NITERÓI/RJ
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Mais segurança nas escolas

Nesta quarta-feira, PMs reforçaram a segurança na escola.

Evelen Gouvêa

A Secretaria Estadual de Educação (Seeduc) vai contratar 300 profissionais para atuar em serviços de portaria e de inspeção de alunos, com o objetivo de intensificar a segurança das escolas. A medida foi tomada um dia após apreensão de um ex-aluno de 17 anos que planejava um ataque para matar três alunos do Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho (Iepic) em São Domingos, na Zona Sul de Niterói. 

Nesta quarta-feira (21), estudantes do Liceu Nilo Peçanha, na Av. Amaral Peixoto, no Centro, foram ameaçados pelo Twitter. Postagens anônimas em um perfil não oficial da escola, criado por alunos, anunciavam um ataque para esta manhã. “Amanhã (hoje) vou fazer um massacre no colégio Liceu Nilo Peçanha, no horário da manhã. Então por favor, quando escutarem um barulho de tiro, não se assustem, pq sou eu, e colaborem, não tentem revidar”, diz trecho da postagem, que chega a citar o nome de oito alunos como alvos.

 Assustados, sem saber se tratar ou não de trote, pais de alunos disseram que seus filhos não irão à escola nesta quinta-feira. A Polícia Militar foi informada das ameaças no fim da noite e informou que irá tomar proviências. A direção do Liceu não foi encontrada para se pronunciar.

Iepic – A captura do menor foi feita por agentes da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Niterói. Ele foi encaminhado para um centro socioeducativo. Na manhã desta quarta, a escola contou com reforço no policiamento. O comandante do 12º BPM (Niterói), tenente-coronel Sylvio Guerra, informou que será analisada a solicitação para que uma viatura fique baseada na escola.

Na última terça-feira (19), pela manhã, o menor postou um vídeo nas redes sociais em que dizia que daria apenas 10 segundos para que todos corressem antes que ele começasse o ataque. Segundo as investigações, ele usava a internet para buscar informações sobre como atacar um colégio. O adolescente preparava a ação há algum tempo, e teria tomado coragem para colocar o plano em prática após a tragédia em Suzano (SP), na última semana. A polícia informou que está investigando a participação de outras pessoas no planejamento do ataque. 

Segundo a polícia, conversas dele no WhatsApp citavam ainda o Plazza Shopping, no Centro, como possível alvo de ataque. Em nota, o Plaza declarou que repudia qualquer intenção ou ato de violência, prezando pela segurança dos clientes e lojistas, com uma equipe treinada constantemente. O shopping afirma estar à disposição das autoridades para qualquer auxílio nas investigações. Todas as operações do shopping funcionaram normalmente no dia desta quarta. 

Com menor acusado foi apreendida fantasia do seriado “Casa de Papel” (usada por atores que interpretam bandidos), facas e um tablet

Divulgação / Polícia Civil

‘Sem arrependimento’, diz DH 

m depoimento, o jovem alegou ter sofrido bullying e até pago para que colegas da escola parassem de incomodá-lo. De acordo com o delegado responsável pelo caso, Robson Gomes, o adolescente, que estudava no Iepic até o ano passado, não demonstrou arrependimento e citou ter tido ajuda de um militar no planejamento do crime.

Colegas de classe disseram que ele era agressivo e costumava se isolar.

“Estamos muito assustados. Como ainda não se sabe quantas pessoas estão envolvidas nesse ataque, temos medo de acontecer uma tragédia a qualquer momento. Não sabemos o risco que corremos na escola”, desabafou, nesta quarta, uma estudante.

A direção da escola colocou-se disponível para conversar com alunos e pais.  

“A gente nunca espera passar por essas situações. Parece um filme de terror. Mas a escola está recebendo apoio de todos os lados. O comandante do 12º BPM já disponibilizou um efetivo, o secretário de educação Pedro Fernandes liga a todo o momento para prestar solidariedade e nos ajudar com o que for preciso. Vamos ter uma conversa com os alunos para esclarecer algumas coisas. E todos os pais que nos procurarem, nós vamos conversar também”, disse a diretora, Renata Azevedo. 

Pedagoga sugere reflexão

Doutora em educação, a pedagoga da Universidade Federal Fluminense (UFF) Margareth Martins destacou que a escola é parte importante na formação do aluno e precisa exercer a função de educar o lado emocional e psicológico de seus estudantes, que muitas vezes podem estar passando por situações complicadas no ambiente escolar, como o bullying e exclusão social, que muitas vezes não recebem o devido valor.

