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Testemunha da história

Niteroienses revelam suas memórias de eventos marcantes da história local, como a construção da Ponte Rio-Niterói

O jornalista e advogado Célio Erthal Rocha, que testemunhou como repórter dois eventos marcantes na cidade: o quebra-quebra das barcas, em 22 de maio de 1959, e o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em dezembro de 1961

Foto: Lucas Benevides

Por Paula Latgé
Colaborou / Lorena Araujo

A história é nossa maior forma de nos conectar com o passado e, assim, pensar e entender melhor a sociedade e o que está por vir. Vale a ressalva de que a história pode ser cíclica e devemos valorizar sua preservação, seja por meio de museus, centros culturais, documentos escritos e também pela oralidade. A cidade de Niterói é repleta de histórias e tem gente que é testemunha ocular desses acontecimentos marcantes.  

Dalva Costa, de 74 anos, por exemplo, presenciou a construção da Ponte Rio-Niterói, no início da década de 1970. Ela afirma que foi uma grande alegria para a população na época.

“Quando foi inaugurada, era motivo de passeio de domingo! No início, ficava com medo de passar nela, mas, depois, fiquei segura e percebi que era um grande facilitador, já que antes para ir para o Rio precisávamos pegar uma balsa”, explica a aposentada Dalva, que também foi testemunha do maior acidente da cidade, o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em 1961. “Muitas famílias morreram, tive pessoas muito próximas que perderam seus parentes, foi tudo muito sofrido. O meu marido teve que ajudar a abrir covas, pois não havia espaço para enterrar tantos corpos”.

Jornalista, advogado e membro da Academia Fluminense de Letras, Célio Erthal Rocha (87) também presenciou o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, mas fez parte da cobertura jornalística do acidente. Também foi testemunha do “quebra-quebra das barcas” em 1959. Escreveu artigos e o livro “Jornalismo, política e outras paragens”, onde relata sobre a situação das barcas. Segundo Erthal, o Incêndio das Barcas aconteceu em uma sexta-feira, no dia 22 de maio de 1959. Na época, o transporte marítimo entre Niterói e Rio era monopolizado pelo Grupo Carreteiro. O serviço era de péssima qualidade, lanchas desconfortáveis, barcas obsoletas e sem horário certo de partida. À meia-noite do dia 22, começou uma greve dos operários por atraso de salário. Já às 8 horas da manhã, a praça Arariboia estava lotada e fora de controle, no tradicional horário do “rush”, a população tentava embarcar e não conseguia.

Dalva Costa, que se lembra do primeiro dia de abertura da Ponte Rio-Niterói, no início da década de 1970

Foto: Douglas Macedo

“A revolta cresceu e o tumulto tomou conta do local, então começou a depredação e o incêndio das Barcas. A polícia e o Corpo de Bombeiros não conseguiram conter a revolta do povo. Posteriormente, a multidão se dirigiu aos escritórios do Grupo Carreteiro e, não satisfeita, à residência do diretor da empresa, na Alameda São Boaventura. O patrimônio pessoal da família foi destruído e, no meio do fogo, podia se sentir o cheiro dos ricos perfumes franceses queimando. No total, houve sete mortes e 125 feridos. 

Já o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, ocorrido em Niterói no dia 17 de dezembro de 1961, aconteceu porque o dono do circo, Danilo Stevanovich, havia comprado uma lona nova, que pesava seis toneladas, de náilon - material inflamável. 

“Participei da cobertura pelo jornal O FLUMINENSE, era uma tarde de domingo, e a matinê estava repleta. Das três mil pessoas que integravam a plateia, mais de 800 ficaram feridas e mais de 500 pereceram, a maioria, crianças. Na época, o Hospital Municipal Antônio Pedro, o mais importante hospital de Niterói, encontrava-se fechado. Diante da catástrofe, enquanto os feridos eram distribuídos entre diferentes unidades de Niterói, São Gonçalo e do Rio de Janeiro, o Antônio Pedro foi reaberto à força, com o Dr. Almir Guimarães assumindo a direção do hospital e o Dr. Guasti, do pronto-socorro. Remédios, roupas, medicamentos e equipamentos foram doados pelos governos de vários países. Entre os médicos estava Israel Figueiredo, que, depois de identificar o corpo da filha de 4 anos, morta no incêndio, encontrou forças para tratar de outras crianças feridas. Os sobreviventes enfrentaram meses e até anos de tratamentos médicos, conservando profundas cicatrizes, no corpo e na alma. O trauma marcou de tal forma a população de Niterói que, durante décadas, foi proibida a montagem de circos na cidade. E, mesmo após a retirada da proibição, os niteroienses mantiveram a fama de não gostar de circo”, revela Erthal Rocha. 

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