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Vida a dois

Pesquisas mais recentes apontam algumas curiosidades sobre os casais

 
 

Juntos há 14 anos, Joelma e Hugo Maia não abrem mão do chopinho juntos, lazer que os deixa mais felizes

Foto: Douglas Macedo

“Por onde for, quero ser seu par...” a letra de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós simboliza o desejo de casais de se amarem e continuarem juntos. Parceiros, amigos, namorados, casados, jovens, velhos... enfim, duas pessoas que se amam e que veem suas vidas mudarem a partir da responsabilidade de um relacionamento. Independentemente da idade e da duração da relação, os casais mantêm alguns hábitos em comum, assim como problemas.

A Mosaico 2.0, uma pesquisa conduzida pela psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, mapeou o comportamento afetivo-sexual do brasileiro. Para isso, foram ouvidos três mil participantes com idade entre 18 e 70 anos, divididos em cinco faixas etárias em sete regiões metropolitanas do País: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador, Belém, Porto Alegre e Distrito Federal.

O levantamento revelou, entre outras coisas, que os homens fazem sexo só por atração, gostariam de ter mais de oito relações sexuais por semana e iniciam a vida sexual mais cedo do que as mulheres, enquanto que elas têm menos parceiros sexuais, rejeitam relações sexuais somente pela atração e muitas gostariam de fazer sexo apenas três vezes por semana. Apesar dos conflitos comportamentais entre os gêneros, há um item em que os dois lados estão de acordo: 95,3% dos entrevistados consideram o sexo importante ou muito importante para a harmonia do casal. Talvez esse número não seja curioso, entretanto, o ponto inesperado é que a faixa etária que mais respondeu que sexo é pouco ou nada importante foi a mais jovem, de 18 a 25 anos. 

Segundo Carmita Abdo, o que é preciso entender é que as gerações mais jovens têm, atualmente, mais atividades, e muitas delas em conjunto, que são cada vez mais diversificadas e exigem um pouco da libido.  “O prazer, a satisfação e o entusiasmo de viver coisas juntas estão ligadas a práticas como viagens, passeios, relacionamento social com os amigos e até mesmo uma convivência profissional. Isso leva o sexo a ter uma importância na harmonia do casal, porém outros elementos também passam a ser considerados importantes. Não é que o sexo foi desmerecido, ele ficou para as novas gerações um pouco menos pontuado em relação aos mais velhos”, explica a psiquiatra e coordenadora do projeto.

A psicoterapeuta de família e casais, psicóloga e doutora em psicologia clínica da Sociedade Brasileira de Psicologia Aline Vilhena Lisboa aponta que os jovens não estão com uma entrega desmedida para as relações sexuais, pois colocam na frente a questão afetiva e o bom relacionamento. A profissional afirma que é possível ver contradições nas respostas, ou seja, que um mesmo público que respondeu em uma questão responde de maneira diferente em outra, como, por exemplo, a quantidade de vezes ideal de relações sexuais. “Para o homem, a quantidade necessária de relações é maior do que para a mulher, mas, ao mesmo tempo, a maior dificuldade deles na relação é a ereção, enquanto que, para as mulheres, é a dificuldade de orgasmo. O que eu questiono é a qualidade dessas relações. Quando o homem diz que a maior preocupação dele é satisfazer a mulher, não será ele que se cobra demais por uma autoperformance? Às vezes o casal tem uma relação sexual cheia de protocolos, sofrimentos, performances e não vão de forma natural”, comenta a psicoterapeuta.

Em sua experiência clínica, o que fica muito evidente para a profissional não é a quantidade de sexo do casal. Para ela, o que vem atrapalhando são as interferências, como essa pressão por alta performance, a busca por dar conta de algo quando um casal sem filhos se torna pai, os próprios pais envelhecendo. Ainda de acordo com Aline, os casais acreditam que diminuir a frequência pode ser um problema e não é. “Existem as transformações naturais do ciclo do relacionamento amoroso que não necessariamente estão ligadas a problemas, o que acontece é que eles acumulam problemas não resolvidos desde a época do namoro e isso vem se perpetuando e somando até que chega um dia em que a coisa se esgarça e depois de 1, 5, 20, 30 anos de casamento, isso arrebenta”, completa.