“É preciso que se abra uma reflexão a respeito dos recentes episódios de massacre em todas as áreas. Ainda não há teoria que produza uma compreensão aproximada do que aconteceu, mas isso não ocorre de uma hora para outra. É preciso ser feito um acompanhamento de perto dos alunos para que novos casos sejam evitados”, declarou.
Ela também ressaltou a importância dos pais na formação dos filhos, a relevância do diálogo entre os familiares e a fiscalização de conteúdos que estão sendo acessados pelos jovens nessa livre busca que existe tanto na internet como na deep web. 

Um menor é morto a cada hora

A cada 60 minutos, uma criança ou um adolescente morre no Brasil em decorrência de ferimentos por arma de fogo. Entre 1997 e 2016, mais de 145 mil jovens com até 19 anos faleceram em consequência de disparos acidentais ou intencionais, como em casos de homicídio e suicídio. Os dados fazem parte de um levantamento divulgado nesta quarta-feira (20) pela Sociedade Brasileira de Pediatria.

De acordo com o estudo, que considerou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, em 2016, ano mais recente disponível, foram registrados 9.517 óbitos entre crianças e adolescentes no país. O número é praticamente o dobro do identificado há 20 anos – 4.846 casos em 1997 – e representa, em valores absolutos, o pico da série histórica.

O levantamento mostra que, a cada duas horas, uma criança ou adolescente dá entrada em um hospital da rede pública de saúde com ferimento por disparo de arma de fogo. Entre 1999 e 2018, foram registradas quase 96 mil internações de jovens com até 19 anos no Sistema Único de Saúde (SUS).

Despesas – As principais causas externas de morte por arma de fogo nessa faixa etária estão relacionadas a homicídios (94%), seguidos de intenções indeterminadas (4%), suicídios (2%) e acidentes (1%). No caso das internações, embora as tentativas de homicídio continuem na liderança (67%), é bastante expressivo o volume de acidentes (26%) envolvendo arma de fogo.

A avaliação contabilizou ainda as despesas diretas do SUS com pacientes atendidos após contato com armas de fogo. Nos últimos 20 anos, as internações de crianças e adolescente provocadas por disparos custaram mais de R$ 210 milhões aos cofres públicos.

O estudo considerou causas de morbidade hospitalar e mortalidade identificadas nas bases oficiais do Ministério da Saúde como acidentais, suicídios ou tentativas de suicídio, homicídios ou tentativas de homicídio e intenções indeterminadas. 

Estado não vai tolerar violência

A Secretaria Estadual de Educação ressaltou que tem sido enfática em afirmar que não tolerará nenhum caso de violência nas escolas e não aceitará tais fatos como corriqueiros ou normais. A Seeduc destacou, ainda, que o tema bullying está presente nas ações pedagógicas que fazem parte do cotidiano das unidades escolares, inclusive no Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho (Iepic). A secretaria estimula todos os projetos que ensinem os estudantes a lidar com as diferenças e que valorizem o ambiente escolar.

“Procuramos também o Juizado e o Ministério Público para buscar soluções que responsabilizem alunos e seus responsáveis por eventuais episódios de violência protagonizados pelos mesmos. Seremos duros e intolerantes na segurança e no combate a atos que a violem”, garantiu o secretário Pedro Fernandes. 

Particulares já em alerta

O Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe RJ) emitiu um comunicado às escolas associadas orientando ações que julguem essenciais a partir da análise sobre os casos de violência. Os profissionais estão sendo orientados a focar em atitudes prévias. O Sinepe RJ informou, ainda, que diversas ações estão sendo feitas a fim de planejar possíveis trabalhos que tratem de questões relativas ao desenvolvimento socioemocional dos alunos.

Em São Gonçalo, município vizinho, a Guarda Municipal já intensificou a ronda escolar nas 105 unidades da cidade devido às ocorrências de ataque que vêm acontecendo. O comandante da corporação, Carlos Machado, determinou que o recém-criado ROMU (Ronda Ostensiva Municipal) dê apoio a guardas-municipais da cidade e que realizem exercícios de conscientização nas escolas. A Secretaria Municipal de Educação de Niterói, por sua vez, não se pronunciou sobre medidas de prevenção em escolas municipais. 

Colaborou - Matheus Falcão
 


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