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Opinião: O emprego e as empresas na pandemia

Foto: Arquivo / Agência Brasil

Economia
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A pandemia do coronavírus continua sua escalada e eleva o Brasil ao sexto lugar entre os países com mais casos de Covid-19. Não é um lugar para se orgulhar. Ao contrário, só temos a lamentar. Estamos perto de atingir o número de 200 mil brasileiros atingidos pela doença e a lamentar perto de 15 mil mortos oficiais. Sabemos que a subnotificação é uma realidade. Choramos, na verdade, muito mais perdas humanas.

Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que as regras de isolamento social sejam atenuadas. Mais uma vez, impera a polêmica entre economia e saúde, pandemia e empregos, sobrevivência de empresas e salvação de pessoas. Não existe essa dicotomia. Tudo importa neste momento. É urgente salvar vidas para salvar a economia.

A História ensina. Durante a pandemia de crise espanhola nos Estados Unidos, em 1918, cidades que fizeram lockdown, ou seja, adotaram a confinamento radical, se recuperaram economicamente de maneira mais rápida depois da crise. O mesmo vemos agora. Países que reagiram mais depressa à disseminação do vírus adotando regras mais rígidas de isolamento social vêm conseguindo retomar as atividades. O melhor exemplo é a Nova Zelândia.

No Brasil, Belém, no Pará, São Luís, no Maranhão, e Fortaleza, no Ceará, já vivem sob normas mais severas de mobilidade urbana. Niterói e São Gonçalo também. O Ministério Público fluminense aconselha a adoção do lockdwn no Estado e na cidade do Rio por pelo menos 15 dias. São Paulo e Recife já estudam novas medidas de restrição. O sistema de saúde está perto do esgotamento. Brasileiros já estão morrendo nas salas de espera hospitalares. O serviço funerário mal está dando conta de enterrar os mortos pela doença.

O presidente Jair Bolsonaro passou a andar de máscara, mas está preocupado com o andamento da economia. Na quinta-feira, fez um apelo aos governadores para que revejam as medidas de confinamento, especialmente as que limitam a circulação e o comércio. Alega que, se mantidas, mais vidas vão se perder. Em compensação, acenou com a possibilidade de uma atuação conjunta com os governadores, um aceno que ainda não tinha feito desde a eclosão da pandemia no país e chega num período crítico de aumento diário e assustador de casos. Uma atuação conjunta e uniforme entre Estados, municípios e o governo federal seria o ideal para superarmos, mais rapidamente, o atual quadro.

A ausência de unidade de ações não é boa para ninguém. Basta olharmos para São Paulo. No Estado mais populoso e rico do país, com mais pacientes de coronovírus e mortes registradas até agora, 20 prefeituras anunciaram a abertura de academias de ginástica, barbearias e salões de beleza, setores incluídos pelo presidente da República entre os essenciais para a atividade econômica. A decisão vai na contramão das regras adotadas pelo governador João Dória, que determinou a manutenção das normas do isolamento no Estado até 31 de maio.

O Supremo Tribunal Federal já decidiu que governadores e prefeitos têm autonomia para definir as medidas de combate ao coronovírus no âmbito local. Mas é preciso haver coerência para que a mensagem seja a mesma para a população. A contradição apenas alimenta a crise a cada dia, ajuda a reduzir a taxa de isolamento mantida pela população e a fermentar a corrida de mais doentes contaminados aos hospitais.

Parcela expressiva do setor empresarial pressiona o presidente da República e o ministro da Economia, Paulo Guedes, pela retomada econômica. Com o valor do dólar oscilando nas alturas, quase atingindo seis vezes o do real, e a bolsa operando bem baixo de seu nível, o governo brasileiro fez uma nova previsão, para menos, do crescimento do PIB. O que seria positivo no início do ano, agora está negativo em 4,7% segundo o Ministério da Economia, dado divulgado na última quarta-feira. Se confirmada a recessão, será o pior resultado registrado pelo país desde 1962 quando o Banco Central começou a anotar a evolução do Produto Interno Bruto brasileiro.

Com quase 13 milhões de desempregados e outros 50 milhões de brasileiros que viviam à margem da atividade econômica real e só se tornaram visíveis com o pedido de auxílio emergencial de R$ 600,00 decidido pelo governo para enfrentar a pandemia, os próximos meses tendem a aumentar o contingente de demitidos pela crise. E a elevar a tensão social ainda durante e depois da pandemia.

Essa realidade preocupa a todos. Mas o avanço do vírus ainda é a primeira batalha a vencer.

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