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Uma vida com propósito

Em 'Tête-à-Tête' deste mês, a repórter Ana Paula Soares conversou com o diretor-fundador do More, Sérgio Ponce

Sérgio e Sílvia Ponce em 2011 com algumas das crianças ajudadas pela ONG criada pelo casal

Foto: Arquivo pessoal

A obra “O Bom Samaritano” (1890), do pintor holandês Vincent van Gogh, está na abertura do site da organização não governamental e sem fins lucrativos “More Project”, fundada em Niterói em 2006 pelo casal Sérgio e Sílvia Ponce. Não por acaso, a parábola na Bíblia referente ao “Bom Samaritano” quer dizer, em livre interpretação, que independente do resultado e da adversidade, deve ser feito o bem ao próximo. Aos 30 anos, Sérgio, diretor-fundador do More, viu sua vida mudar completamente os rumos ao perceber o abandono de um menino em situação de rua. Desde então, ele se dedica ao social e à ajuda ao próximo. Aos 58 anos, Ponce abre o coração e fala quais foram suas motivações e realizações desde então, sempre em prol do amor.

O que te levou a criar o More Project?
Nunca pensei em criar um projeto social, foi acontecendo aos poucos. Comecei ajudando algumas pessoas com problemas com drogas, quando eu tinha 30 anos. Daí, junto com meus pais, um dia, encontramos no Centro de Niterói um menino com um pano sujo, encharcado de gasolina na boca. Ele sugava aquele pano, seus olhos viraram e, de repente, saiu correndo entre os carros completamente alucinado. Corri até pegar ele, o abracei, olhei em seus olhos e pronto, nunca mais pude deixar de olhar para “os meninos de rua”. Criamos As Casas Família Resgate, Associação Operação Resgate, Resgate Cidadania e, posteriormente, em 2006, o More Project. 

Que mudanças o trabalho com a ONG trouxe à sua vida e como elas transformaram sua forma de enxergar o tempo? 
O More Project sempre foi uma prioridade na minha vida, conviver com a favela e sua realidade sempre exerceu uma enorme influência em todas as minhas decisões. Sempre estive atento às ações que pudessem, de verdade, fazer de mim um instrumento de mudança e transformação na vida das pessoas que vivem nas favelas de Niterói.

Alguma história que você poderia destacar?
Tenho centenas de histórias, felizes e tristes. Perdi meninos e meninas. O tráfico de drogas e seus comprometimentos levaram para o cemitério meninos que eu amava profundamente, aos 15, 16, 17 anos... Levaram outros para a cadeia. Mas, temos outros que, hoje, longe das garras malditas que oprimem os adolescentes na favela, estão vivendo seus sonhos.

Que pessoas estiveram do seu lado todos esses anos?
Meu Deus, muita gente, muita gente mesmo. Impossível nomear aqui. É uma linda história de amor: muitos dramas, muito choro, muitas lágrimas e muitos sorrisos, gargalhadas e alegrias.

Como o More Project consegue atuar na vida das pessoas em situação de extrema pobreza e risco social? 
Nossa proposta, durante esses anos, sempre foi de transformação social através do amor. Atuamos em várias frentes por muitos anos, desde a creche até a escola profissionalizante.

 

Foto: Divulgação

Vocês atendem crianças a partir de 1 ano, adolescentes e suas respectivas famílias. Quais serviços e aulas são oferecidos e para quais comunidades da cidade? 
Hoje, atendemos adolescentes e crianças a partir dos 10 anos, aproximadamente 350 crianças diariamente (eram 500), pois tive que fechar uma de nossas unidades temporariamente por falta de recurso financeiro. Era o Projeto Crer, onde atendíamos em torno de 250 crianças de 4 a 11 anos. Estamos, hoje, com uma unidade no Fonseca, onde temos o More Project Than Music – uma escola de música onde as crianças praticam e estudam aulas de musicalização e instrumentos musicais – e outra unidade em Várzea das Moças, onde temos o Complexo Esportivo, onde também atendemos crianças com atividades esportivas, aulas de tênis, artes marciais e futebol, além de dar suporte às famílias na área social, psicológica e jurídica. Atendemos crianças de várias comunidades, crianças até de municípios vizinhos. 

Qual a relação e afinidade de seus filhos com o projeto? 
Temos o Estevão, a Rebeca e o Patrick. Estevão e Rebeca são casados e moram nos EUA, foram estudar lá e acabaram ficando. O Patrick é um filho que o More Project nos deu. Ele tem 19 anos e mora em Várzea das Moças. Toda a minha família está comprometida e ligada ao More Project. Esse é um projeto familiar, sempre foi.

Como é possível fazer parte como voluntário? 
Precisamos de voluntários, muito! Quem quiser ajudar, pode entrar em contato com o Renato Marinho pelo e-mail contato@more.org.br, que ele terá o maior prazer em fazer todo o processo. Trabalho de voluntariado sempre é necessário, em atividades como reforço escolar, atividades esportivas, comportamental, língua estrangeira, musicalização, instrumentos musicais, assistência social, jurídica, psicológica, operacional, mão de obra técnica em construção civil, entre outras áreas.

E como beneficiário do projeto ou padrinho? 
Pelo site www.more.org.br você pode entrar em contato e nossa equipe vai estar à disposição. Ou pelos telefones (21) 26251969 ou (21) 982870808.
Quantos países ajudam o projeto? De onde mais vêm os fundos para manter o projeto vivo?
A maioria do apoio vem de suporte nacional, nossos colaboradores são pessoas físicas e jurídicas que auxiliam, e muito, nossa instituição, serei sempre grato. Seja na área financeira, serviços ou alimentos. 

Qual a maior gratificação que você e sua família tiveram a partir desse trabalho? 
Propósito. Viver com propósito. Deitar a cabeça no travesseiro e saber que estamos fazendo a diferença na vida de alguém, de verdade.

Por que a escolha do quadro “O Bom Samaritano” para ilustrar a página na internet?
Achei esse quadro em uma de minhas viagens, e trouxe para a minha sala no More. Amo a ideia de parar a minha trajetória de vida para ajudar quem está caído e ferido pelo caminho. Gosto da ideia de não transferir responsabilidade para ninguém. Na história, outros que podiam e deveriam fazer algo passam ao largo quando encontram o homem caído e ferido. O Bom Samaritano, no entanto, desce de seu cavalo e inicia um processo de ajuda. Eu amo isso. Isso é o More Project! Não podemos fingir não ver, não podemos passar ao largo.

Você se considera um homem altruísta? 
Não me considero altruísta, aliás, acredito mesmo que é uma questão de honestidade e consciência, associada à fé. Acredito que podemos fazer mais. Doei anos e anos de minha vida para ser mais significante para alguém, ver as mudanças, os sorrisos, sentar na calçada do beco sujo e chorar junto com aquela mãe que acabou de ter seu filho adolescente morto ou preso, levar pão, saciar fome, abraçar, beijar, chorar junto de quem sofre, trazer o telhado para cobrir o barraco, fazer uma casa nova para abrigar a família, trocar a arma pela raquete de tênis e, ao invés do pranto, alegria e prazer. Ser alguém que vive esse tipo de experiência na vida tem me feito não alguém que pode ser chamado de altruísta, tem me feito ser cristão, tem me dado a oportunidade de amar. Eu acredito no amor. Acredito, de verdade, que nessa vida o que importa mesmo é o que você faz por amor. Errei muito, acertei algumas vezes, mas uma coisa eu sei: amei, amei e amei e amo ver tudo isso produzindo frutos de amor. 

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