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Riso solto

Ser palhaço vai além do ato de fazer rir, envolve busca interior e comprometimento social

Larissa Calado, a Palhaça Antonietta, representa a nova geração que quer se profissionalizar na arte do clown

Foto: Lucas Benevides

Sua tarefa é fazer rir. O palhaço mais antigo foi um pigmeu que fingia ser o presidente da corte do Faraó da quinta dinastia egípcia, um tipo de bobo da corte da antiguidade. Conhecidos há mais de dois mil anos, sempre fizeram parte das apresentações teatrais. Até que, em meados do século XVIII, surgiram os primeiros circos, criados por Philip Astley, que introduziu essa importante figura nas atividades circenses. Com sua calça larga, sapatos enormes, cara pintada, cabelo colorido e seu característico nariz vermelho, o palhaço é uma figura indispensável na apresentação de um espetáculo circense. Sua fantasia e seus truques deixam o mundo mais colorido. Hoje, dia 10 de dezembro, comemora-se o Dia do Palhaço. A data é uma homenagem a todos os artistas que dedicam sua arte para fazer o público rir.

George Savalla Gomes, o Palhaço Carequinha, um dos mais famosos do País, nasceu no dia 18 de julho de 1915, nos bastidores de um picadeiro de circo, logo após sua mãe, que era trapezista, sentir fortes dores do parto enquanto se equilibrava no arame. Carequinha iniciou sua vida artística aos cinco anos, no Circo Peruano, em Rio Bonito, sua cidade natal. Aos poucos, sua carreira no circo foi crescendo e ele foi o primeiro palhaço a ter um programa na televisão, o “Circo do Carequinha”, o qual comandou por 16 anos.

Apesar de ter nascido em Rio Bonito, foi em São Gonçalo que o palhaço morou por grande parte de sua vida, e não deixava de declarar seu amor pelo local. Tanto que o município ganhou, recentemente, um Teatro Municipal que leva o nome do artista.

Inspirada na mulher nordestina, a palhaça Sitonha leva alegria aos frequentadores do trem da SuperVia

Foto: Lucas Benevides

Tendo Carequinha como referência, Jorge Henrique Neves, o Palhaço Pic-Caramelo, nasceu em Duque de Caxias e mudou-se para São Gonçalo em 1969. Jorge dá aula de Artes desde 1981 e, neste ano, completa 40 anos de carreira artística.

“Minha intenção de ser um palhaço surgiu quando fui ao circo e vi dois palhaços trabalhando, o Bonifácio e o Baiaco. Logo pensei em como deveria ser legal fazer as pessoas sorrirem em um mundo em que a maioria das coisas faz o povo chorar. Sempre fui um cara que quis amar e transformar o mundo para que tudo ficasse melhor. Tudo que escolhi na minha vida foi por amor às pessoas. Meu palhaço é bem tradicional, faz o estilo do Palhaço Carequinha”, justifica Jorge.

Em suas apresentações, Pic-Caramelo fala sobre família e fazer o bem, seus princípios de vida.
“Tenho um balanço muito positivo desses anos de carreira. Nunca fiquei em casa esperando o show. Uma vez me disseram: ‘Se tem crise, crie’. Estou sempre criando um projeto novo. Trabalho educação, cultura, caráter e acredito que esse é meu maior legado. Deixo para as pessoas a lembrança de um novo sorriso”, garante.

Já Matheus Maldonado, da Trupe Achei Graça, decidiu se tornar palhaço há sete anos, inspirado por um grupo de artistas de São Paulo que visitou a cidade de Itaboraí, onde mora.

“Por meio do contato com o trabalho desenvolvido por eles, fiquei apaixonado pela figura do palhaço e todas as suas possibilidades de atuação. Após esse contato, comecei a procurar cursos para me capacitar e começar a ser palhaço, afinal, essa arte exige muito estudo e dedicação”, pondera.

Inspirado no Carequinha, o palhaço Pic-Caramelo, de São Gonçalo, comemora 40 anos de carreira

Foto: Douglas Macedo

Foi então que Matheus e sua esposa, Isabela Maldonado, perceberam que o gosto pela arte teria que ser dividido e multiplicado.

