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Senhores da terra

Os índios da tribo Tekoa Ka’aguy Ovy Porã, que moram em Maricá, são um reflexo da situação dos povos nativos em todo o Brasil

Os índios da tribo Tekoa Ka’aguy Ovy Porã, que moram em Maricá, são um reflexo da situação dos povos nativos em todo o Brasil

Foto: Lucas Benevides

Em 1940 aconteceu no México o primeiro Congresso Indigenista Interamericano, criado para debater políticas que protegessem os direitos dos índios da América. Foram convidados representantes de todos os países do continente, além de diversas lideranças indígenas. Porém, com medo de represálias, os índios boicotaram os primeiros dias do evento. No dia 19 de abril, entretanto, decidiram participar do congresso. Por conta da importância do evento para os indígenas, três anos depois, o então presidente Getúlio Vargas decretou uma lei instituindo que no dia 19 de abril seria comemorado o Dia do Índio no Brasil. Também foi neste dia, só que do ano de 2013, que a aldeia indígena guarani Tekoa Ka’aguy Ovy Porã (mata verde bonita) se mudou para um terreno de 93 hectares em São José do Imbassaí, em Maricá. Antes disso, a tribo viveu na Praia de Camboinhas por cerca de sete anos.

Amarildo Nunes de Andrade – ou Verarete em guarani – 3ª liderança da aldeia, 26 anos, conta que morar em Camboinhas era difícil, porque, além das pessoas não os receberem tão bem quanto em Maricá, o espaço era pequeno e não tinham como plantar. Assim eram obrigados a viver como os outros moradores do local, comprando água e comida no mercado. 

No bairro da Região Oceânica, a aldeia também sofreu represália: um dia colocaram fogo nas seis ocas que foram construídas no local. Além de perderem pertences como documentos e roupas, alguns índios também foram queimados na tentativa de salvar objetos. Hoje, em Maricá, vivem cerca de 70 pessoas no total, entre 15 e 17 famílias, divididas em 25 ocas.

“A convivência é diferente aqui. A gente planta, faz obras... As crianças também estão felizes, brincando dentro da aldeia mesmo, têm mais espaços. É excelente e, todos os dias, nós acordamos, agradecendo a Deus por essa oportunidade e por estarmos bem com toda a família”, analisa Amarildo, que nasceu na aldeia Araponga, na divisa Rio-São Paulo. 

Segundo ele, o preconceito contra o indígena ainda é muito forte no Brasil. Por isso, muitos desistem de aprender em colégios fora da aldeia e abandonam os estudos. Mesmo assim, a maioria da população masculina trabalha na cidade, em empregos como motoristas e pedreiros. No entanto, há também advogados guaranis: os chamados doutores guaranis kaiowá. “Hoje, com esforço, a gente está chegando aos poucos. Mas o preconceito nunca vai acabar. Aqui mesmo, às vezes, passa um pessoal e grita, falando palavrões, mas ficamos no nosso canto, porque isso para a gente é normal. Só que essas pessoas nunca aprenderam que somos iguais a eles, só o que muda é a cultura: a nossa língua, a fala, etc. Mas o resto é igual. Eu posso ir no mercado com o dinheirinho e comprar o que eles comem”, afirma.  As crianças possuem uma escola, em um contêiner, na própria aldeia. Elas estudam lá até a oitava série, depois disso, se matriculam em colégios na cidade, sem deixar de participar da Casa da Reza, tradicional local de aprendizados da tribo, no qual recebem os ensinamentos dos pajés e dos caciques. A importância dos mais velhos é fundamental para a cultura guarani e para todas as etnias indígenas. Segundo suas crenças, eles possuem histórias verdadeiras e reais, por isso, é preciso ouvi-los e respeitá-los.

