O aumento no índice de desemprego, que atinge cada vez mais os graduados em nível superior, principalmente os recém-formados e os mais velhos, vem fazendo com que esses profissionais busquem outras alternativas para se manter no mercado de trabalho. Eles têm procurado vagas de emprego em profissões diferentes daquelas em que se formaram, criando uma nova tendência para o mercado. Dentro desta nova realidade, cargos como recepcionista, secretária, babá e representante de vendas são algumas das opções.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil era, nos anos 80, o 13º país do mundo em volume de desempregados. Atualmente, é o quarto. Até o fim deste período, o desemprego estava concentrado em pessoas de baixa escolaridade, com pouca experiência profissional, nos negros e nas mulheres. Já a partir dos anos 90, o problema se estendeu às pessoas com nível superior.
O consultor de Recursos Humanos do Grupo Catho, Obadia Sion, confirma a tendência e afirma que ela é resultado das modificações sofridas pelo mercado de trabalho, que está mais competitivo e no qual determinadas funções perderam importância. Segundo ele, a graduação em um curso de nível superior já não garante mais uma vaga de trabalho.
"Muitas empresas estão conciliando duas ou mais funções em um único funcionário, fazendo com que os postos de trabalho diminuam. Paralelamente, os profissionais estão aprimorando seus conhecimentos técnicos e acadêmicos, aumentando a competitividade", explica Sion, lembrando que, estão sendo lançados no mercado, por ano, cerca de 200 mil jovens qualificados.
O consultor alerta que aqueles que estão exercendo um cargo que não condiz com sua formação, além dos outros profissionais em geral, devem fazer um planejamento de carreira, independente da idade, para saber se exercer a função valerá a pena e será satisfatório.
Sion ensina que para obter um resultado, é preciso juntar as aptidões natas, as aptidões adquiridas, os desejos pessoais e a realidade de mercado.
"Fazendo essa análise com coerência, a pessoa saberá se o cargo irá suprir suas necessidades profissionais e pessoais", explica Sion.

De pedagoga a babá
e autora de livro Na Kanguruh Baby Care, empresa que atua no ramo de formação e contratação de babás, das 48 alunas que a empresa especializa por mês, cerca de 30% têm terceiro grau completo. E, segundo a responsável pela companhia, Roberta Rizzo, todas encaram o trabalho como profissão e não como falta de opção.
"Elas buscam o curso para aprimorar seus conhecimentos e querem informação técnica para poder trabalhar com mais qualidade. Podemos chamá-las de babás do século XXI", frisa.
Roberta diz, ainda, que na era da informação e da tecnologia, os pais das crianças em idade escolar preferem este tipo de profissional, que tem cultura suficiente para lidar com as inovações. Um exemplo é a pedagoga Ana Maria Lopes, de 47 anos, que tem pós-graduação em RH, trabalhou 25 anos como coo denadora de escolas de crianças com necessidades especiais e, há dois anos, exerce a função de babá.
Ana conta que teve que largar o emprego para se dedicar ao pai doente e que, depois, desistiu de voltar ao mercado como pedagoga, já que achou que a idade e a desatualização a impediriam de conseguir um bom espaço.
O que começou como falta de opção, virou profissão para a pedagoga. Hoje, apesar de sentir falta da antiga função, Ana se dedica tanto à nova atividade, que faz cursos de aperfeiçoamento e já pensa em lançar um livro.
"Trouxe a minha experiência como professora para meu cargo atual e, assim como antes, tento cumprir o papel, acima de tudo, de educadora", observa ela, frisando que adora ser babá e que está feliz com sua atual situação. Além de estar gostando da atividade, Ana tem a vantagem de receber um salário mais alto. Como pedagoga no serviço público, a remuneração ficava entre R$800 e R$1 mil. Já o vencimento de uma babá, dependendo da profissional, pode chegar a R$1,5 mil.

Em busca de um salário melhor
Outra profissional que está satisfeita com a nova função é Hilda Cristina de Souza Palhavã, de 31 anos. Ela é formada em fonoaudiologia desde 1999, seguiu a carreira por três anos, trabalhando com neurologia infantil, nódulos vocais e no setor empresarial, e há três anos é gerente da empresa da área de vendas Núcleo de Talentos. Segundo ela, a mudança de atividade aconteceu, principalmente, pelo fator financeiro.
"Com o tempo, deixei de trabalhar com a parte clínica e passei a fazer avaliação em processos de seleção de empresas. Até que recebi a proposta de assumir o cargo da gerência e, por uma decisão pessoal e pela boa remuneração, aceitei a mudança", lembra ela, que contou com o apoio de especialistas em administração para assumir o posto atual e diz que não sente falta da antiga profissão.
"Eu me adaptei ao novo perfil de trabalho e busco o aperfeiçoamento a cada dia. De repente, eu até voltaria a trabalhar como fonoaudióloga, mas só se tivesse a certeza de que teria suporte e segurança financeira", afirma. n

Conflito constante
Simone Teixeira do Espírito Santo, 38 anos, é formada há 17 anos em assistência social e há cinco trabalha como recepcionista. Contratada pela empresa Chemtech, Simone conta que exerceu sua profissão durante dois anos e depois que a antiga companhia empregadora fechou as portas, se viu fora do mercado da assistência social.
"Fiquei perdida, já que no meu ramo é muito difícil conseguir uma vaga de emprego. Acabei morando fora do país por dois anos, mas, quando voltei, não sabia que rumo seguir. Na época, por falta de opção e na necessidade de ser empregada, assumi o posto de recepcionista em um banco", recorda.
Até hoje, Simone atua na nova área, no entanto, ela confessa que faz por necessidade e falta de alternativa.
"Na verdade, ainda não consigo encarar meu cargo como uma profissão. Sinto falta de trabalhar como assistente social. Tenho a sensação de inadequação, de vazio. Porém, tenho medo de dar um passo em falso e trocar o certo pelo duvidoso. Vivo em um constante conflito", revela.
Simone diz, também, que o segmento de assistência social não oferece muitos cursos de reciclagem e que, se estivesse exercendo a profissão, provavelmente, teria uma maior remuneração, já que o salário de uma recepcionista varia de R$600 a R$1,2 mil.
Para tentar evitar uma situação parecida com a dela, Simone aconselha aos jovens que desde a época da faculdade, direcionem a carreira para o rumo desejado, buscando um estágio no qual possa, depois, ser aproveitado como funcionário.
"Desta forma, a pessoa garante experiência e tem mais facilidade de ser empregado de acordo com sua formação", alerta. n

Correndo atrás do sonho
Trabalhando há três meses como representante de vendas de livros do Grupo Oceano, Paulo Aragão, de 40 anos, é formado em ciências contábeis, mas nunca conseguiu exercer a profissão. Segundo ele, porque embora o segmento ofereça um bom campo de trabalho, exige muitos pré-requisitos.
"Depois que me formei, procurei emprego e não consegui porque todos os lugares pediam experiência na área. Acabei virando bancário, função na qual atuei por 20 anos. Com quase 40 anos de idade, fui demitido e me vi fora do mercado. Na necessidade de trabalhar, encontrei a função de representante de vendas", conta Paulo, que ficou desempregado por um ano e meio.
Porém, Paulo ainda pretende atuar na área em que se formou. "A pessoa estuda por quatro anos, sonhando com o momento em que irá trabalhar. Não vou deixar isso passar. Já estou me organizando para fazer cursos de especialização e atualização em ciências contábeis", planeja.