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Um grito pela Pátria

General Marco Aurélio Vieira é consultor em Operações e Segurança de Grandes Eventos

General Marco Aurelio Costa Vieira

Divulgação

Durante a Revolução Farroupilha (1835-1845), as forças rebeldes comandadas por David Canabarro receberam uma oferta de ajuda militar do caudilho argentino Manuel Rosas, para combater as tropas imperiais do então Conde de Caxias. Mesmo ameaçado pela superioridade do exército do Imperador, a resposta de Canabarro ao emissário de Rosas, mais que heroica, foi patriótica: "Senhor - o primeiro de vossos soldados que transpuser a fronteira fornecerá o sangue com que assinaremos a paz com os imperiais. Acima de nosso amor à República está nosso brio de brasileiros. Quisemos, ontem, a separação de nossa pátria, hoje almejamos a sua integridade. Vossos homens, se ousarem invadir nosso país, encontrarão, ombro a ombro os republicanos de Piratini e os monarquistas do senhor D. Pedro II".

O Brasil vivia o início do reinado de D Pedro II, um tempo de revoltas separatistas fratricidas e de posições políticas defendidas com sangue, na complexa construção do Estado brasileiro, mas os revolucionários gaúchos jamais renegaram a pátria.

A palavra pátria - do grego patris "terra natal", do latim patria, "terra paterna" - significa o lugar de nascimento de uma pessoa. Sinônimo de nação, pátria tem conotação mais emocional, enquanto nação é um termo mais oficial e administrativo. A ideia de pátria traduz reconhecidos valores simbólicos, representando o conjunto de vínculos afetivos e culturais de uma nação, constituindo-se fator de identidade e união entre conterrâneos.

O filósofo alemão Spranger dizia que pátria é um sentimento sanguíneo das origens. Rousseau, um defensor ferrenho do patriotismo, afirmou que ligações e identidades com a comunidade são parte necessária de nossa humanidade universal. As nações são reflexo de seus representantes, e vice-versa, expressando nas leis, na aplicação dessas leis e na condução de seus próprios governos os reais compromissos com sua "terra paterna".

No Brasil, a partir da Nova República, numa imatura reação ao ufanismo do regime militar - ou fruto de um gramcismo posto em prática - palavras como honra, pudor e pátria parece "perderam o respeito". Atualmente, a palavra patriota não costuma ser empregada em sua conotação elogiosa, "aquele que ama a pátria", mas sim na pejorativa patriotada, "demonstração exagerada ou exibicionista de patriotismo". Hoje, usa-se mais o vocábulo pátria em expressões jocosas, como "pátria de chuteiras" e "salvador da pátria", do que realmente a sério. É sintomático que a palavra pátria seja encontrada apenas uma vez na Constituição Federal de 1988, e que tenha sido incluída no texto constitucional por insistência dos militares: "Artigo 142 - As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, ...destinam-se à defesa da pátria...".

Nossos constituintes entenderam que a palavra pátria "se identificava com os festejos do regime militar", e como disse certa vez um jornalista - poderia ser usada para "instrumentalizar um sentimento como forma de opressão", e assim achavam mais condizentes com o "clima democrático" suprimi-la do texto constitucional.

Essa concepção distorcida, aliada ao "politicamente correto" da vez, fizeram com que - sem nos darmos conta - muitos brasileiros passassem até a terem vergonha de se mostrar patriotas. Na semana passada, no auge da crise das queimadas na Amazônia, tivemos uma estarrecedora comprovação disso. Veio à tona um manifesto publicado no jornal francês Liberation, de 27 de julho deste ano, onde dez líderes da esquerda brasileira (PT, PSOL, CUT, MST, MTST) alinhavam-se com políticos e organismos internacionais, solicitando ao presidente da França que rejeitasse o acordo entre União Europeia e Mercosul. Mascarando seus interesses político-partidários com cínico oportunismo ecológico, os signatários exigiam ainda que se condicionasse o comércio entre Brasil e França à adoção de regras ambientais e trabalhistas mais duras. Na verdade, em um ato que por si só pode ser considerado uma traição à pátria, representantes eleitos dos brasileiros solidarizaram-se publicamente com interesses estrangeiros, sem qualquer preocupação com descrédito ou desprestígio que isso acarretaria para o Brasil.

Ao mesmo tempo, artistas brasileiros valendo-se de palcos internacionais, passaram a alardear horrores sobre o país. Vimos, também, nas redes sociais e nas ruas multiplicaram-se as expressões antipatrióticas de ódio, vociferadas contra o presidente e seus ministros, prevalecendo o viés partidário oposicionista na divulgação indiscriminada de dados negativos - muitos inclusive falsos - sobre o Brasil e o seu meio ambiente. Da pátria mesmo, nenhuma dessas pessoas lembrou sequer por um minuto.

Assistimos incrédulos, em pleno horário nobre, a Rede Globo e suas afiliadas escancararem uma posição nitidamente contrária ao governo brasileiro, endossando o discurso do presidente da França, em uma demonstração para o mundo da total falta de compromisso com a pátria e os interesses nacionais da maior empresa de comunicação brasileira.

Atos e posições antipatrióticas estão cada vez mais corriqueiros e menos percebidos no Brasil: decisões de discutível constitucionalidade e indisfarçáveis interesses políticos do STF; ações da OAB e de inúmeros magistrados pautadas em um ativismo barato; omissões e tendenciosidades de vários embaixadores e cidadãos brasileiros que trabalham no exterior, encampando sem hesitação ideias contrárias ao país e replicando fake news de maneira irresponsável nas mídias sociais.

O brasileiro de hoje realmente menospreza o patriotismo? É justo um cidadão ou empresa, conscientes dos prejuízos que vão acarretar ao seu país, trabalharem no exterior ostensivamente contra a sua pátria? Convicções politico-ideológicas, ou bandeiras humanitárias internacionais de ocasião devem se sobrepor ao sentimento de pátria? Ontem foi 7 de Setembro, data da independência do Brasil, significativamente chamado de "dia da pátria".

Desde 1995 diversas manifestações paralelas se agregaram ao tradicional desfile militar, no que tem sido chamado de "o grito dos excluídos". Considerando o pouco patriotismo evocado, e a visível divisão social que essas manifestações têm incentivado, eu proporia aos seus organizadores que das próximas vezes fizessem um esforço diferente, convocando ombro a ombro os que se dizem brasileiros, em um Grito Pela Pátria.

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