Um estudo publicado no periódico científico Journal of Gerontology: Psychological Sciences aponta que casais que bebem juntos tendem a permanecer juntos. Isso porque pessoas com o hábito de compartilhar uma garrafa de vinho ou cerveja com o parceiro vivem em um relacionamento mais feliz. Durante seis anos, pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, realizaram o estudo com 2.767 casais que estavam juntos, em média, há 33 anos. Os voluntários participaram de entrevistas anuais, respondendo questões sobre os hábitos de consumo de bebida alcoólica (quantidade e frequência), sobre a qualidade do casamento e o que pensavam sobre o parceiro (se tinham perfil muito crítico e exigente). Como resultado do estudo, quem tinha os mesmos hábitos de consumo de bebida alcoólica tendia a ser mais feliz do que aqueles em que apenas um dos parceiros costumava beber. Os casais entrevistados com essa diferença estavam mais propensos a enfrentar problemas de relacionamento.

Juliana Barboza e Alberto da Costa têm projetos em comum, como a construção da casa própria

Foto:Arquivo pessoal

Juntos há 14 anos, a gerente de compras Joelma Marques Maia, 40, e o técnico em informática Hugo Maia, 35, costumam beber cerveja juntos todos os dias, principalmente de quinta a domingo. E Joelma garante: há diferença. Durante a semana, eles costumam beber sozinhos e nos finais de semana, escolhem entre sair sozinhos, ir para casa de amigos ou os receberem em casa. “Quando nos casamos, eu não bebia tanto quanto ele e senti que a gente foi se aproximando mais quando eu comecei com uma maior participação. Hoje já praticamente transformamos a nossa casa em um bar... tem bebidas na geladeira, chopeira. Acredito que isso nos aproximou, porque assim estamos sempre juntos. Eu já tive um outro relacionamento em que a pessoa não bebia, eu bebia pouco, mas ele não ingeria nada, então isso atrapalhava porque ele se sentia incomodado, muitas vezes não ia nos lugares em que eu estava com amigos bebendo e também evitava se aproximar quando fazíamos isso”, relembra.

Em outra pesquisa, na “Você está satisfeito com a sua vida conjugal?”, divulgada no ano passado pelo Instituto do Casal, 510 pessoas, entre homens e mulheres, foram questionados de forma on-line sobre o nível de satisfação conjugal dos casais brasileiros, levando em consideração aspectos da vida a dois, como sexo, projetos em comum, lazer, diálogo e medos. O objetivo de Denise Miranda de Figueiredo e Marina Simas de Lima, sócias e responsáveis pelo instituto e especialistas em terapia de casal e da família, era ampliar o material de pesquisa delas e entender como as pessoas estão vivendo hoje, quais são as prioridades do casamento e como anda a vida sexual do casal. “Tivemos algumas surpresas como o fato de que o que mais afasta os casais ainda ser o trabalho, as questões dos diálogos ainda serem difíceis entre os casais – eles conversam sobre questões da rotina, mas sem um diálogo aprofundado da relação. Conseguimos alcançar quais são os medos das pessoas: alguns dizem de doenças de cônjuges, viuvez, deixar de amar. Foi uma pesquisa abrangente através da qual conseguimos mapear como esses casais resolvem conflitos, diálogos, sexualidade...”, resume Denise.

