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Autismo: um problema de saúde pública mundial

 

Aspectos epidemiológicos

Para cada sessenta e oito crianças que nascem em todo o mundo, uma nasce para ser portadora do “transtorno do espectro autista” (TEA), independente de sexo, raça ou nível socioeconômico. É uma doença que ocorre em todo o mundo e a cada dia que se passa mais casos são reconhecidos, tanto aqui no Rio de Janeiro como no Brasil e em todo o mundo.

As crianças que apresentam TEA têm como características clínicas principais as alterações do seu desenvolvimento neurológico, que clinicamente se apresentam como comprometimento da interação social, déficits da comunicação verbal e não verbal e comportamentos estereotípicos repetitivos e sem finalidades. O TEA ocorre prevalentemente em crianças do sexo masculino com prevalência cinco vezes maior do que a incidência em crianças do sexo feminino.  

Causas do TEA – Na literatura indexada até o momento, o TEA não tem uma etiologia definida e os mecanismos fisiopatológicos envolvidos ainda permanecem desconhecidos.

Por essa carência de informação sobre o TEA, seu tratamento toma rumos imprevisíveis. A falta de compreensão sobre a doença é particularmente preocupante, pois devido ao aumento na prevalência, o TEA já atinge níveis epidêmicos.

As principais origens estudadas para justificar as causas do TEA são ainda inconclusivas, mas destacam-se os estudos voltados para a origem genética, causas relacionados ao meio ambiente ou o uso indiscriminado de vacinas. A busca desta origem segue sendo perseguida em estudos científicos, por todo o mundo, sem que, até o dia de hoje, tenhamos ainda chegado a estudos definitivos que possam claramente definir sua origem.

Por mais que avancem os estudos genéticos e já se passam mais duas décadas de estudos incessantes neste sentido, não conseguimos passar da demonstração de mais de vinte variações de mutações genéticas, já descritas, associadas ao TEA, porém nada de definitivo existe quanto à origem genética desta doença. Sabemos que algumas alterações genéticas e ou cromossômicas quando presentes tendem a aumentar o risco do aparecimento de TEA em seus portadores, como a Esclerose Tuberosa e a Síndrome do Cromossoma X Frágil. 

Na maioria dos pacientes com TEA, não é possível se achar história familiar desta doença. Esses dados falam a favor de uma origem epigenética ou que sua ocorrência seja atribuída ao acaso ou na dependência de mutações genéticas ainda não descritas. Cabe anotar que os estudos genéticos em gêmeos idênticos, univitelinos, mostram que se um tem TEA, a chance do outro ter TEA é de 90%. Já entre irmãos, se um tem TEA a chance do outro ter TEA é de 35%.

Quanto à riqueza do meio ambiente e sua influência na origem do TEA, muito ainda está por ser estudado nesta inesgotável área do conhecimento. São fatores a serem considerados nestes estudos a condição socioeconômica das famílias, a redução do número de filhos, a saúde familiar, a idade dos pais, a exposição a toxinas a agrotóxicos, a contaminação ambiental em contraste com o excesso de higiene, o uso indiscriminado de antibióticos e antiácidos, a modificação da dieta, especialmente a do recém-nascido com o uso precoce do leite de vaca, a obesidade, a insuficiência da vitamina D, as mudanças climáticas, a fumaça do cigarro e os poluentes do ar e da água. 
 
Quanto às vacinas, de fato podemos hoje excluir, com toda certeza, que elas sejam a causa do TEA.

