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Silêncios próximos

Escritor Francisco Azevedo fala sobre sua mais recente obra “Os Novos Moradores”

Autor, mais uma vez, arrebata o público e critica com estilo de escrita límpido e sedutor

Foto: Divulgação

Apesar das recentes manifestações conservadoras contra obras de arte com conteúdos eróticos e subversivos, o tema sempre esteve presente nas mais diversas produções criativas e parece inspirar os artistas através dos tempos. “O tabu termina onde o amor prevalece”, afirma o escritor Francisco Azevedo, ao falar de sua mais recente obra “Os Novos Moradores”, uma obra que passeia pelos dramas de duas famílias típicas da classe média carioca num período que vai dos anos 1970 aos dias atuais. Sem medo de ousar e transgredir, o autor de “O arroz de Palma”, seu primeiro romance já publicado em 13 idiomas que vendeu mais de 60 mil exemplares, mais uma vez arrebata público e crítica com estilo de escrita límpido e sedutor.

Por que as relações familiares te inspiram tanto?

“Os Novos Moradores” – como os outros romances que escrevi – nasceu do gosto de observar o cotidiano, da disposição para chegar ao outro e tentar compreendê-lo. E é justamente na convivência familiar que somos obrigados a encarar esse desafio. Nela, conhecemos nossos primeiros limites, exercitamos a disciplina, a obediência e, assim, crescemos e evoluímos. É nas relações familiares que surgem também nossos primeiros questionamentos, a contestação, a não aceitação de regras que nos parecem injustas, causa de profundos e interessantes conflitos.

Aqui novamente você trabalha com a intimidade. Qual o ponto de partida do livro?

Nossa solidão, nossos arquivos secretos. O que guardamos conosco e não revelamos a ninguém. Os silêncios que impossibilitam o diálogo em família. Por que não se dar a conhecer aos que moram debaixo do mesmo teto e se veem diariamente, aos que irão socorrê-lo em caso de acidente ou de doença? Por que a censura entre pais e filhos, marido e mulher ou companheiros de estrada que se amam? Por que lhes escondemos a intimidade? Este é o ponto de partida.
Você acredita que, em um núcleo como a família, uma geração é necessariamente transgressora em relação à outra?

Acredita nos conflitos como naturais?

Repito sempre que, se formos ao dicionário, veremos que transgredir é, antes de tudo, avançar, ir além. Só depois significa não cumprir uma ordem ou regra. Como a humanidade está em permanente evolução, é natural que as gerações mais novas tenham sempre um outro olhar sobre usos e costumes. Um olhar desafiador e diferenciado que lhes permita avançar, ir além. Um olhar, portanto, transgressor. Acho saudável que seja assim.

Falar sobre incesto provoca muita exaltação? 

André Gide, célebre escritor francês, afirmava que tudo pode ser dito, dependendo de como se diz. Acredito que, tratado de forma correta, o tema poderá não causar exaltação. Em “Os Novos Moradores”, embora relevante, o incesto se insere em contexto bem mais abrangente, que envolve as complexas relações familiares. Os dramas e conflitos apresentados são mais profundos. E o tabu se quebra quando o amor prevalece. Acredito na força libertadora do perdão, que liberta mais quem perdoa do que quem é perdoado. Aliás, o romance é dedicado aos que perdoam. 

Você acredita que, para aqueles que se permitem algum tipo de liberdade, o olhar do vizinho é frequentemente o primeiro julgamento? 

Penso que aqui você se refere ao olhar de quem está próximo. Assim, sem dúvida alguma, o primeiro julgamento, ou melhor, o primeiro policiamento virá dos que estão perto e pensam diferente. E também há vários tipos de liberdade, que podem causar diferentes níveis de censura ou reprovação. O modo de se vestir? De se comportar? O tipo de relacionamento? Uma senhora que vive com um rapaz? Uma demonstração de afeto entre duas mulheres ou entre dois homens? Enfim, julgamentos individuais não impedem o evoluir coletivo. Rotular, bater martelo e distribuir sentenças é inerente ao ser humano. 

Que mensagem você acha estar mais fortemente presente em Os novos moradores? 

O olhar compreensivo para as nossas fraquezas, os nossos medos, a nossa falibilidade. Somos todos bichos medrosos e carentes. Precisamos desesperadamente de afeto e aconchego. Precisamos, portanto, uns dos outros.

Depois do sucesso de “O arroz de Palma”, como é a expectativa e sensação de retornar às prateleiras?

Com “Doce Gabito”, meu segundo romance, já vivi essa bela sensação de “retornar às prateleiras” e a expectativa de ser bem recebido pelo meu público leitor. Com “Os Novos Moradores”, a sensação e a expectativa se repetem. Felizmente, até agora, os leitores se têm manifestado de modo entusiasmado e bastante favorável. E o mais importante: mensagens sempre afetuosas. Para mim, não há maior alegria.

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