NITERÓI/RJ
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Energia e diplomacia de choque

Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a população distribuída por todo Estado de Roraima é próxima de 600 mil habitantes, ou 2,57 habitantes/km², para se ter uma ideia da baixa concentração populacional, só a cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, possui mais de 510 mil pessoas, ou 3.958 habitantes/km². Como consequência dessa pequena taxa demográfica, além da distância dos grandes centos do país, alguns investimentos foram e são postergados naquele estado, principalmente, aqueles em que a relação custo-benefício representam mais sacrifícios que vantagens, em linguagem popular é o caso do cobertor curto nos dias de frio, sempre fica alguma parte do corpo fora da proteção, esse é o maior problema do déficit de energia elétrica naquela região.

No entanto, quando os custos são elevados e existem alternativas que podem atender as demandas, sem que se tenha que produzir sacrifícios extras, pelo menos naquele momento, essas hipóteses não devem ser desprezadas, como no caso da relação brasileira com a Venezuela através de sua empresa de energia elétrica, a Corporación Elétrica Nacional S.A - Corpoelec.

Abra-se parêntese, longe de ser parâmetro de prestação de serviço, a energia da Venezuela é falha, descontínua e causadora de incontáveis apagões no estado, ao ponto de obrigar a Eletrobrás produzir energia compensatória através de termoelétricas, a um custo bastante elevado, no entanto, ainda assim a fonte da Corpoelec é principal e indispensável para aquela população; conforme rápida pesquisa na internet, hoje Roraima conta com estoque de diesel para apenas dez dias de geração, fechando parêntese.

Como estratégia nacional, considerando a realidade e nossas relações, o Brasil sempre foi considerado no continente (e no mundo) um país amigo, com trajetória diplomática primando pela conciliação, negociação, não intervenção e respeito à autodeterminação de cada nação, destarte, não havia porque se supor que um negócio de fronteiras entre dois países fraternos não fosse celebrado, ou seja, se a Venezuela está próxima e tem condições de atender razoavelmente a demanda brasileira, por que direcionar escassos recurso da região para um imediatismo independente de tal monta, se poderíamos conviver harmonicamente com uma parceria internacional com menor aporte, deixando a almejada interligação ao sistema nacional para um momento de maior sobra de caixa, ficava claro não haver a urgência que hoje, diante de um novo cenário, alguns críticos exigem.

É bom lembrar que essa escassez não vêm de data próxima, não podemos esquecer que os problemas de investimentos no setor elétrico já foram de tal grandeza, que durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso o país teve que conviver com racionamento de energia, situação minorada, embora não resolvida durante os governos de Lula e Dilma, que apesar de apresentarem momento incomum de crescimento na economia em suas primeiras fases, mesmo assim não tiveram que contingenciar eletricidade ou desvia-la do uso doméstico para a indústria, como aconteceu antes.

Ainda assim, apesar dos esforços de todos os últimos presidentes, nosso sistema elétrico continua deficitário e com atrasos na conclusão de cronogramas das obras de expansão, seja pelos problemas relacionados a obtenção de licenciamento ambiental, dificuldades na regularização dos terrenos a serem utilizados pelos linhões, inclua-se no caso as questões de respeito as terras indígenas, dificuldades e falhas de projetos, além da conhecida escassez para tocar as obras.

Para que se tenha uma ideia do quadro atual, o Amapá só pode ser incluído no Sistema Interligado Nacional (SIN) através da hidroelétrica de Tucuruí, em 2014, mesmo assim a um custo extra que recaiu pesadamente sobre a população devido à adoção do sistema de bandeiras tarifárias, o que mostra um dilema aparentemente insolúvel: se a falta de energia é custosa para o país, quando atendida a carência é cara para o usuário.

Ainda quanto a despesas no setor, mesmo na fase do “milagre econômico “, durante o regime militar, época de enormes gastos e endividamentos com obras, algumas bastante polêmicas, período que foram construídas usinas nucleares, hidroelétricas e a Itaipu binacional, período que Roraima ainda era território federal, portanto, administrada diretamente do Palácio do Planalto, situação só modificada após a Constituição de 1988, a integração do antigo território ao sistema nacional de energia elétrica não foi realizado, por certo, vários fatores pesaram na balança para que esse propósito não ser concretizado, um deles, o elevado custo da empreitada.

De complexas maneiras à solução, a interligação do sistema nacional parece ainda longe de ser alcançada, em entrevista apropriada na rede global de computadores, o Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico, Roberto D'Araújo, afirma: "O Brasil tentou integrar o sistema elétrico de todos os territórios nacionais. No passado, estados como Acre, Amazonas e Rondônia não estavam [integrados]. Porém, para se dimensionar a dificuldade técnica, para chegar até Roraima é preciso construir uma linha de transmissão que atravessa o rio Amazonas, o que demanda cabos submersos ou extensão por linhas de transmissão em torres extremamente fortes para aguentar o vão".

Por fim, no que nos afeta de maneira mais premente, estimado pela Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel, que eventual corte de energia pela Venezuela na região custará R$ 1,2 bilhões por ano, a ser repartido por todos os brasileiros, no entanto, seja com maior ou menor custo, mesmo assim Roraima precisará continuar a produzir, gerar empregos e conforto a sua sociedade, é um ciclo que não pode ser interrompido sem danos e consequências, que na condição de membro federativo, ainda que distante das maiores capitais, não pode deixar de ser atendido.

Por outro lado, diante da nova política internacional brasileira, que entende como ilegítimo o novo governo de Nicolás Maduro, inclusive, explicitamente se posicionando por sua renúncia ou derrubada, deve-se imaginar que nossos governantes, tão efusivos em afirmações e novas práticas, tenham um plano traçado, guardado e viável para atender a população daquele estado no norte do país, mesmo porque, em caso de rompimento definitivo ou conflito armado na Venezuela, entre outras sequelas restará o corte do fornecimento de energia para o lado do Brasil, que acontecendo, representará alto preço pelos novos rumos da virada política diplomática brasileira.

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