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Consumo infantil e o papel dos educadores

Desembargador Guaraci Campos Vianna

Foto: Divulgação

No mundo moderno, não importa a classe social (mas o problema tende a ser mais grave nas classes mais elevadas) através da sociedade de consumo, tem-se estimulado a criança e também o adolescente a ser incluído nos meios sociais pelo que ele tem de bens materiais. Só depois, alguns poucos, ainda lhe destinam um olhar pelo que ele é, seus valores, educação, etc.

E talvez aí esteja centrado o foco da mídia televisiva, pois bastam 30 segundos de exposição para que uma marca influencie um telespectador infantil que, vulnerável, não consegue perceber tal indução e força seus pais a consumir.

As crianças influenciam os pais na compra do tipo de alimentação ou produto. Isso porque, enquanto o ritmo da vida cotidiana provoca um distanciamento entre pais e filhos a publicidade dialoga com os jovens e potenciais consumidores o tempo todo, por meio da mídia infantil e adulta, da programação infantil e adulta.

Entrementes, a aceitação no grupo social se dá por meio do consumo de determinados bens. E por mais que a família tente intervir nesta influência negativa existe uma rede de ligações sociais que emite impulsos externos de consumo.

Existe uma produção publicitária de enorme qualidade, porém sem o estabelecimento dos devidos limites. A publicidade promete mais que a alegria de possuir o bem, “ela promete a alegria da inscrição na sociedade”, a existência social. Quem não se inscreve como consumidor será afastado e, por fim, rotulado como não-consumidor daquele produto.

Isso é motivo de extremo sofrimento para as crianças, sobretudo quando ela recebe estímulos de consumo que sua posição social e seu nível de renda não permitem que ela realize.

Os centros comerciais constituem espaços mais requisitados pelas crianças que os espaços de convivência coletiva ou as áreas públicas de lazer (como praças, parques, praias etc.).

Quase a metade das crianças brasileiras possui aparelho celular. As crianças vão se tornando rapidamente adultas e comportando-se como adultas. Têm muito mais do que precisam, coisas muitas vezes repetidas. As famílias estão se endividando e passando por sérias restrições financeiras para fomentar os sonhos das crianças consumistas.

O apelo ao consumo conduz à irracionalidade de que crianças de alta renda ou de famílias socialmente e economicamente privilegiadas recebem idênticos estímulos de consumo que crianças de baixa renda, que no mais das vezes não possuem condições financeiras sequer de manter uma alimentação regular.

Devemos, no entanto, culpar os pais? Os pais invariavelmente são colocados como aqueles que negam a satisfação dos desejos dos filhos, pois sem tempo para estabelecer um convívio próximo e zeloso acabam lhes recompensando pela ausência.

A mídia nos correntes dias é o primeiro fator atuante na construção da subjetividade e dos valores, em substituição à igreja, à escola e à família.

Segundo pesquisa realizada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a maioria da publicidade de produtos alimentícios direcionados ao público infantil busca promover comidas de elevado valor calórico, com alto teor de açúcar e de gordura e pobres em nutrientes. O desconhecimento e a pouca ingestão de alimentos saudáveis tem levado a muitas complicações de saúde ainda nos primeiros anos de vida. Para agravar este quadro, a comercialização de alimentos industrializados oferece um baixo custo e está quase sempre atrelada a personagens da literatura, das animações infantis, do cinema, da televisão ou ao acesso às diversões da moda.

Não deveria ser exigida uma mídia mais ética e mais responsável no sentido de preservar as crianças da agressividade das propagandas? Está-se diante de uma publicidade abusiva, que por isso haveria de ser proibida, porque aos poucos descaracteriza a cultura alimentar e destrói os vínculos democráticos entre consumidores e excluídos do consumo.

O compromisso de um consumo responsável permitirá remodelar o espaço global de segurança alimentar em que se pretende conviver.

Devemos estar conscientes que essa frustração pode ser causa de vários distúrbios, desde a drogadição (para preencher o vazio pela não realização pessoal imaginária) ou mesmo a violência (para superar a impossibilidade financeira sua ou da família) cometendo a chamada criminalidade aquisitiva (que oferece retorno financeiro imediato, roubo, tráfico, etc.).

Somente uma educação focada nos valores da família, e na aceitação do próximo pelo que ele é ou represente e não pelo que ele tem, poderá pacificar esse contexto e fazer com que se minimize as consequências nefastas mencionadas.

Por Guaraci de Campos Vianna


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