Por que não, nesse ano?

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Jesus conta uma pequena parábola sobre uma figueira estéril plantada no meio de uma vinha. Ano após ano, a figueira vem frustrando as expectativas do dono da vinha que ali vai em vão procurar frutos. Daí o dono da vinha toma uma atitude, e diz ao vinhateiro: “Olhe! Hoje faz três anos que venho buscar figos nesta figueira e não encontro nada. Corte-a. Ela só fica aí esgotando a terra!” (Lucas 13,7). Uma atitude, se diria, sensata. Contra toda sensatez, o vinhateiro propõe fazer o possível para salvar a figueira. Nessa pequena parábola temos dois paradigmas do momento atual. O primeiro é o da esterilidade.

O mundo está estéril. Perigosamente estéril. Pouco a pouco, fomos substituindo valores que poderiam dar vida à nossa vida por pequenos interesses que nos ajudam a simplesmente “ir levando”. Inventamos a cultura da intranscendência, um neologismo criado para definir a confusão em que nos metemos entre o valioso e o útil, o bem e o que apetece, a felicidade e o conforto, o propósito e o resultado. É claro que sabemos que isso não leva a nada nem é tudo, mas juramos que é, e procuramos nos convencer de que nos basta. O outro paradigma é o do cuidado.  

Curiosamente, a parábola não relaciona Deus com o dono da vinha, mas com o vinhateiro: o moço encarregado da poda, do soerguimento dos galhos, da fertilização, e de todos os cuidados. Ao contrário do suposto, Deus não é o dono. Deus é o cuidador. Por estar próximo, ele cuida. Amar é cuidar, cuidar é ter tempo.

Amor é uma palavra de 5 letras: T-E-M-P-O.  O mundo é a grande vinha.  

Entre os paradigmas da esterilidade e o do cuidado estende-se esse mundo aí, globalizado, que expõe suas mazelas e feridas, dia-a-dia, na grande mídia. Um mundo doente que não sabe o que fazer com os refugiados das guerras e, menos ainda, com as guerras. Doente de epidemias espalhando-se entre as camadas miseráveis, e já chegando perto das avenidas das grifes. Doente de estar doente, por apenas conhecer o que é a doença, e já ter se esquecido do que possa ser a saúde. 

Entre os paradigmas da esterilidade e o do cuidado estamos eu e você, como a figueira no meio da vinha. A pergunta é: com ou sem figos? Ninguém pode isolar-se na neutralidade. Ninguém consegue ser figueira estéril, por anos esgotando a terra e frustrando expectativas. O vinhateiro estará sempre disposto a cuidar e a esperar. Quem sabe, no ano que vem! Mas, se for assim, por que não já, nesse ano?