compreender mudanças socioculturais importantes e tentar traduzi-las em cores. O Ultra Violet da Pantone é um exemplo claro: nas culturas ocidentais, os violetas têm um significado associado à espiritualidade e ao misticismo, valores muito presentes hoje em dia que aparecem como resposta a cenários políticos e econômicos turbulentos”, explica. 

A respeito das futuras tendências, Clarice conta que, na moda e no design de interiores, o caminho tende a ser diferente. 

“Na moda, depois de um período longo de cores de tons pastel, a tendência é voltarmos para cores vibrantes. O design de interiores, por sua vez, tende a demorar um pouco mais para acompanhar a mudança. Ainda vemos, por exemplo, o rosa de tom claro, como o novo neutro para o design de interiores há algum tempo – e ainda deve prosseguir forte”, aponta. 

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