NITERÓI/RJ
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Câncer: abordagem completa

O equipamento Trilogy é uma novidade em radioterapia, permitindo o tratamento do nível mais simples até o avançado, através do controle das doses de radiação

Foto: Douglas Macedo

Até o ano que vem, o Brasil terá 600 mil novos casos de câncer, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). Não à toa, é a segunda maior causa de morte no mundo, podendo se tornar a primeira daqui a alguns anos. Entre os mais comuns, estão o de pele, de próstata e de mama. O combate à doença tem gerado esforços ao longo do tempo. O avanço da tecnologia tem sido um grande aliado na descoberta de novos métodos que garantam melhor qualidade de vida e  chances de cura. 

De acordo com o oncologista clínico do Inca, Carlos José Coelho, os cuidados com o paciente hoje vão além do aspecto físico. É preciso alinhar a mente, corpo e espírito. Por isso, as tecnologias atuam no sentido de garantir não só a cura, mas também o bem-estar de quem é diagnosticado com câncer.  

“O objetivo do cuidado vai além da cura; o compromisso é estar ao lado, conduzindo quem demanda por cuidado em uma jornada que busca alívio, levando em consideração todos os aspectos”, esclarece o especialista do Inca.  

A mesma opinião é compartilhada pelo oncologista Celso Rotstein, do Americas Centro de Oncologia Integrado (COI). Segundo ele, hoje a perspectiva de cura das neoplasias é muito maior do que há décadas atrás, tanto pelo surgimento de novas tecnologias quanto pela maior qualidade de informação. 

“Hoje a gente fala muito mais de cura, por conta não só da capacidade de novos medicamentos, mas porque existe toda uma demanda, uma atenção para que as pessoas procurem ajuda médica em fases precoces de suas doenças. Isso aumenta muito a possibilidade de cura”, avalia Celso.  

Mesmo em casos avançados, ainda de acordo com o oncologista, hoje é possível oferecer melhor qualidade de vida para os pacientes com câncer, com maior expectativa de vida. Por isso, o conceito de cura se torna relativo.  

“Existem doenças que notoriamente se apresentam no mundo inteiro em fase avançada. Elas evoluem lentamente e, quando você detecta algum sintoma, são doenças já avançadas, que já passaram da fase de cura. No entanto, ainda assim, você consegue oferecer um grande avanço da qualidade de vida. O que a gente tem feito cada vez mais é transformar doenças não passíveis de cura em doenças crônicas, que você vai tratando ao longo da vida”, explica o médico.  

Avanços tecnológicos - Um dos equipamentos que possibilitam essa melhora na qualidade de vida é  o Trilogy, utilizado na radioterapia do COI, em Icaraí. A máquina possui todas as técnicas de radioterapia, desde as mais simples até a radioterapia com arco, que são técnicas bem avançadas, segundo a médica responsável pela radioterapia do Americas, Elisa Campana. 

Filmagem durante o tratamento permite observar se o ponto exato da lesão no paciente está sendo alcançado

Foto: Douglas Macedo


“Também conseguimos fazer o que chamamos de radiocirurgia, que são doses muito altas de radioterapia.  Eu posso modular a dose, dizer para máquina onde vai ser a dose mais alta e mais baixa. A gente também faz imagem de todos os pacientes que estamos tratando, como se fosse um raio-x ou uma tomografia, para ver se ele está bem posicionado e se a lesão está sendo englobada pela área de tratamento. Todos os paciente são posicionados com equipamentos de mobilização, pois não podem se mexer. A máquina gira em tono do paciente e vai tratando”, explica a especialista.

Hoje, todos os pacientes que passam pela Trilogy também passam por uma tomografia. De acordo com Elisa, isso possibilita realizar um planejamento do tratamento, o que diminuí as toxidades que antigamente eram muito altas nos tratamentos de radioterapia. 