“A Trupe Achei Graça surgiu da necessidade de amigos caminharem juntos. Eu e minha esposa já trabalhamos com a palhaçaria e a arte circense há alguns anos. Não estávamos em nenhum coletivo de artes, éramos apenas eu e ela, porém, com os pedidos de muitos amigos para caminhar junto de nós, de estar presente no universo do palhaço levando alegria, humor, esperança, para os locais que vamos, nós fundamos a Trupe Achei Graça”, relembra Matheus.

A Trupe é um coletivo de arte cristã, onde o foco é a palhaçaria e a arte circense, além de contar com músicos, atores, dançarinos e cantores. Todos, sem exceção, atuam como palhaço. O grupo trabalha em dois hospitais da Região Metropolitana, como “Doutores em Besteirologia”: um em Itaboraí, no Hospital Municipal Desembargador Leal Jr. e outro em São Gonçalo, no Hospital Infantil Darcy Vargas. Atualmente, é formada por 30 pessoas, das quais a maioria são jovens estudantes. Dentre os voluntários que compõem a equipe, existem as mais diversas profissões, de enfermeira, a contador, de servidor público a pintor, de 16 anos a mais de 40 anos.

“Além das visitas que fazemos nos hospitais, dividimos nosso tempo entre ensinar a arte do palhaço e diferentes artes circenses. Atualmente, temos uma Escola de Palhaços em São Gonçalo com duração de três meses, com seis dias de aula, dois dias de estágio e uma prova prática. São abordados diferentes temas, entre palhaçaria e artes circenses. Temos o foco de formar o palhaço para a sociedade, para intervir em qualquer lugar que ele queira trabalhar. Temos o entendimento de que a figura do palhaço deve estar em todos os lugares, pois ele é um agente de transformação social. Esse ano, participamos de mais de 30 eventos, daqueles voltados às crianças de comunidades a eventos religiosos, para crianças de igrejas que nos convidam para fazer uma apresentação e ministração”, diz.

Matheus e Isabela Maldonado formaram a Trupe Achei Graça, que hoje conta com 30 pessoas, das quais a maioria são jovens estudantes

Foto: Arquivo pessoal

Os professores e atores Rafael Senna e Lígia Caboclo criaram “A Verdade do Palhaço”, uma oficina de palhaçaria clássica que utiliza técnicas teatrais e tem como objetivo expor o “eu” de cada aluno, usando o lúdico, jogos teatrais e a comicidade como referência para se aproximar do universos do palhaço, criando, assim, uma metodologia própria.

“Ao contrário do que muita gente pensa, ser palhaço é coisa séria. Escolher colocar um nariz vermelho e se exibir significa tirar todas as ‘armaduras’, ‘máscaras’, representações cotidianas e deixar que todos vejam o seu ‘lado frágil’, aquilo que você chama de defeitos físicos e psicológicos – o seu ridículo. Embora a oficina seja de palhaçaria, se tornar palhaço é apenas uma consequência da metodologia aplicada. Priorizamos como objetivo o autoconhecimento através da valorização, autoaceitação e desenvolvimento pessoal do indivíduo”, explica Rafael.

Aluna da oficina, sendo considerada a nova geração desse mundo clownesco, a estudante de Arquitetura e Urbanismo Larissa Calado, de 22 anos, teve no ano passado seu primeiro contato com a arte da palhaçaria, após iniciar um curso de teatro, que lhe mostrou sua, até então escondida, veia artística.

“Após esse curso de teatro, descobri que havia uma personagem em meu interior e decidi ir pela primeira vez com Antonietta (minha personagem) às ruas. Como forma de indagação de uma sociedade de holofotes voltada para o materialismo, comecei a promover questionamentos através de expressões corporais utilizando o universo lúdico. Ao final de 2016, compreendi que o teatro não me proporcionaria o conhecimento que buscava, então comecei a buscar cursos voltados para o universo da palhaçaria e, por meio de uma rede social, fiquei sabendo da oficina”, conta. 

