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Educação e Novas Tecnologias

Suzana Fernandes é graduada em pedagogia pela Uerj e em música pela UFRJ. Especializada em educação à distância e em planejamento, implementação e avaliação pela PUC-MG. Professora de música e de ensino religioso da rede municipal do Rio de Janeiro e palestrante internacional sobre o tema e-learning. E-mails para esta coluna: [email protected]

Origens do preconceito em relação à profissão de músico

Em 1808, a família real portuguesa veio se instalar no Brasil e trouxe com ela seus hábitos, costumes, sua cultura. Essa vinda não representa muito em termos de crescimento educacional, mas podemos destacar a organização da colônia brasileira para receber a família real nos moldes europeus, com a criação: da Gazeta do Rio de Janeiro, Jardim Botânico, Biblioteca Real, entre outros.

Os 60 mil livros eram trazidos de navio e esta travessia do Atlântico era algo muito caro na época. Para economizar recursos se optou por trazer o mestre-capela, que no caso é o regente da orquestra e este deveria ensinar música aos novos músicos aqui na colônia brasileira.

Bem, é claro que a música destacada como "boa" era a música europeia, assim como a moda francesa já ditava o que se deveria trajar, vide o teatro municipal do Rio de Janeiro que em sua arquitetura é cópia do teatro municipal da França.

As pessoas então que poderiam compor os grupos musicais disponíveis no Brasil eram os negros, já que os índios não se deixaram civilizar. Nas igrejas tínhamos um condutor branco regendo uma orquestra de negros e com isso a carreira de músico foi discriminada em sua raiz por ocasião da desigualdade racial da época.

Infelizmente ainda nos deparamos com esta visão. Tive um colega na Universidade Federal do Rio de Janeiro que teve que sair de casa para poder cursar a graduação em música em razão da família achar que ele não quis escolher uma profissão. Ainda que velado temos o preconceito em relação a arte como sendo algo menor.

Dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, e dia 22 de novembro, dia do Músico, nos levam a refletir sobre a construção da discriminação e o quanto está entranhada na nossa história.

Diversos ícones da nossa música foram alvo desta concepção arcaica, como Cartola, por exemplo, que tinha profissão de pedreiro, pois fazer música popular e viver de música era coisa de "vagabundo", ou quem não queria nada com a vida, haja vista todo o preconceito que Chiquinha Gonzaga, primeira compositora brasileira, sofreu por ser mulher no início do século XX, não exercendo somente a função de mãe e sim de musicista.

Estamos no meio do exame do Enem e devemos refletir sobre as nossas escolhas, se são nossas ou sociais, fruto da nossa inclinação, habilidade ou de uma ditadura familiar velada.

Escolher uma profissão é escolher um relacionamento duradouro de cerca de 30 a 35 anos de envolvimento. Fazer esta opção aos 17 anos é cruel, visto que nem terminamos de nos constituir como indivíduo. Refletir é a melhor maneira de se chegar a um lugar de conforto mental e emocional.

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