A migração de Deus

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Famoso pela arrogância e aconselhado a se mostrar humilde, conta-se que o General De Gaulle mandou depositar diante do presépio da Notre-Dame um ramalhete de flores com o cartão: “Do grande De Gaulle para o pequeno do presépio”. Criticado, ele consertou: “Do Primeiro-ministro da França para a Segunda-pessoa da Santíssima Trindade”. Essas coisas não mudam!

Os migrantes são considerados assim: pequenos e segundos em relação aos grandes e donos dos lugares para onde se deslocaram.

São assim os albaneses, mexicanos, salvadorenhos, africanos, turcos, quem quer que tenha nascido do lado de lá da linha da fortuna que divide o mundo. De um lado, aqueles cujos passaportes garantem convivência tranquila; do outro, os que têm de viver escondidos com documentos falsos, em situações de trabalhos degradantes, desprezados e perseguidos. 

A situação dos migrantes piorou muito nos últimos anos. Depois dos ataques do 11 de setembro de 2001 e dos muitos atentados terroristas na Europa, questões de segurança se impuseram. No metrô de Londres, um trabalhador brasileiro de 27 anos, Jean Charles de Menezes, foi morto à queima-roupa com oito tiros na cabeça, disparados por um policial à paisana que o confundiu com um terrorista. 

O mundo se fecha, as mentalidades se fecham, a vida se abafa.

A comédia “Um dia sem mexicanos” (2004) mostra os norte-americanos em pânico diante do súbito desaparecimento de babás, faxineiras, mecânicos, lixeiros e balconistas – oriundos do “lado de lá”. No filme, a rotina da Califórnia se transforma num caos diante da incapacidade dos nativos executarem tarefas banais como espremer uma laranja ou aparar a grama. 

Em 1985, um jornalista alemão, Günther Wallraff, assumiu durante dois anos a falsa identidade de refugiado turco. Disfarçado e falando um alemão tosco, ele se submeteu a tarefas penosas de jornadas estafantes em fábricas e lanchonetes. O resultado foi o premiado livro Cabeça de Turco. O livro mexeu com a consciência de parte da população e resultou numa série de medidas que melhoraram as condições dos refugiados naquele país. 

A migração sempre foi um fenômeno humano. O homem é migrante desde que saiu do centro da África. Abraão foi migrante. Jesus, também. Foi migrante teológica e literalmente: sequer teve lugar para nascer. No mundo próspero de hoje, Jesus não teria lugar nem documento nem emprego nem casa, viveria escondido da polícia e seria expulso na primeira oportunidade. 

Nos fóruns internacionais tem sido aberta uma discussão sobre o direito à migração – a livre circulação de pessoas pelas fronteiras. É claro que isso esbarra em setores conservadores, para quem o que interessa é a livre circulação de dinheiro e mercadorias. Dos seres humanos, não. Os seres humanos precisam ser mantidos, cuidadosamente, sob o controle dos poderosos. 

O mundo se fecha, as mentalidades se fecham, a vida se abafa.

O Natal é a migração de Deus. Quem sabe o mundo se abra. Não custa sonhar!