Casa da Reza da aldeia indígena

Foto: Lucas Benevides

lém do contato diário com a sociedade quando vão trabalhar, os índios da aldeia Tekoa Ka’aguy Ovy Porã recebem, nos fins de semana, diversos visitantes que procuram conhecer a sua cultura. No passeio, que é programado antecipadamente, os visitantes assistem palestras – que geralmente são abertas com a fala do cacique – e danças e cantos típicos como a dança do pássaro, além de praticarem a pesca no rio do lado da aldeia e o passeio para conhecerem a terra.
Neste mês, do dia 21 ao 24, acontecerá um evento na aldeia que permite que as pessoas conheçam mais a cultura dos índios guaranis. Serão três dias de apresentações culturais e jogos identitários indígenas como arco e flecha, corrida de tora, cabo de guerra, natação e corrida de maracá (chocalho).

Além disso, estarão presentes membros de aldeias guaranis de outros estados e de indígenas de outras etnias. A festa é aberta ao público e a entrada é 1kg de alimento não perecível, que será doado para tribos visitantes presentes.

O evento do ano passado foi divulgado no Facebook. Questionado sobre como é a relação da tribo com a tecnologia, Amarildo conta que muitas lideranças de outras aldeias se preocupam com o avanço dela, principalmente pelo que é postado nas redes sociais. Como ele é uma das lideranças, usa o celular – com as redes sociais – para fazer a ponte entre aldeia e sociedade, além de conversar com pessoas de outras aldeias. Amarildo tem WhatsApp, Facebook e Instagram, apesar de não usar muito. 

“A liderança se preocupa porque, ao invés de trabalhar e estudar, as pessoas costumam ficar na internet e temos medo de acontecer aqui. A gente fala para as crianças evitarem. Sendo pai de dois filhos, um de 10 e outro de 4 anos, eu mesmo não dou para eles por enquanto, porque a mente ainda é fraca. Só temos autorizações para liberar o celular a partir dos 15 anos”, explica.
Segundo Amarildo, a demarcação de terra indígena ainda é muito complicada no Brasil, devido às trocas constantes de governo. Ele torce, entretanto, para que todos consigam enxergar a cultura indígena, que é milenar, e possam respeitá-la. 

“Esperamos que algum dia possam ver que a gente passa. Muitas tribos sofrem pela questão da demarcação das terras indígenas, tentando buscar melhorias para suas aldeias. A Fundação Nacional do Índio (Funai) tenta ajudar, mas é difícil sozinha. A luta continua, nunca para”, acredita.

Apesar do dia 19 de abril ser comemorativo, muitas aldeias não festejam a data. Outras, assim como a Tekoa Ka’aguy Ovy Porã, aproveitam o dia para fazer uma reza para todos os índios que foram mortos com a chegada dos europeus no Brasil, a partir de 1500. 

“Para nós, não é dia de comemorar, o sentimento é de tristeza. Mesmo assim, a gente relembra. Geralmente fazemos um canto, uma reza em homenagem a todos os indígenas do passado. Pedimos para que os espíritos deles possam fortalecer a nossa cultura, nos dedicamos a isso. Em algumas aldeias, já é normal fazer uma festa, mas, no nosso caso, é diferente”, explica Amarildo.

Neste mês, do dia 21 ao 24, acontecerá um evento na aldeia que permite que as pessoas conheçam mais a cultura dos índios guaranis.

Fotos: Lucas Benevides

O índio no Brasil

A atual população indígena brasileira, segundo resultados preliminares do Censo Demográfico realizado pelo IBGE em 2010, é de 817.963 indígenas, dos quais 502.783 vivem na zona rural (o que representa 61% do total) e 315.180 habitam as zonas urbanas brasileiras. Também foram registradas 306 etnias e 274 línguas indígenas no País. Cerca de 17,5% da população indígena não fala a língua portuguesa. 

A região que mais possui índios no Brasil, de acordo com o censo, é a Norte, com 305.873 indígenas, seguido da região Nordeste, com 208.691 e Centro-Oeste, com 130.494. O Sudeste fica em penúltimo lugar, com 97.960 na frente do Sul, com 74.960. Apesar disso, o município que mais possui população indígena, segundo o levantamento, é São Gabriel da Cachoeira, em São Paulo. 

