História sob novo ângulo

Entretenimento
Tpografia
  • Mínimo Pequeno Médio Grande Gigante
  • Fonte Padrão Helvetica Segoe Georgia Times

Artista e designer Ale Maia e Pádua em seu ateliê

Foto: Divulgação / Lucas Benevides

Nessa semana, vivemos um pedaço de derrota, sentimos o peso da tentativa de silenciamento diante do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco na última quarta-feira. Marielle defendia as causas das mulheres, dos negros, da periferia, em busca de uma sociedade mais igualitária, e sua morte foi, além de uma tragédia, um fato simbólico e de comoção internacional. Em sintonia com com o espírito combativo das reivindicações sociais, a exposição “Viver É Lutar”, do artista niteroiense Ale Maia e Pádua, abre dia 24 no Espaço Cultural Correios Niterói, no Centro.

“Há relação entre os fatos. ‘Viver É Lutar’ faz uma analogia poética entre o antigo cenário de guerra do Rio, vivido no Século XVI, ao nosso campo atual, levantando questões pertinentes às duas épocas, tal como a luta por liberdade, igualdade e fraternidade entre pessoas de diferentes etnias, gêneros, culturas, religiões, etc. A morte da vereadora Marielle reafirma a importância de falarmos sobre essas lutas diariamente. De entendermos que o valor da harmonia é proporcional ao desprazer do abuso. De nos questionarmos e refletirmos sobre nossos ‘heróis’ de hoje e de antes. Precisamos refletir sobre quem nós somos e o que fazemos se quisermos melhorar, afinal, não haverá resultados diferentes enquanto fizermos as mesmas coisas”, analisa Ale.

A mostra é formada por cinco obras digitais originais, sendo uma delas um grande painel de aproximadamente seis metros e meio de largura. Além disso, a exposição contará com os textos em três línguas e 12 reproduções de gravuras do século XVI de diferentes autores que dão embasamento a exibição. “Viver É Lutar” se caracteriza por tentar representar personagens da Confederação Tamoios e da França Antártica por uma ótica artística com base real. Ou seja, todos os registros são figurativos, mas construídos baseados em textos e gravuras de cunho histórico. Será possível ver, por exemplo, as cinco suíças de Genebra enviadas ao Brasil, lutando lado a lado com as tupinambás na batalha de Uruçumirim em Rio, de 1567, além de obras que retratam lideranças como Cunhambebe, Aimberê e Pindobuçu.

“Vale lembrar que Confederação ‘Franco-Tamoio’ é uma junção poética desses dois episódios. Sendo assim,  embora eu tenha a consciência de que não sou um historiador, me rendi à vontade de apresentar uma ótica que julgo ser menos convencional e mais próxima daqueles que não viveram para contar essa história. A exposição é justificada através da importância de falarmos sobre nós mesmos diante de nossas responsabilidades e nossa história. Refletir sobre o que aconteceu aqui há aproximados 450 anos é discutir sobre nós como consequência disto. Entender como aspectos vividos naquela época seguem tão atuais é olhar de frente para questões que, muitas vezes, passam a margem e que não deveriam. Acredito que entender o passado de maneira consciente, sem tantos heroísmos ou folclores parciais, procurando ouvir diferentes versões de um mesmo fato, corajosamente, é a única possibilidade real para não repetirmos antigos equívocos”, destaca Ale.

Santa Maria Tupanci”: trata-se de um quadro que ratifica o valor entre as misturas culturais

Foto: Divulgação

O artista plástico compreende, ainda, que este é um caminho longo e árduo e que, muitas vezes, exige mais que dedicação.

“Para estes casos, podemos recorrer à valentia da arte. Foi nesse contexto que vi nesta exposição um aliado para encorajar as pessoas à minha volta a discutir sobre nossos mitos e lendas, sobre nossas raízes, sobre o que já fizemos, sobre quem nós realmente somos quando quem fala sobre nós são os outros e não nós mesmos”, esclarece.

Em uma das paredes do espaço estará exposto também os versos do escritor, jornalista e poeta Gonçalves Dias de “Canção do Tamoio” – “Não chores, meu filho; Não chores, que a vida é luta renhida: viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar”. O poema era recitado pelo pai de Ale desde a sua infância. Desta forma, o integrante do romantismo brasileiro faz parte da vida do artista e ganha espaço na mostra.

“Esta é uma exposição que traz vários textos e elementos além das imagens. Uma exposição que carrega em si o peso de ser toda baseada em fatos verídicos, com personagens e consequências reais. Logo, serão expostos textos em português, inglês e francês, inclusive o poema, a fim de tornar mais claro o entendimento do tema. Além disso, foi desenvolvida uma narrativa em vídeo em que o visitante poderá ver e ouvir uma animação através de seu celular, bastando acessar um QR code”, adianta Ale.
Esta é a segunda vez em que “Viver É Lutar” é exibida, sendo a primeira em Porto Alegre simultaneamente na Galeria Mario Quintana da Trensurb e na Pinacoteca Bar.  
“A exposição afirma seriamente: Respeite-se! Não se permita aproximar-se do abuso e de quem o pratica”, finaliza o artista.

O Espaço Cultural Correios Niterói fica na Rua Visconde do Rio Branco, 481, Centro. De 24 de março a 5 de maio, de segunda a sábado, de 11h às 18h (exceto feriados)Entrada franca. Telefone: 2622-3200.