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Odontologia da UFF desenvolve “osso sintético” para vítimas da violência urbana

Testes feitos em humanos apresentaram resultados positivos para tratamentos de perdas ósseas

Os professores e alunos da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), desenvolveram um biomaterial capaz de substituir os ossos da arcada dentária. O “osso sintético” beneficiará principalmente as pessoas com doenças ósseas (tumores e cistos), quem teve perda em função da idade (atrofias) e as vítimas de acidentes de trânsito e da violência urbana, atingidas por arma de fogo na face. 
 
O material, composto por hidroxiapatita, 100% sintética, começou a ser desenvolvido em 2010 e os testes em animais foram publicados a partir de 2012. Em 2017, a Odontologia da UFF iniciou os testes nos pacientes que procuraram a Clínica de Cirurgia Bucal da Universidade para fazer extração dentária. Sem nenhum custo para o participante e aprovado previamente pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UFF, o estudo foi divido em duas ações. 
 
Na primeira, um grupo de 30 pacientes, que participaram da pesquisa, de ambos os sexos e na faixa etária entre 18 e 60 anos, extraiu o dente condenado e recebeu preenchimento com o biomaterial novo e implante dentário em três meses. A segunda teve como foco o levantamento do seio maxilar e contemplou 20 participantes, entre 40 e 60 anos de idade, de ambos os sexos, sem dentes superiores e que precisavam de implantes, mas não tinham estrutura óssea para a realização dos implantes. Todos os participantes das duas fases do estudo, após a integração do implante ao osso, receberam as próteses definitivas em porcelana.
 
Os testes mostraram que os riscos são mínimos, semelhantes a qualquer procedimento cirúrgico odontológico sob anestesia local, ou nenhum para os pacientes, já que o material é exclusivamente sintético. Além disso, os pesquisadores constataram que o “osso sintético” é de fácil manuseio, tem baixo custo e resposta tecidual semelhante aos importados disponíveis no mercado.
 
“Os resultados foram surpreendentes. Agora poderemos reparar um osso lesado ou perdido, reconstruir as cavidades ósseas e preencher as lesões periodontais assim como levantar o seio maxilar com um material nosso, de produção totalmente brasileira”, ressaltou a professora da UFF, Mônica Diuana Calasans Maia. 
 
Mônica Calasans explicou que o procedimento cirúrgico para a aplicação do material é igual aos tradicionais e que a recuperação do paciente é muito boa e requer os mesmos cuidados de higiene, dieta e repouso físico. Segundo a professora, até o momento não houve registros de rejeição ou outro efeito adverso com o uso do material. As cirurgias são feitas no laboratório associado de Pesquisa Clínica em Odontologia da UFF.
 
Para o professor da UFF, José Mauro Granjeiro, que estuda o assunto há 30 anos, “o grande avanço é que o novo biomaterial desenvolvido é absorvido gradativamente dando espaço ao novo osso”. A expectativa destes cientistas da UFF é que, em pouco tempo, a combinação deste novo material com células do paciente, fatores de crescimento e proteínas ósseas permitirá a regeneração óssea semelhante ao enxerto da própria pessoa. 
 
O vice-reitor da UFF, professor Antonio Claudio Nóbrega, enfatiza que o projeto exemplifica de forma emblemática as ações da UFF integrando ensino, pesquisa, extensão e inovação.

"Com trabalho planejado e visão de longo prazo estamos oferecendo soluções para problemas concretos, atuando em cooperação com outras instituições. Internamente, temos promovido a articulação dos setores de apoio à pesquisa e inovação de forma que os resultados estão aparecendo e beneficiando as pessoas diretamente".
Participaram da pesquisa da hidroxiapatita carbonatada nanoestruturada (material), três professores e 13 alunos da UFF, sendo três da graduação e 10 da pós-graduação, e três pesquisadores do CBPF. O material foi sintetizado pelo CBPF, depois foi caracterizado fisico-quimicamente no INMETRO e, na sequência, para esterilização na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), por meio do Edital Pesquisa para o SUS. As equipes envolvidas na pesquisa aguardam a conclusão do depósito de patente para posterior transferência de tecnologia para a indústria. 

 

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