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Política
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O Estado Brasileiro se estrutura sobre os fundamentos de uma democracia representativa, e se alicerça a partir da formação de governos de coalizão. Não estamos imunes à crises, as quais devem ser superadas dentro dos marcos previstos na Constituição de 1988, e sempre levando em conta os valores políticos republicanos. O atual Governo Federal presidido por Michel Temer possui um caráter provisório, tendo em vista que o afastamento definitivo da presidente eleita depende de uma decisão que somente ocorrerá no mês de agosto de 2016. Apesar do processo de impedimento, e o consequente afastamento de um presidente eleito, ser um instituto jurídico previsto em nossa constituição, a legitimidade do governo Michel Temer está sendo questionada por inúmeros segmentos da nossa sociedade civil e por setores da opinião pública internacional. 

Muitos analistas já examinaram os aspectos formais do processo em curso, e há divergências de opinião em relação à regularidade dos procedimentos adotados até o momento, bem como dos fundamentos jurídicos que embasaram as decisões adotadas na Câmara e no Senado. Considero que o governo Michel Temer carece de legitimidade para o exercício do poder, e não pretendo estabelecer nenhuma argumentação de natureza jurídica. Acredito que a ilegitimidade deste governo decorre do processo de sua constituição, e a formação da equipe ministerial é a expressão mais visível dessa falta de legitimidade. O resultado das últimas eleições mostraram uma sociedade dividida entre dois projetos políticos distintos. A votação do 2º turno para a Presidência da República foi vencida por uma pequena margem de votos, mas a diferença entre o votação de Dilma Rousseff e Aécio Neves reproduziu basicamente a mesma realidade verificada nas três eleições presidenciais anteriores. As duas candidaturas estavam articuladas a partir de um leque de alianças partidárias, e a diferença entre os dois projetos políticos estava claramente delineada. A maioria dos eleitores optou pela candidatura que representava a continuidade de um processo político iniciado em 2003. Esse foi o resultado da vontade popular expressa nas urnas. 

No entanto, com a aprovação pelo Senado Federal da admissibilidade das acusações contra a presidente eleita Dilma Rousseff, o vice-presidente Michel Temer assumiu interinamente à chefia do governo, e anunciou uma completa reformulação ministerial. Ao mesmo tempo, apresentou um conjunto de medidas para enfrentar as dificuldades econômicas do país. Estas decisões até poderiam ser consideradas regulares, se não fosse o fato de que o novo mandatário da nação tivesse constituído uma nova base de sustentação do governo, cujo núcleo político passou a ser formado por uma aliança entre o PMDB e os dois principais partidos de oposição (PSDB e DEM). 

Por outro lado, não podemos deixar de salientar que as medidas anunciadas pelo "novo" governo representam a linha de pensamento das forças políticas que foram derrotadas nas eleições de 2014. O presidente em exercício Michel Temer possui legitimidade para adotar tais medidas? Essa é a vontade manifestada nas urnas pela sociedade brasileira? Embora ainda esteja na ordem do dia o debate sobre o processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff, e muitos defendam a opinião de que houve um "golpe brando”, pelo menos de uma coisa estou plenamente convencido. A composição ministerial e as medidas governamentais que estão sendo adotadas pelo governo Michel Temer "golpearam à vontade popular" expressa nas urnas, e este fato retira deste governo qualquer possibilidade de se legitimar perante a sociedade.