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Tratamento especial

Tratar pessoas com alguma doença ou transtorno requer conhecimento, prática e dedicação

O cirurgião-dentista Carlos Coutinho atende, há 25 anos, pessoas exclusivamente deficientes ou com alguns transtornos, como, por exemplo, o autismo

Foto: Lucas Benevides

Muitas pessoas dedicam parte do seu tempo para ajudar ONGs ou se voluntariam em projetos voltados para pessoas deficientes. Mas há também quem participe, profissionalmente, da vida dessas pessoas. O desenvolvimento de um trabalho com o indivíduo especial, seja ele qual for, também torna o profissional especial, porque envolve uma responsabilidade que ultrapassa a obrigação. O tratamento é diferenciado e requer paciência, preparação do ambiente, técnicas específicas, na maioria das vezes, cuidado, atenção mais do que redobrada e até mesmo coragem, em alguns casos.

O cirurgião-dentista Carlos Coutinho, de 49 anos, atende há 25 pessoas exclusivamente deficientes. Ele atua, diariamente, em algum de seus locais de trabalho: no consultório particular, em São Gonçalo, na Clínica-Escola do Autista, espaço criado em parceria da prefeitura com a ONG Nuance, no município de Casimiro de Abreu, no Centro de Especialidade Odontológica, também em Casimiro de Abreu, além de realizar atendimento domiciliar no hospital com anestesia geral e atender pacientes internados no CTI que estão precisando de intervenção odontológica, inclusive, nos fins de semana, se preciso. 

“Sempre trabalhei com grupos de serviços. Meus pais são do Lions Clube, do Rotary, e eu fiz parte de um grupo de jovens que fazia caridade, sempre gostei de ajudar. Quando entrei na universidade, comecei a ver a diversidade da patologia das pessoas. Quando me formei, senti que não fazia nada, precisava fazer mais”, admite Carlos.

O cirurgião-dentista conta que, nessa época, ainda não existia especialização em pacientes especiais e, enquanto isso, decidiu fazer cursos e congressos na área médica. No início de sua carreira, colegas que tinham pacientes complexos, como diabéticos, hipertensos, hemofílicos, os encaminhavam pra ele, estimulando-o a estudar, até que surgiu a especialização.

Carlos, portanto, tirou a especialização odontológica em pacientes com necessidades especiais pelo título “notório saber”, conferido pelo Conselho Federal de Odontologia, que viria a qualificá-lo de fato ao comprovar o histórico profissional de prática pela experiência na área.

“A diferença está na abordagem, a gente precisa de mais tempo, estar mais bem preparado com a segurança, emergências. Muitas vezes, o preparo para o atendimento é maior, o tempo de consulta se torna maior, e a gente precisa estar sempre disponível para dar apoio no pós-operatório”, explica Carlos.

Ele também já teve uma ONG chamada “Centro de Estudos e Educação de Saúde”, que tinha convênio com a prefeitura e com o Estado, onde trabalhou durante muito tempo. Atualmente, além de profissionalmente, ajuda pessoas espontaneamente, quando reconhece alguma necessidade que está a seu alcance. 

O cirurgião-dentista conta que já teve um paciente esquizofrênico, que tinha trauma de dentista. Carlos explica que ele não tinha nenhuma coroa de dente, só as raízes, e ofereceu tratamento gratuito. Nas idas e vindas ao consultório, o paciente desabafou que tinha problemas em casa, então, decidiu reunir um grupo que, na sequência, tomou a iniciativa de recorrer à Assistência Social, que fez uma visita a ele, que morava de favor nos fundos da casa de uma tia. Quando as assistentes sociais chegaram lá, perceberam que ele vivia em condições precárias, em um cômodo com muitos marimbondos e chão de terra batida. Fizeram uma reforma na casa e contrataram uma empresa dedetizante, além de doarem, regularmente, cesta básicas. Nesse processo, acabaram descobrindo a habilidade de desenho que o jovem tinha e começaram a estimular essa capacidade inscrevendo-o em concursos.   

Diego Rodrigues, de 35 anos, também é um exemplo de profissional que atende pessoas especiais. Em 2004, começou a estagiar na Associação Fluminense de Reabilitação (AFR) e  trabalha lá desde então como fisioterapeuta, supervisor acadêmico dos estudantes e responsável técnico da instituição. Diego conta que a AFR também atende plano particular, mas que a demanda de pacientes carentes, encaminhados pelo SUS, é maior. 

“A dificuldade é a questão da sensibilidade. Geralmente, quem tem recurso, tem condição de custear outros tipos de tratamentos de reabilitação. O aprendizado pessoal é muito grande porque você lida com um sofrimento que não tem como você não refletir sobre isso na sua vida, nas suas relações. É muito mais intenso do que em um consultório. Até porque tem uma equipe multidisciplinar, que você está trocando com outros profissionais” diz Diego. 

O fisioterapeuta confessa, ainda, que já ajudou pacientes que não tinham recursos através de bolsas, financeiramente e até continuou acompanhando pessoas especiais mesmo depois que tiveram alta. Para ele, doenças degenerativas são as mais difíceis de recuperar. No AVC e Parkinson, por exemplo, o paciente apresenta uma perda motora gradativa e cada pessoa tem uma maneira muito particular de reagir a doença, e a aceitação também varia.

“O paciente começa com você em um estágio e depois evolui a óbito, tem um perda muito grande. Alguns conseguem lidar bem com a doença apesar de tudo, e tem outros que tem uma incapacidade até muito menos agressiva e se abate completamente. É muito relativo” explica Diego. 

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