Assine o fluminense

Um mundo off-road

Cresce no Brasil o movimento dos jipeiros, que viajam pelos estados à procura de trilhas radicais ou cinematográficas e novas amizades

O casal Juliana e Fábio Barreto entrou para o mundo off-road e carrega para as trilhas as filhas Bruna e Júlia

Foto: Lucas Benevides

Sentir o cheiro das matas, a umidade entre as árvores e, em dias de sol ou de chuva, encarar qualquer estrada. Tornar-se amigo de um desconhecido depois de cinco minutos de conversa, até porquê, no meio de uma trilha, afinidade é o que não falta. Eles entram em seus 4x4 e topam as aventuras mais inimagináveis, carregando com eles a família, os amigos e até o cachorro para dormir em pousadas, hotéis, chalés e barracas... Conheça os jipeiros, um movimento dos apaixonados por off-road que só faz crescer no Brasil.

O casal de comerciantes Juliana (42) e Fábio Barreto (45) adquiriu um carro 4x4 em 2014, mas nunca tinham tido interesse pelo mundo off-road. Um dia, surgiu uma grande vontade de fazer novos amigos e conhecer novos lugares, inspirada em um amigo que havia comprado um carro 4x4 e conhecido um grupo desse universo.

“Ele tinha feito algumas trilhas e conheceu o Eduardo da Hora, que tem um excelente e conhecido curso na área off-road – O Curso Trovão Verde, em Maricá, que passa toda noção e técnica para utilização do carro em diversas situações, visando a segurança, sem estragar o veículo. Depois de muitos convites, só em maio de 2018 decidimos ir à reunião. Fomos muito bem recebidos pelos integrantes, e houve um convite para fazermos um treinamento (curso de salvamento off-road) no Corpo de Bombeiros da Barra. Foi muito interessante, nos trouxe ensinamentos que nunca teríamos a oportunidade de aprender. Depois, fizemos o curso do Trovão Verde. Adquirimos a nossa TR4 – (cujo nome carinhoso é Serena) para curtir com mais segurança nosso novo mundo”, conta Juliana.

Em 24 de junho de 2018, o casal foi efetivado no Jeep Clube Maricá 4X4. O clube foi fundado em 5 de junho de 2004, não coincidentemente no Dia Mundial do Meio ambiente, por Eduardo da Hora. Hoje, é o maior do estado, com 130 sócios, sendo o mais ativo em eventos (realização e participação). As atividades acontecem dentro do Estado do Rio de Janeiro, assim como fora.

“O JCM não tem fins lucrativos, é autossustentável. Nos eventos, temos o cunho social  de arrecadação de doações de diversos tipos, de acordo com cada evento. Fazemos nossas reuniões uma vez por mês (todo último domingo), além de participarmos de vários eventos. Realizamos para os sócios eventos exclusivos para agregar a família à natureza. Nossa mensalidade de R$ 20 é usada para custear os eventos fechados e para a confecção de materiais, camisas, adesivos. Em especial, esse ano, completamos 15 anos, e faremos um superevento aberto dia 12 e 13 de outubro em Maricá”, adianta Eduardo.

Casado há 11 anos, Eduardo da Hora faz as trilhas sempre acompanhado da esposa

Foto:arquivo pessoal

Trilhas – No geral, existem dois tipos de experiência em trilhas off-road. Uma delas é a de Dificuldade, como a aventura na Serra da Bocaina (SP), quando Eduardo passou por muita lama e erosões em 2012. Uma trilha que levaria umas 8 horas, por causa de uma chuva de 40min, aumentou o tempo do percurso para 27 horas, sem parar para descansar. Outro tipo de experiência é a Adrenalina de Beleza, como uma viagem à Serra da Canastra (MG), que Eduardo considera a “Disney” do off-road.