Aspectos epidemiológicos
Uma publicação que aparece na revista Pediatria Moderna, em seu número de Janeiro de 2016, mostra que para casos de TEA, em brasileiros, aparecem alguns dados dignos de serem anotados:

1- Prevalência de parto por cesariana nos pacientes com TEA, sobre os partos normais na proporção de 10 para 1. Esta ocorrência, da prevalência dos partos cesáreos, se associa ao excesso de higiene, durante e após o parto, dificultando nestes pacientes o aparecimento de uma flora intestinal normal;

2- Prevalência do uso indiscriminado de mamadeira de leite de vaca no berçário, dentre os pacientes com TEA, antes ou durante a amamentação. Dentre os pacientes com TEA, prevalece o uso da mamadeira de berçário na proporção de 9 para cada uma de 3 crianças, corretamente amamentadas com exclusividade desde o nascimento. A mamadeira de leite animal antes ou durante a amamentação, nos primeiros dias de vida, provoca uma mudança no sistema imune do recém-nascido, transformando-o em uma criança alérgica a este leite da vaca;

3- A presença de alergia entre as crianças com TEA, desde o nascimento e por todo o primeiro ano de vida, atingindo o aparelho digestivo, a pele ou o sistema respiratório. Neste estudo ficou evidenciado que a alergia nestes sistemas, em apenas um ou em mais de um deles, aparecia antes do desenvolvimento do TEA;

4- Um grupo pequeno de mães apresentava uma doença dos intestinos, com absorção exagerada de proteínas de suas dietas, que acarretam doença alérgica em seus filhos amamentados corretamente. Denominamos esta doença de “doença do ciclo enteromamário”; 

5- Todos os 121 pacientes estudados tinham AA e TEA. 

Sistemas orgânicos antes do início do TEA
Em 1998 publicamos uma nota prévia na revista médica Lancet, sinalizando que pacientes com alergia alimentar (AA) apresentavam alterações endoscópicas e nas biópsias de íleo terminal, semelhantes às descritas em pacientes com TEA. Desde então, seguimos pesquisando extensamente o vínculo de AA e TEA. 

Surpreendentemente, constatamos que em nossa população de pacientes com TEA, todos foram antes acometidos de alergia alimentar, sendo o aparelho digestor, o de maior prevalência de acometimento antes do início das desordens do desenvolvimento neurológico, que compõe o TEA. 

O comprometimento dos sistemas orgânicos, que antecedem ao início do TEA, aparece com a prevalência que se segue:

1- Aparelho digestivo com queixas de constipação ou diarreia em 84% dos casos de TEA;
2- Vias aéreas superiores com queixas de rinite ou coriza em 50% dos casos de TEA;
3- Pele com queixas de urticária ou eczemas em 44% dos casos de TEA;
4- Vias aéreas inferiores com presenças de bronquite ou asma em 21% dos casos de TEA. 

Alergia alimentar é doença multifatorial
A alergia alimentar é doença multifatorial que se desenvolve na presença de fatores como amamentação inadequada, saúde precária do trato digestor da mãe, durante a gestação e amamentação, ao que denominamos de “doença do ciclo enteromamário”, partos com complicações e estéreis (cesarianas) e exposição precoce do recém-nascido ao leite de vaca, pela mamadeira de berçário. 

Uma vez sensibilizado a determinado antígeno proteico, o indivíduo poderá responder com alergia, caso essa conjuntura de fatores esteja presente. Após a ativação do sistema imune, aparece a AA em um sistema orgânico ou em vários. 

A definição de qual sistema será o afetado recebe influência da herança genética, dos fatores ambientais e de outros fatores de natureza inflamatória que funcionam como gatilhos para o acometimento dos tecidos de cada sistema. Dentro deste mesmo princípio, será acometido o sistema nervoso central como local da resposta imunológica.

Estes achados são hoje atribuídos a uma descoberta feita por pesquisadores da Universidade de Colúmbia, nos EUA, publicada na revista médica NATURE, em Junho de 2015. A descoberta destes autores foi a de que existem ductos linfáticos no cérebro, capazes de dar resposta imunológica, como em qualquer outro tecido. Estes autores chamam a nossa atenção, de que, a partir desta descoberta, inflamações no cérebro podem atrair resposta imune gerada em outros tecidos. 