Para a profissional, os resultados são fruto de uma cultura que ensina a investir no profissional, na vida financeira, banco de valores, comprar casa e trocar de carro, mas não ajuda a investir na conjugalidade. De acordo com Denise, é muito comum encontrar em seu trabalho casais que ainda têm a ideia de amor romântico: uma relação que não precisa ser construída diariamente. “As pessoas acabam sendo engalfinhadas pela rotina, dia a dia, e separam pouco tempo para o investimento na relação a dois. Acredito que isso traga essa insatisfação. O que a gente trabalha no nosso workshop e nos atendimentos é ajudar esses casais a construírem estratégias para investirem nessa vida a dois e não na ideia de que se não está bom, troca”, comenta.

Um dos resultados da pesquisa feita pelo instituto, entre setembro e outubro de 2016, mostrou que 63,45% dos entrevistados afirmam conversar duas ou mais horas por dia com o (a) parceiro (a). Outro ponto é que mais da metade (55,9%) dos entrevistados considera que a vida sexual está ruim ou regular. Apenas 12% da amostra considera que a rotina sexual está ótima. Outro fator alarmante é que 72,9% dos participantes considera que, depois do casamento, a vida sexual mudou. Apesar de ser possível observar respostas sobre uma melhora positiva, um número maior de respostas relata a piora da vida sexual pós-casamento. Entre os motivos para isso, de acordo com as queixas dos respondentes, está a rotina, seguida da chegada dos filhos e menor frequência das relações sexuais, entre outros fatores.

Apesar do que aponta o levantamento, Aline afirma que, na verdade, a rotina é necessária para a estruturação da vida, pois as pessoas precisam ter referência de trabalho, almoço, casa, entre outras situações. “Essa pergunta é provocativa de algo que precisamos pesquisar e entender, que é como tem sido o dia a dia dentro da casa desses casais para eles considerarem a rotina como algo ruim. O que acontece são fases que vão sendo incorporadas na vida do casal, como um filho, ou os pais, sobrinhos, desafios do trabalho. Dá a sensação que a rotina é maléfica e o bom é estar todo o dia com uma programação social, compromissos, lazer e entretenimento e não é bem por aí. O bem-estar também pode estar dentro da rotina”, revela.

Ainda sobre a pesquisa, dois pontos chamaram a atenção. No primeiro, 87,6% da amostra afirmou que tem projetos em comum com o parceiro (a). Esses projetos são pessoais e estão ligados ao material, como trocar de carro e casa. Segundo Denise, isso ajuda a vincular e reconectar o casal, ao passo que investir em um projeto com o cônjuge é uma maneira de investir na relação.

A publicitária Juliana Barboza Neto, 28, e o professor e geógrafo Alberto Luiz Vieira da Costa, 34, se conheceram em 2008 através de uma amiga em comum em uma festa, conversaram a noite toda e trocaram contato. Os dois acabaram se tornando amigos virtuais até que, em 2014, tudo mudou e começaram a namorar. E foi no ano seguinte que os planos começaram a aparecer: Beto queria sair da casa dos pais em Santa Teresa e morar com Juliana, que era de Niterói. Com um ano de namoro foram morar em Laranjeiras após longa procura por apartamentos. “Durante esse tempo morando de aluguel, pensamos se deveríamos investir em algo nosso, mas caímos sempre em contradição com os valores surreais do Rio. Seguimos de olho no mercado, olhando os preços, tanto de compra quanto de aluguel. Nesse meio tempo, o Beto, por incentivo do tio, que tem algumas casas em Búzios, decidiu comprar um terreno por lá. Além disso, ele também trocou de carro, comprou um maior, mais família. Ele quer muito ser pai, mas eu ainda estou adiando esse projeto”, conta Juliana. Os próximos planos do casal incluem começar a obra da casa de Búzios e também outra em Santa Teresa, no terreno da família de Beto. “É fundamental para um casal planejar junto, colocar as ambições de ambos na balança e pensar no que é melhor para os dois. Hoje em dia, é muito difícil realizar os seus sonhos sozinhos e poder contar com alguém com quem você quer ficar a vida inteira é muito bom. A gente tira menos tempo do que gostaria para nos planejar, mas pensamos muito durante os fins de semana”, analisa.

