NITERÓI/RJ
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Ano passado eu morri

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Os dias me contaram um tanto sobre devolver ao outro o que é do outro. Não posso dizer que é a fórmula do sucesso, porque o processo é lento e exige mais da gente do que se possa imaginar. Mas eu posso contar que é um tanto libertador. Com ombros menos cansados e ocupações mais pessoais do que terceirizadas, a gente expande a mente, com sorte, até o coração. Se conseguir se concentrar no caminho, parece que o rio flui melhor. Fica só o que é realmente importante. É muito, mas não pesa. Olhando do lado de cá, pelo menos esses fardos são seus, não do outro.

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Não agora que entendi que cansaço não tem tanto a ver com a quantidade de coisa que se faz num dia ou num ano. Tem mais a ver com algum estado de espírito. Descansar é uma lição sobre solucionar o que é possível, delegar, se necessário, e, claro: não se preocupar com coisas que você não tem nenhuma gerência, ou então não pode solucionar. Às vezes não é possível e - no fim - estamos todos aqui, sem saber direito quando termina. Descanse. Descanse ao dizer não. Descanse ao dizer que não é bom pra você desse jeito. Descanse dizendo que tudo bem. Descanse assumindo consequências. Mas descanse. 

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Entre um dia e outro, entendi que há dias em que a gente vai precisar fingir que não houve algumas coisas - mesmo que as pessoas insistam muito para que você escute. Isso também tem a ver com descansar. Isso tem a ver com não dar opinião em tudo, porque não sabe ou porque não quer - tanto faz e é legítimo. Tem a ver com não dar ibope. É muito relacionado a, como diria minha avó: não bater palma para maluco dançar. É como um instinto - protetor - que faz com que a gente se concentre para gastar energia só com o que vai nos proporcionar boa experiências. Se não for assim, deixe passar. Ontem eu reagi, amanhã também talvez eu reaja. Mas hoje eu não quero. 

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Se for alguém que você ama e respeita, escute. Mas não escute só porque se estabeleceu uma conversa ou uma tensão. Geralmente, nessas horas, há pouco o que se escutar - por mais que se fale. Preste atenção ao cansaço do outro. Preste atenção nos seus próprios rastros e se eles contribuem para o engrandecimento de alguém. Tome o que é seu, mas não seja “justo” só sob as suas medidas e formatos, porque isso não tem muito a ver com justiça. Tem mais a ver com egolatria e egoísmo. 

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Seja generoso com quem você ama. Generoso e gentil. Gentil ao prestar atenção no que o outro diz. Generoso ao prestar atenção no que o outro diz, mesmo que você não se importe tanto com o assunto quanto ele. Generosidade é mais difícil do que gentileza, penso eu. Mas, se você ama, seja gentil e generoso. E, claro, seja justo com você. Sendo assim, há coragem suficiente para, se não houver mais amor, você ir embora. É difícil ser tanta coisa quando não há amor e respeito pelo o que o outro é e sente. Saber a hora de ir é quase como saber chegar.

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Antes de tudo e sobretudo - me considero uma mulher de sorte. Ano passado não, mas esse ano sim. Aprendi a não alimentar a neurose do outro. Aprendi a colocar pontos finais. Aprendi a me dar outras e muitas chances. E aprendi com meus erros e os dos outros a me perdoar um tanto mais. Pra não morrer. Pra não sufocar. Pra também não deixar que a novidade passe por mim sem novidade. E, olha que ironia, parece que resolveu. Não sei se todo mundo lembra. Mas ano passado eu morri.

Esse ano eu não morro.

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