O cinema que dança

Entretenimento
Tpografia
  • Mínimo Pequeno Médio Grande Gigante
  • Fonte Padrão Helvetica Segoe Georgia Times

O espetáculo traz os gêneros cinematográficos para o palco – suspense, terror, drama, romance, comédia – através de uma coreografia toda embalada em trechos de trilhas sonoras de cerca de 80 filmes

Foto: Paula Kossatz / Divulgação

No latim, a expressão “sine qua non” significa “sem a qual não”, ou seja, algo imprescindível. A partir dela, o coreógrafo Alex Neoral montou o espetáculo “Cinequanon”, da Focus Cia. de Dança, uma das maiores do Brasil, que faz três apresentações no Teatro Municipal de Niterói dias 22, 23 e 24. A montagem traz os gêneros cinematográficos para o palco – suspense, terror, drama, romance, comédia – através de uma coreografia toda embalada em trechos de trilhas sonoras de cerca de 80 filmes de sucesso, além de seus personagens marcantes. 

“Acredito que o cinema seja essencial para a sociedade, assim como a arte como um todo. O ‘cine’ do título do espetáculo significa ‘movimento’ em latim, e também se liga diretamente à dança. A teatralidade cada vez se estabelece como uma característica marcante nas minhas criações. A ideia desse espetáculo surgiu da minha observação de que, primeiramente, o cinema usa do cotidiano para suas criações e, hoje, é curioso perceber que o nosso cotidiano é tomado pelo cinema. Houve uma inversão, na minha opinião. Você entra em um local com uma música específica e é fácil se sentir dentro de um filme; olhar uma mulher muito bela e usar a expressão ‘ela parece uma estrela de cinema’; ou entrar em uma casa exuberante com uma ‘vista cinematográfica’”, argumenta Alex.

O espetáculo não tem intervalo e é dividido em cenas interligadas. Algumas se iniciam e se encerram enquanto outras deixam reticências. Um detalhe em comum é que todas as cenas têm a presença da cor vermelha – referência que Alex Neoral trouxe a partir de uma cena que o marcou no filme “A Lista de Schindler”, onde havia uma pequena criança de casaco vermelho – ela era o único dado com cor em um filme todo em preto e branco.

“Essa cor vermelha aparece na iluminação, no figurino, nos objetos cênicos, no cenário. Com esses pequenos detalhes, o espetáculo foi sendo costurado e criado. As trilhas e seus diálogos também me interessaram para serem utilizados como o som que provoca o movimento. Os ruídos, os idiomas, os ambientes de um filme incitam movimentações distintas. As imagens já existentes no nosso inconsciente podem se transformar em gesto dançado. Temas como violência, os arquétipos de várias tramas, as relações conflituosas, o terror e o suspense são dependentes das trilhas e do gestual mais exagerado. Trabalhei o movimento cada vez mais carregado de intenção, que traz maior eficiência e aproxima o espectador à obra”, observa o coreógrafo. 

Nem todas as cenas retratam diretamente um filme específico. Muitas foram criadas a partir de títulos distintos, mas algumas são icônicas demais para passarem despercebidas pelo público. É o caso do trecho de “O Poderoso Chefão”, com trilha de Nino Rota, onde há o gestual da máfia italiana e traz, na corporeidade dos bailarinos, os tiros e a violência que Alex fez questão de não banalizar. 

Outro trecho bem reconhecível se passa quando um quarteto de bailarinas usam perucas louras e atuam ao som de “Psicose”. É uma referência direta ao suspense de Alfred Hitchcock, cujas protagonistas dos filmes eram louras.

“Há uma homenagem, também, a Charles Chaplin, que, para mim, era um grande ‘bailarino’. A sua riqueza corporal se afina à dança, pois ela tem que ser autossuficiente através do gestual. No cinema mudo, o corpo tinha que conseguir falar sem as palavras – assim acontece na dança”, explica. 

“Cinequanon” é uma grande homenagem à sétima arte, no entanto, não apenas partindo do figurino e da trilha sonora, mas também da ambiência e dos universos que o cinema cria. A dependência das cenas com o visual fez com que cada bailarino tenha, aproximadamente, seis figurinos diferentes, envolvendo acessórios como chapéu, óculos e outros objetos.

“Os sons auxiliam muito o público a mergulhar em locais imaginários, mundos fantásticos e situações específicas. Assistir a um filme de terror sem música é quase patético, pois o que ajuda a nos assustar é o som juntamente com o jogo de câmeras e edição. Trilhas originais estão presentes, mas também músicas que recordam filmes ou criam novas propostas. Os figurinos são indispensáveis na construção do personagem”, afirma Neoral. 

Ano passado, a Cia. esteve no Teatro da UFF, em Niterói, com o espetáculo “Saudade de Mim” – que unia Candido Portinari, através do cenário e figurino, à obra de Chico Buarque. Alex conta que, mais uma vez, usa de uma arte para servir de inspiração e mote criativo para uma obra de dança. 

“Assim como em ‘Saudade de mim’ há a inspiração na música e nas artes plásticas, em ‘Cinequanon’ o cinema é o ponto de partida. Os espetáculos são distintos, pois, no primeiro, há uma narrativa delineada com início, meio e fim. Já no segundo, cada bailarino vive vários personagens em gêneros variados e não somente um como acontece em ‘Saudade de mim’”, lembra o coreógrafo. 

Como nos últimos trabalhos, a Focus Cia. de Dança possui oito bailarinos em seu elenco – quatro homens e quatro mulheres –, todos muito presentes em cena. Um deles é Marcio Jahú, que já aparece na primeira cena, no foyer, que o ajuda a transitar entre o momento de preparação e o espetáculo. 

“Depois, emendo um quarteto de homens muito agitado, diferente da anterior. Esse mix de cenas e estados é o grande barato desse espetáculo para o bailarino, onde buscamos entrar com integridade em emoções distintas em segundos. Muitos dos filmes que dançamos neste trabalho, ou que escolhemos para nos inspirar neste processo, fazem parte da história de vida de cada um de nós. Então, a nossa ligação emocional é direta com o espetáculo. Isso foi e é muito positivo para a obra, pois a deixa próxima de nós como intérpretes. Acredito que essa intimidade influencia positivamente no resultado que o público vê”, comenta. 

O Teatro Municipal de Niterói fica na Rua Quinze de Novembro, 35, no Centro. Dias 22, 23 e 24 de setembro. Sexta e sábado, às 20h; e domingo, às 19h. Preço: R$ 30 (inteira). Telefone: 2620-1624

Entre os filmes homenageados estão clássicos como “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg; “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola; e “Psicose”, de Alfred Hitchcock

Foto: Paula Kossatz / Divulgação