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Rascunhos Nus

A coluna do publicitário, capricorniano e escritor Hugo Rodrigues fala sobre relacionamento, romance e comportamento. São os dilemas que tornam a vida mais interessante

Você me ganhou no ‘hello’

Nunca observei tanto alguém. Mesmo sem absorver quase nada. Desfilando por aí com suas calcinhas divertidas, suas curvas mais perfeitas que o dançar dos rios, suas mãos indicando as direções, seus joelhos apontando o rumo, seus pés divertidos mostram que ela sabe bem onde pisa, mas seus olhos confundem. Seus olhos dizem muitas e muitas coisas mudas que até me perco. Me sinto um turista tentando aprender mandarim na Rússia. Me lembrou até do Djavan. 

Mas aqui ela diz que sim, depois diz que não, depois não diz nada, mas que não dizer nada também é concordar. Ela sabe demais de si para estar num lugar onde não deseja estar, eu penso. Minha insegurança vagueia como um eremita, me sinto perdido quando entro nos seus cabelos, ela fecha os olhos feito criança, aproxima-se do meu peito e me aperta como que sente fome de mim, me pede para ficar mais perto, e eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo, como se naquele momento eu fosse o vencedor do reality show mais difícil do mundo, que reúne em uma só temporada inúmeras provas: resistências, sabores amargos, testes de inteligência e de aprendizado e, no fim, claro, ainda é preciso ganhar a simpatia do público. 

Pacote de viagem nenhum conseguiria me levar para os lugares que ela me leva. Ela se faz de espelho e me grita todas as partes que ainda nem me via. Vira o jogo, deixa de ser feito uma criança indefesa e se revela (e se rebela) bem mais madura do que qualquer outra que já cruzou o meu caminho e me aponta os erros um por um, do jeito dela, numa conversa ríspida, dane-se, foda-se, entenda e melhore. Não há tempo para explicação ou dúvida. É quase militarismo. Carta para Garcia, um dia ouvi essa história e meio que explica muita coisa. Não pergunte quem é Garcia ou onde o encontro. Só entregue esta carta a ele. Dê seu jeito. É tomar as coisas pelas mãos. É tornar as coisas de coração. Não sei. 

Ela me faz sentir como roupas dentro de uma máquina de lavar. Saio de lá limpo, bem limpo – como nunca estive antes. Mas, por enquanto, ainda estou aqui dentro, sendo revirado, de um lado ao outro, rodando feito trouxa de roupa suja, amarrotado, amassado, quase morrendo afogado para aprender. Nestes momentos, queria ter uma cara, uma pose, uma frase mágica, uma expressão infalível que te desmontasse inteira. Queria saber invadir teus pensamentos soltos e colá-los com lambidas à la super bonder – ou até algo melhor ainda ao inventado que venda em lojinhas baratas ou nas Americanas. Queria saber fazer uma careta que te roubasse risos bem naquele instante em que você se fecha toda, puta e nervosa diante da minha cara que não sabe o motivo, mas no fundo, no fundo, eu sei. Queria saber assobiar uma melodia que acordasse o teu bom humor bem naquela hora em que o mundo todo parece um lugar bem melhor – caso seja longe de mim, no teu estilo prefiro-dormir-na-rua-rodeada-a-mendigos-do-que-dormir-a-metros-de-você.

Ainda penso em invadir a tua cena estilo Jerry Maguire com olhos marejados, cheios de frases desconexas, longas e até repetitivas diante de um silêncio chocho da Renee Zelwberg que logo se transforma em algo bonito e simples do você-me-ganhou-no-hello. 

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