NITERÓI/RJ
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Traços com voz ativa

Valorizando sua cidade, Denis transforma Niterói no enredo do quadrinho, criando identidade e aproximação com o público local.

Foto: Divulgação
 

O Estado Laico, em tese, é a tradução de um Estado democrático. Há quem considere a separação entre política e religião – segmentos que se confundem desde os primórdios – uma importante conquista do mundo contemporâneo. Mas, na verdade, ainda é uma utopia. Um tema discutido há tempos e que nunca esteve tão atual. É isso que retrata “Teocrasília”, uma história em quadrinhos do quadrinista e ilustrador niteroiense Denis Mello, que tem previsão de chegar às bancas em junho.  Ao todo, “Teocrasília” terá seis edições.

Toda a história já está definida e a expectativa é que a segunda edição esteja disponível no fim do ano. Valorizando sua cidade, Denis transforma Niterói no enredo do quadrinho, criando identidade e aproximação com o público local. Pontos como o Museu de Arte Contemporânea (MAC), a Praça da Cantareira, Ponte Rio-Niterói e Niterói Shopping são encontrados ao decorrer das páginas. “Amo minha cidade e esse primeiro livro se passa todo aqui. O abandonado Cinema Icaraí, por exemplo, tem uma participação importante.

A ideia é fazer com que o leitor de Niterói se identifique a se divirta vendo numa obra ficcional os lugares que o cercam representados. Curto a ideia de prover uma experiência de identificação para nossa gente”, adianta o quadrinista.  “Teocrasília” ganhou um peso muito maior. Denis foi selecionado para estudar na Escola Superior de Artes Visuais Europeia (EESI), em Angoulême, na França.

Entre dezembro de 2016 e julho deste ano, o ilustrador desenvolveu seu trabalho a partir do conhecimento adquirido em uma das instituições que são o sonho de qualquer artista do ramo.  “O enredo básico de todos os capítulos já estava bem definido, mas o orientador que tive lá é um grande artista e soube extrair o que eu tinha de melhor, me estimulou a pensar melhor as composições, me desafiar, usar recursos narrativos mais elegantes, estudar referências que levam meu desenho para um caminho mais interessante”, explica. A cidade é sede, também, do Museu das HQs. Na época, estava em cartaz uma exposição com obras de Will Eisner, considerado um dos maiores quadrinistas de todos os tempos, e referência para Denis. Estar em Angoulême é como respirar histórias em quadrinhos, devido à influência dessa arte em cada detalhe local.

“Foi uma imersão muito bem-vinda”, resume Denis. Antes mesmo de publicar “Teocrasília”, o quadrinista participou de uma exposição na feira de desenho contemporâneo “Paris DDESSIN’17”, sendo selecionado com três ilustrações do prólogo. Também expôs na própria EESI, em Agoulême, mostrando ao público 10 páginas de sua HQ.  “Durante todo o meu período lá, expus a história para muita gente, e o retorno é muito positivo! Todos acham o tema muito interessante e ficam curiosos, mesmo sem a contextualização que um brasileiro tem. Espero que o público e crítica daqui concordem e abracem Teocrasília com o mesmo entusiasmo que os gringos”, disse. 

O quadrinista participou de uma exposição na feira de desenho contemporâneo “Paris DDESSIN’17”

Foto: Divulgação / Lucas Benevides

A história – Sem criticar nenhuma religião, o enredo mostra como a mistura com a política pode ser perigosa e levar a sociedade para um caminho obscuro. Entrelaçada por drama e ação, “Teocrasília” revela uma discussão atual, que nunca esteve tão atual.

“Acho que é uma opção pessoal seguir os dogmas de uma religião, mas, a partir do momento em que vejo uma quantidade enorme de líderes religiosos tomando a dianteira do cenário político, votando e influenciando diretamente em decisões que são para toda a população e independem de espiritualidade, me estimula a levantar a pergunta fundamental da HQ: É isso o que todos querem? Estamos dispostos a pagar para ver o quão maléfico para o nosso sistema político essa simbiose pode ser? Eu não! Então espero alcançar pessoas com o meu trabalho e fazer com que reflitam um pouco”, revela o ilustrador.

Mello aborda, ainda, como a religião pode ser usada e manipulada como estratégia política.
Hoje, grupos religiosos dominam a bancada. Atualmente, trazendo esse cenário para o nosso cotidiano, ele cita a gestão de Aparecida Panisset, que esteve à frente da Prefeitura de São Gonçalo e foi condenada a devolver milhões aos cofres públicos, além de outros políticos. 

“(Marcelo) Crivella vem tomando uma série de medidas questionáveis e nem um pouco neutras, além de outras acusações. É o resultado de votar pela doutrina, votar com a massa e ser literalmente a ovelha no curral, sendo que, algumas vezes, o pastor é um lobo. Respeito muito os verdadeiros líderes espirituais que tem por aí, mas todos sabem que existe uma série de aproveitadores da fé alheia. Não é possível ser apenas Deputado Fulano? Seguir sua religião no âmbito privado e não na cadeira em que deveria legislar?”, argumenta Denis. 

A linguagem universal da HQ pode ser a chave para fazer com que o público perceba como esses segmentos ainda precisam ser devidamente separados, sem influenciar na escolha política. É esse tipo de reação que o niteroiense espera provocar nos leitores. 

“A HQ não vai ser direta e literal o tempo todo, mas apresentando um futuro onde a religião é lei, os desdobramentos disso na vida dos personagens é um convite ao leitor para observar esse cenário e suas nuances. Vejo em Teocrasília um potencial para furar a bolha de leitores de quadrinhos e alcançar gente que se interesse pela temática, e poder, a partir daí, começar a se interessar e consumir mais HQs”, espera o artista. 
 

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