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Elisa Lucinda

A premiada atriz Elisa Lucinda divide com o leitor dicas, experiências e reflexões de maneira singular estabelecendo o conceito artístico em todas as palavras

Uma educação de adultos

A educação do adulto não acaba nunca. No aprender da caminhada, estou sempre compartilhando através de poemas, crônicas, artigos,poesias e prosas, as coisas que aprendo no exercício do viver. E aí também me sinto, ao compartilhar os saberes, aluna e professora destas lições. Somos todos.

Tenho procurado estar mais atenta, cada vez mais, ao que digo e tenho me lançado nessa tarefa sem que seja a custo de perder minha alegria, o bom humor, a piada. Só estou cansada é de um velho humor que só bate em quem já apanha, debocha das periferias, dos gays, dos pretos, dos pobres, dos travestis, das pessoas trans, anões, gordos e etc... O que estou é levando muito a sério o meu papel de atriz social. Somos todos atores sociais. Por exemplo, há pouco tempo me dei conta da ignorância dos racistas. Como o conceito racista não engendra uma teoria defensável, quem o sente costuma omiti-lo e, de uma certa forma, é vítima de tal mesquinharia subjetiva ou teórica, que, sem que muitas vezes perceba, decidirá sua prática dentro da vida. Por isso, de posse dessa informação, tenho atuado no meu cotidiano no sentido de promover um certo (não se assustem) “terrorismo” simbólico por onde passo, uma coisa que, de alguma maneira, só necessite dos fantasmas do próprio interlocutor para provocar a reflexão, para aterrorizá-lo no sentido de fazê-lo reparar no absurdo que normatizamos. 

Certo dia, estava fazendo uma oferenda para Oxóssi, um orixá ecológico. O sol de primavera fazia o seu serviço entre as copas e eu no meio daquela tarde ensolarada colocava frutas no pé de carambola como parte do ritual. Era só isso que eu tinha que fazer. Quando de repente, enquanto eu cantava baixinho: “Oxóssi filho de Yemanjá, divindade do clã de Ogum...” passa um carro cujo motorista diminuía a velocidade para me observar. Não satisfeito, interrompeu o rumo do seu destino naquele momento, manobrou de modo a colocar o seu rosto diretamente na direção da oferenda e de mim e parou ali. Não olhei para ele, que estacionara do outro lado da rua e apoiava o queixo no braço que apoiara na janela aberta do carro de onde me lançava o seu, de certa forma, ostensivo olhar. Quem me trouxe essas informações foi a visão periférica. Não olhei nunca direto para ele. Percebi. Sua energia não era discreta. Quereria me intimidar? Quem seria? Eu nunca teria coragem de fazer isso com religião nenhuma; já passei em frente a vários cultos, conheço muitas manifestações de fé e não me ponho diante delas para desrespeitá-las. 

Não sei se pensei isso na hora, só sei que comecei a cantar e a bater palmas, e a rodar em volta das frutas, cantando assim: “Corre macumba, pegar curioso, corre macumba, pegar curioso...”, ao que o homem disparou, partindo em retirada, com pressa, como se fugisse do invisível. E estava. Corria dos seus fantasmas, corria de viver entre macumbeiros de armário, ou seja, aqueles que vão à Umbanda, ao candomblé, fazem o ritual para salvar a vida, o emprego de algum filho ou marido, ou um casamento, e depois, nos clubes, nos grandes salões, sob os chapéus suntuosos das corridas nos jóqueis, declaram publicamente entre os amigos de champanhe e caviar a sua fé nos santos oficiais católicos. É mentira.

O que fiz naquela tarde foi uma brincadeira apenas. Não estava no script, inventei na hora a musiquinha da macumba que pegava curioso. Coisa de criança. Ri muito sozinha depois, descendo a ladeira. Que bobo. Que ignorante. Como posso ajudá-lo? 

Acho que todos temos que tomar um banho da nova velha história brasileira; nossos heróis são tortos. O que realmente fez Duque de Caxias? Qual foi o crime de Tiradentes? O que foi o primeiro império brasileiro? O que aconteceu para que a Princesa Isabel se visse obrigada a assinar a abolição da escravatura? Quem habitava os quilombos? Mora um grande equívoco na base de nossa história. Em minha utopia deveria ter sido assim o nosso começo: “Olá, somos portugueses como é que se anda nessas terras? O que é que podemos plantar e colher? Que tal juntarmos nossas habilidades e o vosso conhecimento do território, e que tal governarmos juntos?” Quem não percebeu? Precisamos admitir que deu errado. Se vivemos numa sociedade em que o adulto diz para uma criança não andar com outra porque ela é negra, numa sociedade em que a mãe diz pro filho que o amiguinho dele tem cabelo ruim; numa sociedade em que pais dizem para os filhos não se misturarem às outras crianças porque elas são pobres, é porque vivemos numa sociedade onde se corrompe sistematicamente a infância. Isso é violência. O Deus dessas pessoas está sabendo disso? Ensinar racismo, classicismo, fere o estatuto da criança e do adolescente. Deu errado. Portanto, famílias brasileiras que se amontoarão em volta das mesas natalinas recheadas com as guloseimas da festejada data, não se iludam. Pois se houver um racista entre estes, estará traindo Jesus, o menininho sagrado, base firme dos preceitos católicos e que acaba de nascer nesse dia, numa pobre manjedoura, segundo reza catequese. Mas quem festeja gosta de pobre? Quem festeja exclui gays e lésbicas? Se quem festeja expulsou de casa o filho travesti, a filha trans; o que exatamente comemora em volta do presépio?

Me chama muito a atenção a existência de gente que se diz caridosa, mas escraviza a babá de seus filhos, seus empregados são humilhados antes e depois da Missa do Galo. Confia-se demais no perdão de Deus. Abusa-se demais do pecado e não lhes parece que os preconceitos estão incluídos nos pecados capitais nos quais tanto e tantos acreditam.
O Ano Novo se aproxima e tudo nos convoca à repaginação. Ou fazemos isto ou o nosso tempo nos massacrará e seremos definitivamente reprovados na escola da vida. Um novo ano pede novos homens e novas mulheres. 

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