NITERÓI/RJ
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Niterói se rende à bebida democrática

Com cinco fábricas de cerveja artesanal e 30 microcervejarias, cidade segue tendência nacional

THIAGOCORTES

Com um mercado em expansão, o Brasil fechou o ano de 2018 com quase 900 cervejarias artesanais, sem contar as chamadas ciganas, que usam instalações de terceiros. Os números que constam do anuário da cerveja são do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e justificam o impulso às cervejarias como mais uma forma de alavancar o empreendedorismo. Para incentivar esse crescimento, garantir a qualidade da produção e gerar empregos, a Prefeitura de Niterói criou o selo Niterói Cervejeiro. Três cervejarias da cidade já receberam a outorga para uso do selo: Noi, Máfia e Matisse.

Acompanhando a tendência do mercado nacional, onde 210 novas fábricas foram abertas só em 2018, Niterói transformou a cerveja em uma alternativa de emprego e geração de renda. A cidade tem hoje cinco fábricas de cerveja artesanal e 30 microcervejarias ciganas (que alugam equipamento para fabricar seus rótulos). E o mercado continua em expansão. Uma das vantagens de possuir o selo é a garantia de espaço para comercialização e/ou promoção de cervejas em eventos promovidos pela Prefeitura de Niterói, incluindo carnaval e Réveillon.

Para o presidente da Associação de Cervejarias de Niterói (NitCerva), Guilherme Rebelo, a tendência é que o produtor niteroiense passe a ter mais facilidade para desenvolver seu trabalho com esse incentivo do poder público.

"Empreender no Brasil é muito difícil. Iniciativas como essa fortalecem o mercado e estimulam o nosso crescimento. Precisamos de eventos, precisamos de oportunidades para movimentar a cidade. A cerveja une as pessoas. Temos a faca e o queijo na mão para elaborarmos um calendário muito bacana nos próximos anos", contou.

O selo Niterói Cervejeiro foi criado através de um decreto assinado pelo prefeito Rodrigo Neves, que reconhece e valoriza a fabricação de cerveja artesanal no município. De acordo com o prefeito, o objetivo é que o Niterói Cervejeiro se torne um dos melhores programas de incentivo ao setor do Estado do Rio de Janeiro.

"A cidade tem muitos empreendedores competentes, visionários, e a Prefeitura de Niterói vem para somar. Vamos investir para fortalecer os eventos do setor. A regulamentação, criando um selo e o licenciamento ambiental, é um incentivo ao produtor", defendeu.

O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico Luiz Paulino Moreira Leite apontou que a iniciativa quer dar a chance ao produtor artesanal de estabelecer e expandir seu negócio, respeitando a regulamentação municipal.

"A lei dos cervejeiros era um sonho para quem produzia em Niterói, mas não tinha como se instalar, nem contava com esse conjunto de práticas socioambientais e sanitárias. É mais uma vocação da cidade, um segmento que já existia e agora passa a contar com nosso apoio massivo", disse.

O selo Niterói Cervejeiro foi criado junto com a Lei municipal nº 3.288. Para receber o selo, os interessados devem fazer solicitação à Secretaria de Desenvolvimento Econômico e passam, a partir daí, por avaliação de uma comissão formada por representantes das secretarias municipais de Cultura, de Meio Ambiente, e de Desenvolvimento Econômico, Niterói Empresa de Lazer e Turismo (Neltur), Universidade Federal Fluminense e Firjan. Mais de 50 itens são levados em consideração na avaliação. Na lista de exigências estão uma política de não agressão ao meio ambiente no processo de fabricação e tratamento dos resíduos produzidos.

A já tradicional cervejaria Noi, com sua fábrica instalada em Itaipu, foi a primeira a receber a outorga. A Noi (nós em italiano) cumpriu todas as exigências da comissão de avaliação. Osmar Buzin, que criou a Noi, disse que o selo é um reconhecimento das boas práticas da empresa, que mantém o seu caráter familiar e artesanal.

"Descobrimos desde cedo o valor das cervejas artesanais e percebi que tinha tudo para fazer um rótulo de sucesso no país. Antes mesmo da construção da fábrica, já tínhamos seis receitas prontas. Desde então, a Noi ganhou mais de 40 concursos nacionais e internacionais, e a nossa cidade de Niterói sempre é apresentada em cada participação nossa", disse Osmar Buzin.

A cervejaria Máfia foi a segunda contemplada com o selo Niterói Cervejeiro. Instalada em Itaipu, seus sócios cogitaram levar as atividades para a Região Serrana, mas mudaram de ideia diante das facilidades que encontraram junto à Prefeitura de Niterói para manter os negócios na cidade.