Membros da Escola Livre de Palhaços (Eslipa), que surgiu de uma percepção de que a arte e o ofício do palhaço no Brasil necessitavam de um espaço para formar, qualificar e aperfeiçoar artistas.

Foto: Arquivo pessoal

Agora, oficialmente formada como Palhaça Antonietta, Larissa vê com otimismo seu futuro artístico com a personagem. 

“Na palhaçaria, diferenciando-se do teatro, onde se vestem personalidades do personagem que se quer vivenciar, somos apresentados a um universo de intensa busca interior, possibilitando o encontro do seu ridículo, onde o ápice da comicidade vai estar em exposição. Tenho a intenção de montar números e criar espetáculos com Antonietta, com cenas mudas e focadas na expressão corporal, não somente nas ruas, mas em espaços voltados para exibições teatrais, promovendo a cultura e o questionamento de forma a gerar futuras reflexões no público”, filosofa.

Fundado há 30 anos, o grupo Off-Sina é uma companhia de circo-teatro de rua que desenvolve um trabalho de pesquisa continuada sobre o teatro popular e a arte do riso.

“A Escola Livre de Palhaços (Eslipa) surgiu de uma percepção de que a arte e o ofício do palhaço no Brasil necessitavam de um espaço para formar, qualificar e aperfeiçoar artistas interessados nessa linguagem. Criamos a primeira escola de palhaço da América Latina e a única gratuita, com o intuito de garantir que as próximas gerações tenham acesso à cena do palhaço, pois entendemos que ela contribui com a sociedade no sentido da humanização dos homens e mulheres”, argumenta Richard Guinetti, o Palhaço Café Pequeno, que fundou a Off-Sina e a Eslipa junto com Lilian Moraes, a Palhaça Currupita.

Os professores e atores Rafael Senna e Lígia Caboclo, que criaram “A Verdade do Palhaço”

Foto: Arquivo pessoal

Na maioria das vezes, o palhaço é vinculado aos circos, mas atua, também, em locais públicos e abertos, mostrando sua arte nas ruas, como é o caso da atriz e contadora de histórias Cris Martins, de 33 anos, que dá vida à Palhaça Sitonha.

“O trabalho dentro dos trens da SuperVia é uma performance feita a partir das reprises clássicas do circo tradicional. Não é um trabalho exclusivamente meu. Existem diversos palhaços do Brasil e da América Latina que trabalham dentro do trem. A Palhaça Sitonha surgiu a partir das minhas memórias afetivas do interior do Ceará, local de onde vim. Ela é uma grande mistura da mulher do interior cearense e representa uma mulher de fibra, que cuida da casa e dos filhos, e ainda trabalha fora. E o nome vem do apelido da minha avó, que faleceu em junho deste ano”, explica Cris, que, como artista de rua, tem a perspectiva de que possam valorizar a cultura do palhaço, como um ser afetivo, amoroso e generoso, aberto a dar e receber o tempo todo. “Acredito que não só o palhaço, mas, sim, todo artista de rua no Brasil enfrenta como maior dificuldade a valorização do seu fazer artístico, mas também temos a consciência do nosso papel na sociedade. Então, apesar de não sermos valorizados financeiramente, continuamos exercendo nosso papel político na sociedade, que é de elevar o espírito da pessoa através da arte, fornecendo reflexão e consciência”, assegura. 

Recentemente, Niterói foi palco de duas grandes exposições sobre palhaços. A Sala Carlos Couto recebeu “Palhaçada”, do artista plástico e cenógrafo Joel d’Castro. A mostra, criada em um ambiente cenográfico lúdico, mostrava toda a paixão do artista por essa figura, através de peças com materiais reciclados e telas em aquarela, pastel, óleo, com esculturas, onde pedra, violão, vinil e mala de viagem viravam tela e toco de madeira, um palhaço. A outra exposição foi “Mambembe”, dos artistas mineiros Fábio Francino e Silas Vilela, que mostrara o universo dos palhaços, do circo e dos artistas saltimbancos no Museu Janete Costa de Arte Popular. Ao todo foram 35 obras, com 20 peças produzidas em papel machê por Fábio e 15 esculturas em madeira, em formato de cabeças de palhaços, assinadas por Silas.

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