Segundo o antropólogo Mércio Gomes, nos últimos 50 anos os povos indígenas, com a ajuda da Funai e da população brasileira que os apoia, conseguiram que muitas de suas terras fossem demarcadas e garantidas. Estas são as boas notícias. Entretanto, há diversos povos indígenas que carecem de terras para viver e lutam muito para conseguir recuperar as poucas que lhes foram garantidas no passado. 

Entre os povos mais sofridos estão os índios guaranis que vivem em Mato Grosso do Sul e em todos os estados do Sul e Sudeste do Brasil, inclusive no Rio de Janeiro. Os guaranis têm terras demarcadas no município de Paraty, nas áreas conhecidas como Parati-mirim e Arapongas. Têm também uma terra chamada Bracuí, que fica no município de Angra dos Reis. 

“Os índios são os primeiros habitantes do Brasil. A grande maioria deles foi destruída pelo processo histórico e pela colonização. Ainda que muitos povos indígenas tenham suas terras demarcadas e condições de sobreviver e manter suas culturas, sofrem muito com a discriminação, preconceito e, sobretudo, com a ambição sobre suas terras. Muitos jovens indígenas querem participar da vida nacional, fazer faculdades, trabalhar e, ao mesmo tempo, continuar a ser indígena. É um desafio muito grande. Eles esperam a ajuda dos demais brasileiros para alcançar o objetivo de terem uma vida digna e serem respeitados como índios”, acredita Mércio, que também é professor da UFRJ e ex-presidente da Funai.

O também antropólogo e professor de antropologia na Universidade Federal de Alfenas, em Minas Gerais, Vicente Pereira, concorda que o panorama dos índios é desfavorável. De acordo com ele, a garantia de suas terras indígenas, devidamente demarcadas e homologadas pelo Estado, está ficando cada vez mais ameaçada. Isso acontece principalmente devido ao avanço do agronegócio (monoculturas de soja, cana e pecuária extensiva principalmente), que também é, e não coincidentemente, a principal causa do desflorestamento no Brasil. 

“Como o avanço do agronegócio tem uma grande representatividade no Congresso Nacional (com a bancada ruralista), o que acontece é a perda gradativa de direitos garantidos na Constituição. Além destes problemas, que são generalizados em nosso País, no Rio de Janeiro, me parece que o principal problema é a invisibilidade, ou seja, os índios guaranis do Rio não são notados pela grande maioria da população, que mantém uma ideia estereotipada dos índios do Brasil, baseada na imagem do índio amazônico, principalmente do Xingu”, explica Vicente, que ressalta que as culturas são dinâmicas. Assim como os brasileiros mudaram de 1500 pra cá, os índios do Brasil também passaram por transformações, sem, no entanto, perder sua identidade, ou seja, sua ligação com um passado pré-colombiano, através de suas línguas, costumes, mitos, rituais, etc.

“Darcy Tupã, da aldeia Ka’aguy Ovy Porã, propõe uma antropologia reversa da que diz, por exemplo, que os índios que usam roupas teriam perdido sua indianidade. Ele costumava responder: ‘se pegarmos um branco e deixarmos ele peladinho vivendo aqui na aldeia, ele viraria índio?’. A resposta é evidente. Claro que essa ligação é fundamental, pois, caso contrário, eles se diluiriam na população brasileira. Bem, na população brasileira pobre, diga-se de passagem, que é nesta camada da população que os índios, que de alguma forma entram no mercado de trabalho, se encontram: cortadores de cana e demais atividades rurais principalmente, mas não somente”, acredita.

Vicente conviveu com a tribo Ka’aguy Ovy Porã durante cinco anos, entre 2008 e 2013, e passou a frequentar a aldeia junto com os índios que, na época, se encontravam em Camboinhas. Para ele, apesar do Dia do Índio ser considerada uma data festiva, a palavra “comemorar” não é adequada. 

“Trata-se de dar visibilidade aos índios e, principalmente, à trágica situação de conflito fundiário pelo qual passam historicamente”, finaliza. 

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