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Rascunhos Nus

A coluna do publicitário, capricorniano e escritor Hugo Rodrigues fala sobre relacionamento, romance e comportamento. São os dilemas que tornam a vida mais interessante

Teus dedões me apontam outros rumos

Dedão é uma palavra horrível, embora os dos teus pés se pareçam com setas apontando para onde vão. Ou como formas físicas de chamar a atenção do outro que se encontra levemente distante e distraído. Me-olha, teus dedões dizem ao me encostar numa cena nada poética, que nem aspiraria nada de encantador, mas a brisa entre o que é estar e o que é viver dos livros, como você me ensinou, é o que nos faz aqui, pequenos encantadores do cotidiano morno. Como quem comemora visitar Niterói aos finais de semana e, quiçá, não pegar trânsito na ponte. É o caminho.

Somos jardineiros do asfalto enquanto discutimos sobre a cor das rosas que plantaremos nas esquinas. Nem sempre são rosas. Essa frase é tão óbvia que tua cara nem se mexe, nem se espanta, nem se engrandece mais. Fica aí, meio blasé, meio foda-se, eu já escrevi sobre isso, você acabou de me lembrar, eu repito frases feitas, tipo o Cazuza, embora o Cazuza faça as frases feitas – eu só as aproveito depois de prontas. É-por-isso-que-você-não-é-um-bom-escritor, você diz, meio com razão, meio pra implicar, meio que sem muito a opinar porque nunca leu um bom escritor para saber o que é um bom escritor ou um péssimo escritor. Nunca folheou um Caio, ou um Bukowski, ou um Fante, ou um Pessoa, ou um Zambra, ou até uma Matilde, que você fingiu ter ouvido os vídeos do YouTube que te mandei, mas quando eu parafraseava algo numa conversa besta, você nem pegava a referência, mas insiste em dizer que não sou um bom escritor que até que tudo bem. Faço festas pelos outros. Por aqui, eu só tiro as palavras de mim como quem chega desesperado em casa para ir ao banheiro. Tá, vendo, quem escreveria sobre dedões do pé e vontade insana de ir ao banheiro? 

Poetas se reviram por aí, com cartazes bonitos, rimas ricas, e você se perdeu nas letras dos outros, mais românticos, mais lineares, fazedores de sonetos perfeitos, que citam Chico Buarque – mas só as conhecidas (nunca leram “Benjamim”) ou até “A Parte que Falta” porque viram no vídeo da Jout Jout – e nunca ficaram segundos eternos olhando para cada ilustração e suas particulares simples. Tudo bem. Somos feitos do parir ao partir. Você tatuaria essa frase na testa caso tivesse sido escrita por algum moço popular, com barba grande, óculos estilo Harry Potter e camisas de bandas inglesas.

Teus dedões me apontam outros rumos. Subidas intensas, cheias de tendões tensionados.

Meu peito vazio já pesa mais do que oito toneladas. Imagine carregá-lo cheio de saudade.

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