“Fiz essa última no carnaval deste ano. Possui muitas trilhas e paisagens cinematográficas. Cada cachoeira mais bonita que a outra, e o melhor: tudo é muito bem-conservado. É de lei levar minha família para os deslocamentos. Sou casado há 11 anos e tenho um filho de 14. Sempre estamos juntos nas trilhas e viagens. Tenho um jipe Troller 2005, carro que uso para tudo. É minha ferramenta de trabalho, mas uso no dia a dia também. Esse jipe é parte de mim. Sei que vai dar ruim em casa, mas prefiro passar um dia dentro dele, vagando pelas roças do estado, do que um dia dentro de casa. Lógico que junto com minha família”, brinca Eduardo, lembrando que, nos últimos anos, foi preparando melhor o jipe: colocou pneus maiores, guincho, bloqueio de diferencial, conforto interno. “No levantamento do Rally Carioca, passo mais de 10h por dia dentro dele. Só falta um coisa: bloqueio no diferencial dianteiro. Aí vou poder falar que ele está completo”.


Nos off-roads pelo Brasil, uma coisa é certa: a aventura e a diversidade. Famílias e pessoas solteiras com amigos convivem em clima de animação, principalmente após superar obstáculos e desafios. É fácil fazer amizade! Para a comerciante Juliana, significa estar em paz com o interior, pois não existem diferenças (raça, financeira, crença, profissão, estética).


“Nada importa quando se está em uma trilha. Ninguém se conhece, e isso não faz a menor diferença. É encantador, após uma curva escura, cheia de pedras e barrancos, você se deparar com o mundo de Nárnia (como nosso amigo Dudu sempre diz ao rádio quando estamos chegando ao nosso destino) – deslumbrante, com lindas montanhas, pássaros, borboletas, cachoeiras... Ah, fora que alguns proprietários das fazendas disponibilizam suas terras para passarmos sem nenhum problema e ainda nos convidam para um café. Na verdade, não tem tecnologia e nem lente de câmeras que retratem o que nossos olhos realmente podem ver”, ressalta Juliana.


Para a novata Edilaine Vilar Kirk, de 43 anos, a compra do Suzuki Jimny Branco 4Sport foi a realização de um sonho. A professora de língua portuguesa explica que ela acabou ficando perdida em meio aos acontecimentos da vida adulta, mas, após passar por dois momentos dramáticos, fez um esforço e voltou a olhar para aquela menina sonhadora. Na hora, lembrou de algo que desejou muito e poderia trazer a ela a vitalidade que necessitava.


“Passei por duas perdas muito dolorosas. Meu pai faleceu e, após recuperada da tristeza da perda, descobri que precisava fazer uma cirurgia que me incapacitou de engravidar novamente, sonho que ainda mantinha, mesmo já passando dos 40 anos. Novamente mergulhada numa tristeza sem fim, comecei a pensar na minha filha, que precisava de mim. Decidida a dar a volta por cima, pensei: ‘se eu voltasse na minha infância, o que eu estaria querendo fazer agora?’. Me imaginei no meu jipe branco. Levantei da cama na hora e corri para as concessionárias que ficavam perto da minha casa. Comprei no mesmo dia. Dei tchau ao meu Peugeot sem dó! Com uma semana, carro novinho, eu já estava fazendo trilha... Entrei nas redes sociais e saí adicionando todos os grupos de off-road que apareciam e as trilhas foram surgindo. Foram muitas, nem lembro. Eu só vou...”, diverte-se a moradora de Piratininga, que, normalmente, frequenta passeios leves: “Não tenho experiência, mas curto a paisagem, a energia do pessoal ajudando um ao outro, a estrada de chão, o poder estar onde muitos carros não conseguem chegar. Podemos estar em praticamente qualquer lugar”.

Além dos serviços voluntários que os associados do JCM 4X4 prestam, juntamente com órgãos em situação de desastres naturais e enchentes, eles também arrecadam nas inscrições de seus eventos alimentos para doação

Foto: arquivo pessoal

Mercado – De acordo com o presidente e fundador do JCM 4x4, a indústria tem investido muito nesse mercado. Mesmo com o Brasil em crise, esse segmento (off-road) não sofreu queda e continua crescendo.

“O problema é que algumas empresas, para dar mais conforto aos seu clientes, ‘enfraqueceram’ o produto no quesito off-road (ao comprar, a pessoa ainda precisa gastar para preparar o carro). Hoje, no Brasil, podemos falar de alguns modelos em circulação como Troller, Suzuki Jimny, Land Rover, Niva, CJ, Bandeirante, Egesa, JPX, Agrale Marrua, entre outros. Os dois primeiros, com pouco investimento em equipamentos, já superam muitos obstáculos. Saindo deles, temos uns SUV, que suportam certas brincadeiras, e as picapes, que são top no segmento”, analisa Eduardo da Hora.

