A arte da intransigência

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Há um antigo ditado português que diz: “Dou um boi para não entrar em uma briga, mas dou uma boiada para não sair”. Apesar de simplório, vejo que ditados como esse resumem um pouco os tempos que vivemos no Brasil. Tempos de radicalismos rasos, de polarizações cretinas, tempos de guerras ideológicas (usando o sentido mais pejorativo desse conceito tão complexo que é ideologia). 

Na última semana, fui surpreendido por uma polêmica nas redes sociais (sempre elas!) em torno de um trabalho escolar de Arte realizado no Colégio MV1 Icaraí. Os alunos eram apresentados a painéis do artista urbano Keith Haring, um trabalho esteticamente interessante, pela simplificação pictórica dos traços humanos, que remetem à arte rupestre. Este era o objetivo do trabalho, a meu ver, muito feliz. Uma das competências mais importantes requeridas pelas avaliações em larga escala (Eneminclusive) é a capacidade de relacionar contextos históricos distintos. 

Mas para um responsável da escola, não houve essa compreensão. Seu olhar se direcionou para o homem Keith Haring, e não para sua obra. O artista era um militante LGBT e ativista da causa de AIDS, tendo contraído a doença e criado uma fundação para crianças portadoras do vírus. Alguma de suas obras, de conotação mais underground, retratam esse traço de sua existência. Mas a pergunta que fica é: e daí? A escola teve cuidado em selecionar as obras adequadas à faixa etária que servissem de inspiração aos alunos e isso não foi levado em consideração pelo responsável, que fez uso das redes sociais para acusar a instituição de fomentar a “ideologia de gênero”(oi?).  Seguindo esta lógica, deveríamos proibir Leonardo Da Vinci nas escolas e banir qualquer exibição do Homem Vitruviano!

Essa reação poderia ser um caso isolado, mas a polarização nos cega e faz com que coloquemos tudo em um mesmo saco, sem distinções. O que acende o sinal vermelho é a forma nefasta com que pessoas compartilham essas informações, sem estarem envolvidas, sem checarem as fontes, sem pesquisarem os dois lados. Se quer usar sua rede social para compartilhar notícias, ok, mas faça isso com o mínimo de responsabilidade. Denegrir uma instituição séria por discordar de uma atividade (talvez o verbo certo aqui seja “desconhecer”) é uma reação, no mínimo, irresponsável. 

Como educador, solidarizo-me com a direção, corpo docente e discente e, especialmente, com a professora, que teve a sua trajetória profissional atingida. A democracia é uma conquista muito difícil, muito recente, muito frágil. Eventos como esse mostram que o pequeno-fascismo nos ronda, que a criação de inimigos comuns, prática maquiavélica usada pelos nazistas, pode acontecer em qualquer grupo ou comunidade. Quem preza a liberdade, a autonomia, a consciência crítica precisa se opor a esses radicalismos preconceituosos, que só contribuem para prejudicar inocentes.