| Publicado em 08/04/2007 |
| | Grupo gay de Niterói cria núcleo para atender mães de homossexuais | Mariana Costa | | | |
A vergonha e o conflito interno são humanizados e colocados em destaque pelas fundadoras do Núcleo de Mães do Grupo Diversidade de Niterói (GDN), com sede no Centro. Na luta contra a homofobia, essas mulheres, que são mães de homossexuais e/ou bissexuais, tiveram a iniciativa de criar a Organização Não Governamental (ONG), para transmitir uma palavra de consolo, além de trocar experiências com aqueles que não aceitam a opção sexual de seus filhos. A meta é minimizar a violência física e psicológica sofrida pela minoria, que, muitas vezes, não é entendida ou respeitada por sua família.
"Eu tenho muito orgulho do meu filho, independente dele ser gay ou não. Meu filho é um ser humano maravilhoso", orgulhou-se uma das coordenadoras do Núcleo, Rosiléa Marques, mãe de Renato Marques, de 27 anos, presidente do GDN e bissexual assumido.
O Núcleo de Mães do Grupo Diversidade de Niterói surgiu em maio de 2004, a partir de uma iniciativa de Rosiléa Marques e Neusamir De Wolf – mães de Renato e Victor De Wolf, respectivamente, idealizadores do GDN – logo após terem sido convidadas pelos filhos para serem sócias fundadoras da ONG. Toda primeira sexta-feira de cada mês, elas recebem, no Centro de Niterói, mães, pais e amigos de homossexuais, que não conseguem lidar com a escolha sexual.
"A primeira pergunta que assombra é: "onde foi que eu errei?". Mas o que todos têm que entender é que ninguém escolhe ser homossexual ou bissexual. Ninguém opta pelo sofrimento. Após essa fase, vem a vergonha", explicou Rosiléa.
Esclarecimentos – As reuniões, que não têm um número estipulado de participantes, são realizadas na sede da ONG Centro de Apoio a Pessoas com Aids (Capa), que leva a assinatura de Silmar Maria dos Santos, na Avenida Amaral Peixoto. Os encontros, gratuitos, são ministrados pelas coordenadoras do núcleo e contam, ainda, com a participação do assistente social Marcelo Prata. O grupo desenvolve um trabalho de apoio e terapia com os parentes e/ou amigos de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros – travestis e transexuais (GLBTs).
"Muitas mães que recebemos já procuraram até um psiquiatra para tentar "curar" seus filhos. A maioria que nos procura não entende por que eles nasceram assim", lembrou Marcelo.
De acordo com Rosiléa Marques, a intenção é ajudar não somente os pais, mas também outros parentes e amigos que queiram entender um pouco mais sobre o assunto. Além de aprender a lidar com uma situação, que muitas vezes é embaraçosa.
"A vergonha é tamanha que muitas mães não querem vir na sede, somente na minha casa. Como lidamos com essa questão com mais facilidade, trocamos experiências. Depois da vergonha vem o medo, já que não sabem como a sociedade irá tratar seu filho. Nos encontros elas percebem que não são as únicas que passam por essas situações", explicou.
Depoimento – O estudante X., de 24 anos, descobriu há pouco mais de um ano que é homossexual. Apesar de já ter sentido atração por pessoas do mesmo sexo, o estudante só foi se dar conta da sua homossexualidade num evento voltado para o público gay, que aconteceu na Região dos Lagos, no qual foi com amigos. Mas sua grande luta, após ter vencido um grande conflito interno, é a de, finalmente, se assumir para seus pais. Segundo X., ambos são homofóbicos.
"Nunca tive abertura de expor minha opção sexual para meus pais. Tenho medo da reação deles, já que sempre se mostraram muito desrespeitosos com relação aos gays. Até posso viver sem compartilhar a minha opção sexual com eles. Mas o pior de tudo é ter que mentir para mim mesmo", disse o estudante, que freqüenta as reuniões do núcleo.
Conscientização através de trocas de experiências
Há cerca de quatro anos, Victor De Wolf, 24 anos, foi agredido por um rapaz quando andava pelas ruas do Centro de Niterói. O agressor fez um convite para Victor apenas para se certificar de que ele é gay. O resultado da conversa foram lesões físicas e psicológicas. O rapaz nunca foi encontrado.
A necessidade de se criar um lugar onde a minoria fosse ouvida sem preconceito e com seriedade fez com que Victor se unisse a Renato Marques, recém chegado da Argentina, onde militava pelos direitos de homossexuais, para fundar uma ONG, a primeira voltada para este segmento em Niterói.
Nascia em 24 de janeiro de 2004 o Grupo Diversidade de Niterói, que possui hoje dez fundadores, cerca de 150 participantes e 40 colaboradores. Para dar mais força e voz à ONG, que luta, acima de tudo, contra qualquer tipo de preconceito, está prestes a ser aprovado na Câmara dos Vereadores um projeto que poderá fazer com que essa data seja também conhecida como o Dia Municipal de Combate à Homofobia. Segundo Renato, a decisão deve sair ainda neste mês de abril.
Toda terça-feira, às 20 horas, mais de 50 pessoas se reúnem no Diretório Central Estudantil (DCE) da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Gragoatá, para assistir às reuniões de vivência do GDN. São nelas que ocorrem as muitas trocas de experiência e, ainda, orientações para aqueles que ainda passam por conflitos, sejam eles internos ou com a família.
"Os negros e os judeus sofrem preconceito na rua, mas quando chegam em casa recebem o apoio dos pais. Com o homossexual isso é diferente. Conheço filhos que foram espancados por seus pais somente pelo fato deles não aceitarem sua opção sexual. A nossa luta não é uma luta fácil", explicou Renato Marques.
O grupo também é responsável pela animadíssima "Parada do Orgulho GLBT", que este ano acontece no dia 17 de junho, com concentração marcada para as 13 horas, na Reitoria da UFF, em Icaraí. Com o tema "Três anos de lutas, conquistas e alegria, contra o machismo, racismo e homofobia", o evento promete agitar a Avenida Jornalista Alberto Francisco Torres mais uma vez.
"Nossa luta é, basicamente, um movimento social. Além de o Núcleo de Mães do GDN, o grupo oferece também dinâmicas jurídicas e atendimento psicológico", descreveu.
Serviço – Aqueles que quiserem entrar em contato com o Núcleo de Mães do GDN devem comparecer à sede do grupo, na Avenida Amaral Peixoto, 171, sala 402, Centro de Niterói. Ou entrar em contato através do telefone 2719-2464.
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