Para o empresário Ruy Ciasca Junior, de 53 anos – referência nacional no assunto 4x4 e criador de um projeto de suspensão próprio –, mesmo com a crise, os adeptos do off-road não deixam de investir em suas máquinas gigantes.

O paulista se interessou em trabalhar nesta área em 1999, atendendo às exigências deste nicho de mercado. Isto aconteceu após ter adquirido um veículo 4x4, um Ford Explorer ano 1994. Quando foi atrás de equipamentos e serviços para poder efetuar algumas alterações, pôde perceber o quanto este mercado estava em falta de mão de obra e como os produtos que são vendidos ainda hoje, em sua maioria, são apenas paliativos, não passando de adaptações que geram instabilidade e desconforto por suas ineficiências.

“Muitas aumentam a altura do carro, mas perdem estabilidade, segurança ou conforto, às vezes, os três juntos. Então, como já trabalhava na linha automobilística e preparava alguns carros para eu mesmo competir em provas como Stock Car, Mil Milhas, Cart, decidi iniciar a fabricação desses produtos. Enquanto eu preparava meu carro, já vieram amigos e clientes que, antes mesmo de eu ter finalizado uma transformação, já estavam encomendando as suas transformações de acordo com as necessidades de cada um”, lembra Ruy.

Nesta época, o empresário tinha uma oficina de funilaria e pintura com 750m², e praticava esportes de velocidade. Foi quando decidiu mudar radicalmente para o off-road.

“Logo mudei a categoria de piloto de corridas para piloto de off-road. Inclusive, ao participar da minha primeira prova de competição, a Copa Baja 2000, fui campeão da primeira etapa já com este Ford Explorer que eu mesmo preparei. Neste tipo de prova, o que realmente conta é a audácia do piloto e a eficiência da suspensão, já que os obstáculos são grandes pedras e subidas altamente íngremes que devem ser transpassadas sem auxílio externo e sem sair do trajeto predefinido”, explica Ruy, que vem colhendo os frutos de um crescimento de 100% ao ano em sua oficina, com cerca de 30 funcionários. “Quanto mais eu me empenho e me dedico a estudar e aprender sobre os assuntos que estão relacionados à área do setor automotivo, mais eu tento aplicar e atualizar os meus serviços e produtos para servir este público maravilhoso, tanto do off-road como da reparação convencional. ​

Alterações mais comuns em 4X4

. Troca dos pneus para maiores.

. Aumento da altura com calço de carroceria (tipo de alteração de custo mais baixo, mas que dá condições de colocar pneus com diâmetros um pouco maiores, porém sem muitas alterações no veículo e mantendo o trabalho de suspensão totalmente original; pela adaptação ser mais simples, sua eficiência é mais visual do que prática).

. Aumento da altura com calços na suspensão (mais barato, costuma ser feita porque já colocou os calços de carroceria; proporciona um pequeno ganho na altura, que faz o consumidor perder área de articulação na suspensão e também tira o bom funcionamento desta; prejuízos estes que virão a surgir nos desgastes dos pneus, direção sem rumo devido à falta de recursos para alinhamento, entre outros pontos).

. Troca da suspensão original por um sistema de suspensão JR4X4, projetada para cada modelo de veículo, que dá ao carro um bom ganho de altura (no mínimo 4,5 polegadas a mais só na suspensão, sem contar o ganho pelo diâmetro do pneu, que será maior) e trata-se de uma suspensão mais robusta, desenvolvida para o off-road, com mais articulação, conforto, segurança e estabilidade, sistema que deixa o veículo equalizado e ajustado, tanto para passeios como para a prática do esporte.

. Fabricação de para-choques em aço, serve para proteger o veículo de impactos contra pedras, árvores e outros, além de dar uma característica de maior robustez ao veículo. è Instalação de Guinchos para rebocar o próprio veículo ou outro em casos de trechos em que só a tração não é suficiente.

. Instalação de Snorkel, para proteger o motor de absorver água e poder sofrer um calço hidráulico.

. Adaptação de Fenders, ou seja, alargadores de para-lamas para que os pneus maiores não fiquem para fora da cobertura do carro.

. Gaiolas de proteção, Peitos de Aço entre outros serviços e produtos. 

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Scroll To Top