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Natureza desbravada

Spix e Martius ofereceram ao público em geral belas obras de taxonomia vegetal e animal

Foto: Divulgação

Para celebrar os 200 anos da expedição do explorador, cientista, naturalista Carl von Martius (1794-1868) ao Brasil, acompanhado do amigo e zoólogo Johann Baptist von Spix (1781-1826), em 1817, a Capivara Editora lança o livro “Martius”. A dupla chegou de carona com dona Leopoldina e percorreram 14 mil quilômetros de Brasil profundo, do Rio de Janeiro ao fim do Amazonas, passando por São Paulo. Dois anos atrás, os pesquisadores e historiadores e professores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Pablo Diener e Maria de Fátima Costa começaram a reunir e realizar um grande apanhado e produção de conteúdo para o livro “Martius”, embora tenham dado início às pesquisas sobre o tema 10 anos antes.

Enquanto estiveram no Rio de Janeiro para lançamento do livro, Pablo concedeu uma entrevista a O FLUMINENSE. Martius é o mais importante naturalista que se dedicou ao Brasil no século XIX. Era desenhista, músico, médico, botânico, linguista. Tinha ordens do Rei da Baviera – reino recém-criado pela reorganização da Europa depois das guerras napoleônicas – de trazer tudo o que pudesse, de livros a moedas, de observações astronômicas a etnografia. O livro possui desenhos e documentos inéditos vindo da Europa.

 

 

Os pesquisadores e professores da UFMT Pablo Diener e Maria de Fátima Costa começaram a reunir e realizar um grande apanhado e produção de conteúdo para o livro “Martius”, embora tenham dado início às pesquisas sobre o tema 10 anos antes

Foto: Divulgação

Vocês dois também assinam a organização e grande parte dos artigos de “O Brasil para Martius”, em . De onde surgiu a ideia para realizarem um apanhado como esse? 2012

O nosso interesse por Martius surgiu nas pesquisas com outros viajantes alemães, que visitaram o Brasil no século XIX, mais diretamente com Langsdorff e Rugendas. Langsdorff foi o principal anfitrião de Spix e Martius; foi ele que mostrou aos bávaros como poderiam desenvolver o seu trabalho e foi na sua companhia que fizeram suas primeiras incursões no Rio de Janeiro e com ele tiveram seu primeiro corpo a corpo com a natureza brasileira, sentindo na pele o contato com o bicho-de-pé, com os carrapatos, mas também com toda a beleza e riqueza do espaço tropical. Depois, também nas nossas investigações sobre Rugendas, apareceu uma e outra vez a figura de Martius, como um cientista que lhe encomendava desenhos de plantas e de paisagens para ilustrar as suas obras. Assim, íamos alimentando o desejo de realizar uma pesquisa sobre Martius, e o edital da Biblioteca Nacional nos deu o impulso para, por fim, nos dedicarmos com afinco a esse personagem.

Nem mesmo na Alemanha esse conteúdo está catalogado como deveria, o que torna “Martius” tão inédito. Como se sentem sendo responsáveis por esse trabalho?

Na Alemanha, desde início da década de 1990, vem se realizando esforços para sistematizar o grande legado da expedição bávara. A Biblioteca do Estado da Baviera, em Munique, publicou em 1990 um importante inventário do material de Martius, que os descendentes do cientista viajante deixaram sob sua guarda. Isto oferece ao investigador uma ideia geral da diversidade das fontes, que cobre toda a vida do nosso personagem. E também houve uma grande exposição em Frankfurt e Munique em 1994, comemorando os 200 anos do nascimento de Martius. Esse foi o nosso ponto de partida. Por outra parte, para esse livro consultamos também o arquivo da Academia das Ciências da Baviera, que, esse sim, permanecia inédito e não existe qualquer inventário ou outro instrumento de auxílio à pesquisa. Esse arquivo guarda os documentos da expedição e da vida acadêmica de Martius, que até então não haviam sido consultados. Papéis como a proposta da expedição, as instruções e a correspondência institucional, além de dados biográficos preciosos se encontram nesse acervo. Foi a partir deles que podemos construir uma ideia mais segura sobre os protagonistas da viagem e da própria expedição, sua gestação e desenvolvimento, assim como do lugar que essa empreitada ocupou na vida intelectual de Martius.

O quão relevante foi para a época esse tipo de catalogação tão minuciosa feita por Martius aqui no Brasil?

A catalogação é o resultado de um longo processo de sistematização, que se iniciou logo que chegaram à Europa. Ainda na década de 1820, na botânica e na zoologia, Spix e Martius ofereceram ao público em geral belas obras de taxonomia vegetal e animal, as quais foram muito bem-recebidas. Especial destaque merece a catalogação das espécies das palmeiras (Historia naturalis palmarum), obra que idealizou já durante a viagem ao ver os elegantes espécimes nas mais diversas regiões do Brasil. Com o tempo, Martius se propôs levar adiante uma enciclopédica catalogação da totalidade da flora do Brasil (a Flora brasiliensis), uma obra iniciada em 1840 e concluída postumamente, em 1906. Apesar de ter uma visão etnocêntrica, conseguiu individualizar culturalmente as diversas sociedades indígenas que conheceu e posteriormente estudar suas línguas e definir, pela primeira vez, quais eram os principais grupos linguísticos.

Imagino que nem Martius nem Spix pensavam que todo o material seria usado como referência por 50 anos seguintes, não é? 

Prova de que Martius tinha consciência da relevância que o seu trabalho alcançaria a longo prazo é o fato de ele ter se empenhado por organizar e procurar o financiamento para a edição da monumental obra, em 40 tomos, da flora brasiliensis, ao ponto de ter podido ser concluída 40 anos depois da sua morte. Parece-nos fora de dúvida que Martius foi um cientista apaixonado pelo seu trabalho, com vocação naturalista, mas que também adquiriu uma enorme curiosidade por todos os assuntos vinculados com a população do Brasil. Martius quis entender e explicar o Brasil, um país para o qual via uma fabulosa perspectiva de futuro.

Parte das centenas de gravuras do livro é inédita, além de documentos nunca antes publicados. Cite alguns que te chamaram mais atenção.
As cartas enviadas da viagem para o rei da Baviera, que os expedicionários chamam de Relatórios ao Rei, uma série de documentos cuja edição estamos concluindo e que aparecerá também pela editora Capivara no início de 2019; o outro conjunto documental que nos parece muito relevante são as instruções para a viagem, as instruções para as coletas botânicas e zoológicas. 

Nesse momento pelo qual o Brasil passa, vendo a deterioração das suas riquezas históricas, culturais e naturais, como no caso do incêndio do Museu Nacional, como vocês se sentem?

Sentimos muito e ainda estamos abalados com o incêndio do Museu Nacional e com as incalculáveis perdas que isto significou para agora e para o futuro. Quanto à expedição de Spix e Martius, a peça mais importante é o meteorito de Bendegô que, por sua própria composição, felizmente sobreviveu àquela catástrofe. Nossa conclusão necessária é que nada se faz sem educação; esse é um campo prioritário para o investimento do Estado. 

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