Um outro ponto presente na pesquisa do Instituto do Casal foi o ranking dos programas preferidos dos casais. Viajar foi a opção mais escolhida, seguida de comer, ver filmes, fazer amor, trocar carinhos, ir ao cinema e praticar esportes.

Nelise Maria encontrou em seu marido, Ricardo Padilha, 59, a companhia ideal para viajar

Foto: Arquivo Pessoal

A juíza do trabalho Nelise Maria Behnken, 46, encontrou em seu marido, o engenheiro Ricardo de Sá Padilha, 59, a companhia ideal para viajar. Juntos há aproximadamente 11 anos, o casal já visitou a Europa, Ilha de Páscoa, passou a Lua de Mel no Taiti e, mais recentemente, conheceu a Patagônia argentina. “Além de ser divertido, conhecemos muitas coisas novas, como a cultura do local, a culinária, artesanato... Procuramos sempre saber mais sobre o lugar e, com isso, adquirir novos conhecimentos. Com certeza é uma fuga da rotina. Tudo muda, o local que você vai dormir, ambiente, comida, costumes, você realmente descansa dessa rotina. Gosto de viajar com o meu marido porque com ele não tem restrição, fazemos aventura, vamos à praia, à serra. Adoramos conhecer novos lugares”, afirma Nelise.

Outro levantamento, desta vez para discutir o sexo entre as mamães, foi divulgado pelo projeto “Mães que pensam naquilo”, uma plataforma de engajamento para empoderar as mulheres a discutir a sexualidade depois dos filhos. A jornalista e empresária Leda Sangiorgio, uma das criadoras da plataforma em conjunto com a publicitária e empresária Carol Martins, explica que a partir da criação de um grupo fechado no Facebook sobre a sexualidade pós-parto, que logo fez sucesso, ficou clara a necessidade de colocar o assunto em pauta para melhorar a sexualidade das mulheres no pós-parto, assim como para dar suporte a todas que se sentem sozinhas nessa fase da vida. A ideia foi fazer uma pesquisa, inicialmente com as mães, para avaliar o cenário geral do sexo do pós-parto. “Especialmente para levantar um número que mostrasse ou comprovasse a nossa teoria de que a maioria das mulheres sofre com dor e falta de lubrificação, além de queda do desejo sexual. Depois, fizemos uma pesquisa com os pais para ter a visão do homem também”, conta Leda.

A pesquisa, feita on-line com 108 mulheres e 108 homens, revelou que 70% das mulheres apresentam queda no desejo sexual depois de ter um filho e também mostrou que mais da metade das mulheres sente dor ou desconforto durante o sexo depois do parto. No questionário dos homens, cerca de 70% revelaram que sentem saudades do sexo como ele era antes dos filhos. “O dado dos pais foi muito interessante, pois vimos que a mulher perde o desejo, eles não perdem e ainda sentem muitas saudades do sexo antes dos filhos. Uma das surpresas foi o relato de dor nas mulheres que fizeram cesárea, por exemplo. Apenas 22% das mulheres que sentem dor falam com seus médicos sobre isso. Esse dado é interessante, porque eles não costumam perguntar isso quando você faz uma consulta depois do parto, apenas dão orientações gerais. Cabe mesmo à mulher falar sobre isso e muitas vezes a resposta do médico não é satisfatória ou não consegue resolver o problema”, finaliza.

A Pesquisa Estatística do Registro Civil, conduzida pelo IBGE todo ano, mostra que o Brasil registrou 1.137.321 casamentos civis em 2015, representando um aumento de 2,8% em relação a 2014, sendo destes, um aumento de 2,7% em uniões legais entre cônjuges de sexos diferentes e 15,7% entre os de mesmo sexo. Já os números de separações, ainda segundo a pesquisa, diminuíram em relação a 2014. Ano passado foram 328.960 divórcios concedidos em primeira instância ou por escrituras extrajudiciais, em comparação aos 341.181 do ano anterior à pesquisa. 

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