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Artigo: A Hidra do Rio de Janeiro

General Marco Aurélio Costa Vieira

Foto: Divulgação/Abelardo Mendes/Divulgação SEE

A Hidra era uma figura da mitologia grega, tinha corpo de dragão e nove cabeças, plantadas em pescoços de serpentes. Hércules tentou matar o monstro esmagando suas cabeças com sua maça de guerra, em violenta luta corporal. Entretanto, cada vez que ele cortava uma das cabeças, via com assombro surgirem duas ou três outras que brotavam do pescoço mutilado. O Rio de Janeiro hoje tem uma Hidra de mil cabeças de violência, que tem nos atacado diariamente nas esquinas da cidade.

De cada cabeça cortada surgem muitas outras também repugnantes, consequências de um estilo de vida moralmente distorcido que o Rio tem se permitido, sendo condescendente tanto com cidadão que porta um fuzil na comunidade, como com aquele que vende produtos do roubo de cargas nas calçadas de Copacabana. O Rio tem em média 500 tiroteios por mês, 30 roubos de carga por dia, um homicídio doloso por hora! Nos últimos 10 anos, mais de 3.000 fuzis foram apreendidos pelas forças de segurança, mais de 500 policiais foram assassinados. Estamos vivenciando um quadro de guerra irregular, um conflito de baixa intensidade ou, adotando-se uma nomenclatura mais moderna, de uma autêntica guerra assimétrica. A Hidra carioca já está enroscada no Hércules que existe em cada um dos cidadãos de bem da cidade. 

Evidentemente, a Segurança Pública não se deteriorou de repente. Na verdade, a insegurança foi construída desde a década de 80 do século passado, por seguidos (des) governos estaduais e municipais, que optaram muitas vezes por privilegiar as iniciativas assistenciais, em detrimento das medidas estruturais de enfrentamento do crime. É senso comum que são necessárias medidas sociais e de suporte à população mais exposta à criminalidade e à violência, e que qualquer solução quanto à Segurança Pública deve considerar as oportunidades de emprego, educação, cultura e esportes, em especial para os jovens carentes.

Entretanto, quando essas iniciativas sociais já não conseguem mais se tornarem efetivas, ao longo de anos, e o quadro é agravado pela falta de políticas e estratégias adequadas para os problemas da violência diária, as consequências não podem ser diferentes do caos que atualmente se vive na nossa cidade. A violência no Rio de Janeiro há muito deixou de ser consequência de problemas sociais. Hoje, ela é a maior causa de perdas de vidas, fuga de capitais, êxodo de cérebros, desemprego crescente, desvalorização imobiliária, diminuição da arrecadação, reduzidas taxas de ocupação dos hotéis, fechamento das casas de comércio, aumento dos seguros das cargas, queda na frequência aos restaurantes, teatros... A violência hoje no Rio de Janeiro é muito mais causa do que consequência de quaisquer dos fatores sociais ou econômicos que se analise: ela não tem partido, religião ou time de futebol e deve ser encarada não mais como problema, mas como calamidade pública. 

Há primeiro que se reconhecer a crítica situação do Rio, há que se admitir a ineficácia dos métodos utilizados até hoje, e isso exige o uso da razão. É racional ponderarmos os aspectos sociais, ou outros interesses, inclusive políticos, mas é preciso sim rever a validade atual dos instrumentos legais clássicos, e adotar outras práticas operativas, além da desgastada solução de usar as Forças Armadas nos moldes de sempre. Assim, os Governos Federal e Estadual não poderiam ter outra atitude que não de coordenar uma efetiva “operação especial” de Segurança Pública, calcada em outras vertentes além da operativa. As providências agora devem ser orientadas não apenas para o enfrentamento operacional, propriamente, mas também de se plantar um futuro, buscando-se um inicial alívio da pressão das urgências, mas também aperfeiçoando-se as estruturas de gestão, capacitando-se pessoal, investindo-se em tecnologia e Inteligência da Segurança Pública.

Além das óbvias operações em força, é preciso que a  sociedade organizada participe de ações e projetos de médio e longo prazo, de forma a se ganhar espaço e tempo, corações e mentes das comunidades, visando liberar as áreas dominadas pela criminalidade e, principalmente, resgatando aquela juventude sitiada para a vida cidadã. Reza a lenda que no final da luta restou viva apenas a cabeça do meio da Hidra, considerada imortal. Hércules a cortou, queimou a chaga e, colocando uma enorme pedra em cima, matou o monstro. Há um simbolismo em não apenas cortar, mas cauterizar a essência do mal.  A sociedade carioca deve compreender a gravidade da situação e assumir a sua parte nessa luta hercúlea, como protagonista dessas iniciativas e não apenas criticar, ou se colocar como vítimas indefesas dos indivíduos que circulam habitualmente fuzil em punho pela cidade.  O momento pede uma mobilização social, porque só assim vamos conseguir cortar e enterrar as cabeças dessa Hidra da insegurança, que tanto nos aterroriza hoje no Rio de Janeiro.

General Div R-1 Marco Aurélio Costa Vieira foi diretor de Operações dos Jogos olímpicos Rio 2016, comandante da Brigada de Operações Especiais e comandante da Brigada de Infantaria Paraquedista, atualmente é consultor em Organização e Segurança de Grandes Eventos.

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