"A nossa fábrica divide espaço com o nosso bar. Em qualquer outra cidade, enfrentaríamos uma imensa burocracia, teríamos que possuir dois alvarás, um para cada atividade, etc. Aqui em Niterói, tudo foi resolvido bem rápido", destaca Marcio Bastos, um dos sócios da Máfia.

"Esse selo simboliza a valorização de um trabalho árduo baseado em nossos princípios éticos e morais, somos gratos a diversas pessoas que nos ajudaram a crescer. Foi bom confirmar a preocupação das autoridades com o desenvolvimento da nossa região e com o mercado que atuamos", disse Verônica Fialho, outra sócia da Máfia.

A cervejaria Matisse, instalada na Vila Cervejeira, no Centro de Niterói, foi a primeira cigana a receber o selo Niterói Cervejeiro. Em 2017, os engenheiros químicos Mario Jorge e Maria Antônia Macedo, que são casados e se aposentaram depois de 35 anos numa grande empresa, decidiram entrar de cabeça no empreendimento. Eles contam que o processo para obtenção dessa denominação de origem durou quatro meses. Na sua opinião, trata-se de um processo "complexo", mas que valeu a pena:

"A maior dificuldade é documentar o cumprimento de determinados critérios. Tem toda uma parte que depende da fábrica. Nós somos ciganos e dependemos das documentações providenciadas pela fábrica. Pelo menos, fazemos nossa cerveja sempre no mesmo lugar, no caso, a Lagos. Se cada rótulo fosse feito em um lugar diferente, teríamos que ter os documentos fornecidos por todas as cervejarias", comenta ele.

Na opinião de Mario Jorge, o selo é importante e pode ser fator determinante para ajudar o consumidor na hora da escolher um rótulo para comprar. A escolha do nome foi para unir a degustação à arte, e decidiram homenagear o artista plástico Henry Matisse.

"Os vinhos têm denominação de origem, e isso orienta o consumidor. O selo Niterói Cervejeiro também tem essa função de dar respaldo para a marca. Ele indica que o produto respeita os valores do município, que a marca está alinhada com os valores locais".

Lei incentivou produtores a criar a Vila Cervejeira - A jornalista e professora de inglês Rosângela Romunale é fã incondicional de cerveja artesanal e já se tornou habitué da Vila Cervejeira, um espaço colaborativo criado pelo cervejeiros e que, a cada 15 dias, abre suas portas para os apreciadores com direito a shows. Um ambiente rústico com vários boxes e seis cervejarias com uma média de 35 torneiras abertas só para servir chopp. De quebra, o visitante pode saborear uma batata rústica ou hambúrguer artesanal.

"Eu já vinha acompanhando a criação da lei de incentivo ao setor e gostei muito quando soube da criação, pelos cervejeiros, deste espaço, graças a esse apoio da Prefeitura. É uma forma de gerar emprego e renda, principalmente neste momento que estamos vivendo no país. Isso sem contar que eles trabalham com um produto delicioso. Vai ganhar quem tiver mais criatividade e experimentar novas receitas. No espaço da Vila é legal porque ainda escutamos rock, o que também adoro. Torço muito pelo sucesso destes cervejeiros e a prefeitura fez muito bem em dar apoio a esse segmento", observou Rosângela.

Sandro Gomes, da Dead Dog, é um dos fundadores da Vila Cervejeira, e vê no local um ponto estratégico para a organização e distribuição da bebida. O lugar, que antes era usado por distribuidoras de jornais, é hoje dividido democraticamente entre os boxes de cervejeiros. Ali todos dividem as contas e a cada 15 dias, das 14h às 23h, a diversão é garantida.

"É um espaço democrático que facilita a logística. A lei nos ajudou muito e hoje conquistamos este espaço. Vamos avançar e queremos mesmo ser um dos principais polos cervejeiros do estado. Estamos trabalhando para isso. É uma troca de experiências, e cada um mostra seu produto, já respaldado em lei. Isso é muito importante, pois ganhamos mais credibilidade", observou Sandro.

O secretário Luiz Paulino Moreira Leite visitou e aprovou a Vila Cervejeira. "Vimos que existia um mercado crescente no País e na cidade. Por isso incentivamos a criação da lei e o resultado não poderia ser mais positivo. No que puder, continuaremos incentivando os produtores e tentando propiciar espaços para que possam comercializar os produtos e vender para fora", observou o secretário.

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