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Alô, alô, Niterói, aquele abraço!

Por Chris Fuscaldo, jornalista, biógrafa e cantora

Chris Fuscaldo é jornalista, biógrafa e cantora

Rod Peixoto/ Divulgação

Uma reflexão para quem não entendeu o show de Gilberto Gil no Réveillon de Icaraí

O Ano Novo chegou e, com ele, veio junto uma polêmica desnecessária sobre o show de Gilberto Gil na festa de Réveillon da Praia de Icaraí deste ano. O valor de R$ 600 mil destinado à promoção do show foi considerado absurdo por algumas pessoas. Para minha surpresa, alguns dos críticos foram os mesmos que louvaram a realização da Niterói Beatle Week na cidade, pouco menos de um mês antes, do show Três Amigos com Dalto, Biafra e Marcos Sabino, em novembro, e do Bourbon Street Fest Niterói, no final de agosto. A confusão feita com relação ao que deve ser entendido por incentivo à Cultura, nesse caso, lembrou-me o famoso mito da caverna, escrito por Platão.

Na alegoria intitulada O Mito da Caverna, o filósofo grego cria uma metáfora ao tentar explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos. Para isso, ele conta a história de três prisioneiros que, vivendo dentro de uma caverna, comunicavam-se com o mundo exterior através das sombras projetadas nas paredes do antro, sombras estas que representavam apenas uma parcela da realidade do mundo exterior. As sombras eram distorcidas e manipuladas para manter os prisioneiros confinados pelo medo. Quando um deles consegue escapar, ele vê a realidade completa. Ao voltar para libertar os outros, no entanto, é chamado de louco por aqueles que preferem se manter restritos àquela realidade limitada pelo medo.

O grau de polarização política que vivemos atualmente está nos colocando dentro de uma caverna em que algumas pessoas conseguem ver somente uma parte da realidade, distorcida como as sombras. Além de grande músico, Gilberto Gil é uma sumidade nos estudos culturais e de políticas públicas, tendo sido nomeado em 1999 Artista Pela Paz pela UNESCO, embaixador da ONU para agricultura e alimentação e tendo sido o único brasileiro até então a receber o prêmio Polar Music Prize, homenagem dada a músicos que se destacam em obras que incentivam a união entre os povos. E, sim, ele foi ministro da Cultura do governo de Luís Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2008, com realizações que avançaram a política cultural brasileira por muitas gerações.

Alguns, no entanto, deram pouco destaque ao fato de que, pela primeira vez, as atrações culturais da festa de Ano Novo estavam sendo expandidas para a Praia de Itaipu, mais um ganho para os cidadãos niteroienses. Também negligenciou-se a informação de que os shows na Praia de Icaraí atraíram inclusive pessoas vindas da cidade do Rio de Janeiro, que consideraram a qualidade das atrações melhores das que se apresentariam na Praia de Copacabana, um dos réveillons mais famosos do mundo. O próprio Gil ilustraria essa polarização cantando: “A novidade era o máximo do paradoxo estendido na areia / Alguns a desejar seus beijos de deusa, outros a desejar seu rabo pra ceia”.

Compartilhando links abusivos pelas redes sociais e comentando desembestadamente sem refletir sobre a própria realidade, muitos niteroienses “comeram pilha fraca” - como se diz na Bahia de Gilberto Gil - detonando o cantor e compositor como se ele fosse o vilão da história. A memória do brasileiro é curta. E poucos lembraram que, até ano passado, muitas dessas pessoas reclamavam das atrações contratadas para a festa. Fora isso, ninguém se preocupou em se perguntar se esse valor é ou não normal para uma festa de tal porte.

Em 2017, Zeca Pagodinho levou R$ 800 mil para cantar em Copacabana; em 2014, Seu Jorge ganhou R$ 700 mil. Só que Zeca, Jorge e Gil não colocaram essas quantias no bolso. Além do cachê deles, a produção de tais artistas bancam um escritório com diversos funcionários, os ensaios, os pagamentos dos músicos que os acompanham, de toda a equipe de produção que trabalha com eles (empresários, produtores, assessores de imprensa, mídias sociais etc), e da logística de saída de casa de todos os envolvidos - que deixam de estar com familiares e amigos - em plena noite de Ano Novo. Gilberto Gil é conhecido no mercado da música por ser um dos artistas que melhor pagam os membros da sua equipe. Como disse o empresário da cantora Maria Rita a um jornalista antes de uma dessas festas, o cachê normalmente mais do que dobra em noite de Ano Novo, afinal, o artista deixa o seu lazer de lado para trabalhar pelo lazer de quem está ganhando, como presente da Prefeitura, a tal da festa. Como já disse o próprio Gil em música, “Trago a minha banda, só quem sabe onde é Luanda saberá lhe dar valor, dar valor”.

Essa é uma polêmica desnecessária porque o incentivo à promoção de uma programação cultural de alto nível deve estar acima da polarização política que se instaurou no país. Da mesma maneira, a democratização do acesso à cultura deveria ser uma bandeira maior do que as bandeiras partidárias que se levantaram com essa polêmica. A cidade de Niterói teve um orçamento de R$ 40 milhões para a cultura em 2019, o dobro do investido no ano anterior. O valor dedicado ao show de Gilberto Gil no Réveillon deveria ser colocado em perspectiva junto a todo o investimento na pasta que a cidade realizou ao longo do ano. “Vale quanto pesa prá quem preza o louco bumbum do tambor”, canta Gil.

Colocar em perspectiva permitiria que esses críticos saíssem da caverna e percebessem que a realidade é que a Prefeitura de Niterói voltou a fazer algo que fez muitas vezes: tornar a cultura uma das suas prioridades de gestão. E é para estarmos felizes com tudo isso, afinal Niterói justamente sempre foi reconhecida por seus próprios habitantes por ser berço de tantos artistas, e transpirar tanta cultura com seus museus, teatros e casas de shows. Quem não comemorou a inauguração do Museu de Arte Contemporânea (MAC)? Quem não adora os preços acessíveis dos eventos no Teatro Municipal de Niterói? Quem não ficou feliz com as novas salas de cinema do Espaço Reserva Cultural? Com isso, nenhuma outra pasta está perdendo, mas toda uma cadeia de profissionais ganha também. Mais eventos são realizados na cidade, aquecendo a economia, fortalecendo a cena local, dando opção de lazer aos niteroienses e fazendo eles mais felizes.

Julgar toda uma política de cultura pelo cachê pago à produção de Gilberto Gil me parece mesquinharia. Eu, como profissional da cultura (jornalista que assina as matérias que escreve, escritora de biografias musicais, cantora e compositora) e como niteroiense que ganhou moção recentemente da Câmara Municipal de Niterói por levar a cultura da cidade para outras plagas, fico feliz que através da obra de Gilberto Gil possamos lutar pela valorização dos profissionais da cultura no nosso país. Andar com fé eu vou, pois só através da cultura é que podemos vislumbrar dias melhores e de paz. Quem não quiser acreditar nisso e continuar na caverna, lamento e mando “aquele abraço”!

 

* Colaborou Marco Konopacki (Cientista político)

 

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