“Todos os pacientes fazem uma tomografia para planejar o tratamento com antecedência. Antigamente, não existia isso e não tinha como saber se a gente estava dando uma dose muito alta, por exemplo. Isso traz mais segurança e também conseguimos proteger as áreas que não precisam ser afetadas. Hoje, o nível de toxidade é muito menor. A melhoria da tecnologia traz a melhora dos efeitos colaterais também. Se você vai tratar um tumor no útero, por exemplo, pode pegar um pouco da bexiga. Antigamente você tinha consequências muito maiores, você lesava a área sã. Hoje em dia, a capacidade de focar e proteger áreas não doentes é muito maior”, compara a especialista.

Multidisciplinar - Essa mudança no paradigma de que o câncer é uma sentença de morte também se deve à abordagem multidisciplinar, ou seja, uma visão integrativa das diversas áreas médicas com foco no combate à doença. Segundo o oncologista Leonaldson Castro, do Complexo Hospitalar de Niterói (CHN), é desta forma que é possível, hoje, curar-se do câncer, sendo mais provável sobreviver do que sucumbir por suas consequências. 

“Conhecimentos de cirurgia oncológica, oncologia clínica, radioterapia, genética, entre outros, quando integrados, possibilitam um planejamento mais eficaz do tratamento do câncer. Antigamente, esses pilares não interagiam, e era prática consagrada a indicação de um único tipo isolado de tratamento, a cirurgia, a quimioterapia ou a radioterapia.

Hoje, utilizando-se dessas modalidades terapêuticas, de modo integrativo, as chances de cura se ampliaram. Por exemplo,  diante do câncer de reto ou de pâncreas, a utilização de quimioterapia e radioterapia antes da cirurgia possibilitam controlar melhor essas doenças. De fato, a Oncologia Integrativa resulta em melhor controle do câncer”, explica Leonaldson. 

Por isso, a prática da oncologia integrativa tem sido adotada no CHN desde 2016, procurando ampliar as perspectivas de cura e de qualidade de vida. Sob a coordenação do médico Leonaldson, diversos especialistas trabalham, de forma integrada, para definir o melhor tratamento para o paciente. 

“Semanalmente, é realizada uma reunião multidisciplinar com a participação de cirurgiões oncológicos, oncologistas clínicos, radioterapeutas, anatomopatologista,
radiologistas, entre outras especialidades oncológicas, que discutem e planejam o melhor tratamento para a pessoa com câncer, inclusive, disponibilizando tratamentos ditos de última fronteira, como a cirurgia citorredutora com quimioterapia intraperitoneal hipertérmica para o câncer que tenha se disseminou no abdome”, conta Leonaldson. 

Diferenciação - Também no CHN, o pacientes com câncer ou que passaram por transplante ganharam um andar exclusivo. De acordo com a diretora-geral do complexo hospitalar, Ilza Fellows, isso reduz o trânsito do ar e o risco de infecções, priorizando um atendimento diferenciado para os pacientes imunodeprimidos. Uma tela na porta de cada quarto permite o monitoramento de temperatura e filtragem de ar.

“Fazemos o controle de temperatura do quarto em telas de touch-screen, controlando também a umidade do ar, para diminuir fungos e infecções respiratórias, já que são pacientes com a imunidade muito baixa. Temos tudo isso monitorado full time. Também trabalhamos com a filtragem da água para todo esse andar, oferecendo uma substância mais pura, já que o risco de infecções é muito grande. Essa é a mesma água usada na produção de medicamentos injetáveis”, detalha Ilza. 

Interação - O andar exclusivo conta, ainda, com janela interativa. De acordo com pesquisas, o paciente com vista para uma janela com uma árvore tem maiores chances de cura do que um outro internado em um quarto a com paredes brancas. Por isso, o CHN adota a projeção de imagens em uma parede do corredor. 

“Podemos transmitir imagens de Niterói para ambientar o paciente sobre onde ele está”, conclui a diretora-geral. 

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