A partir desta descoberta, sinalizando resposta imune no cérebro inflamado, começamos a investigar a resposta imune da AA, como possível causa do Autismo. Nossas pesquisas desenvolvidas, nos últimos cinco anos, repousam na hipótese de que o distúrbio imunológico da AA coloca na circulação linfócitos ativados, que podem chegar ao cérebro inflamado, como postularam os pesquisadores da Universidade de Colúmbia, e tornar crônica a resposta inflamatória nos neurônios e ser a base para o desenvolvimento do TEA. 

Causas da inflamação no cérebro
Traumas físicos, infecções no sistema nervoso central, doenças neuro degenerativas do sistema nervoso central, genética favorável ao aparecimento de resposta alérgica no cérebro e vacinas com agentes neurotrópicos, estão entre as causas que podem ocasionar inflamação nos neurônios.

A partir desta inflamação os neurônios passam a ser alvo das respostas imunes, atraindo os linfócitos circulantes e as imunoglobulinas que participam do processo alérgico. 
As manifestações clínicas da AA no SNC podem assim fazer com que o indivíduo se apresente dentro do espectro do autismo, variando clinicamente de acordo com a área afetada e o grau de agressão alérgica a este sistema.

Origem da inflamação nos neurônios dos intestinos
O sistema nervoso central e o trato gastrointestinal estão conectados por cerca de 3 mil neurônios. Número este pouco expressivo quando comparado aos 100 milhões de neurônios que compõem o plexo nervoso intestinal, denominado de “segundo cérebro”.

Essa abundância de neurônios na presença de AA, condição que gera inflamação, começa por alterar o peristaltismo do trato gastrointestinal e comanda a inflamação  para os neurônios do sistema nervoso central. 

Observa-se alteração do padrão das evacuações nos autistas, que em geral apresentam constipação ou diarreia. Esta dismotilidade intestinal pode se apresentar como refluxo no recém-nascido ou dispepsia nos escolares e adolescentes ou distensão abdominal em qualquer idade. 

Quando devemos nos preocupar

Quando a criança apresenta regressão da fala;
Deixa de nos olhar quando chamada;
Deixa de querer estar com outras crianças da mesma idade;
Fica hiperativa e correndo de um lado para o outro, sem parar;
Anda nas pontas dos pés;
Demonstra preferir brincar com as rodas dos carrinhos;
Se mostra atraída por ver ventiladores ligados;
Ao ficar alegre balança as mãos e os braços para a frente e para trás;  
Se sente atraída por bater portas;
Tem movimentos repetitivos sem finalidades;
Perde a afetividade;
Quando ocorre problemas de interação. 

A conexão cérebro-intestino se estabelece de diversas maneiras, seja através das conexões dos neurônios entéricos e os do sistema nervoso central ou por inflamações. Uma vez que exista a inflamação no sistema nervoso central, ele pode ser o receptador das respostas imunes, como as que ocorrem na AA. Assim, os linfócitos de resposta imunológica da AA podem migrar para o sistema nervoso central e perpetuar a resposta inflamatória, fazendo com que o indivíduo entre no transtorno do espectro autista.

Algumas condutas podem ser adotadas: 

1- Evitar o estabelecimento da AA;

2- Se o paciente desenvolver AA, devemos evitar a doença do aparelho digestor e a concomitante agressão inflamatória ao sistema nervoso central, afastando toda e qualquer causa de inflamação nesses sistemas. 

3- Tratar a AA, para interromper com a dieta restritiva, a geração dos antígenos causadores da AA, deixando assim de ativar o sistema imune, fazendo então cessar a inflamação nesses sistemas afetados.

A proteção dos neurônios será feita através da dieta restritiva, que cessa a inflamação nesses sistemas afetados, até a resolução da AA, da doença digestiva e da consequente agressão ao sistema nervoso central. 

No próximo domingo, imunizações em crianças e adultos

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