NITERÓI/RJ
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Até o fim

Se eu pudesse começar tudo de novo, se eu pudesse cantar ou, se eu soubesse cantar, cantaria. Eu endereçaria a você os meus versos mais bonitos, se eles fossem te dar alguma paz. Caso eu sentisse alguma ponta de esperança de que a minha voz te alcançaria, que ela se somaria aos seu pensamento um tanto caótico, mas te ajudasse a silenciar, eu faria por quantos dias, anos... Fossem precisos. Olhando assim, quase de longe, parece só que sentei e sigo no aguardo do tempo fazer a parte que cabe a ele. Mas não. Eu corro atrás de alguma lógica. Eu corro atrás, ainda que muito cansada, de algo que ratifique, valide minhas emoções. Eu procuro atrás de cada porta, com olhos atentos, algum vestígio de justiça. Também pergunto, como se fosse crente em algum deus que mima seus filhos, como deixamos escapar algo tão grande, tão imenso. Mas a minha cabeça também parece fazer tanto barulho que eu pergunto e não ouço ninguém responder. 

Eu queria conseguir falar sobre as possibilidades de felicidades que só aparecem quando a gente aprende a desistir. Queria escrever uma tese inteira sobre como é impossível receber outras coisas se estamos com as duas mãos ocupadas e que não adianta ficar jogando metade dessas coisas pra cima, como malabaristas de circo. É preciso ter mãos sem bagagem. Queria debruçar sobre essa tarefa de repetir uma mentira até que ela se torne uma verdade: Vai ser melhor assim, vai ser melhor assim, vai ser melhor assim. Um mantra. Colocaria em outdoor uma arte sobre os benefícios de começar de novo, num outro espaço-tempo, com outras urgências menos rotineiras. Escreveria contos em livros infantis de como tem sempre alguém pronto pra receber o amor que você tem a oferecer, só é preciso estar atento e forte. Mas não resolve.

Ainda sigo num constante fluxo que quem dita o ritmo é a sua falta em mim. Ainda tenho vontade de comer da sua presença, de me encontrar bem lá no fundo dos seus olhinhos infantis e ter certeza de que alguma coisa minha fica com você todas as vezes em que há um encontro. Ainda tenho vontade de te incluir nos meus planos, mesmo sabendo que você poderia não querer. Ainda balanço a cabeça no meio do dia, como se pudesse afastar algum pensamento que não quer ir embora de jeito maneira. Eu ainda me viro na cama atrás de alguma posição que seja tão confortável quanto quando encosto no seu ombro quente. E aí, depois disso tudo, eu vejo que não há ninguém que vai conseguir te entregar isso tudo que eu tenho aqui, não dessa forma. E o inverso também vale. Mas eu espero, com um tanto enorme de esperança, que eu consiga olhar isso tudo de um jeito. Que eu consiga colocar tudo no lugar antes de gritar que não vou conseguir passar dessa. Não há por que morrer de amor, embora seja bonito escrito assim.

Eu espero por um mar imenso que me cure, que te cure, que nos vire do avesso. E eu entro nesse mar enquanto ainda há alguma força, enquanto eu ainda consigo estar viva, querendo muito ser melhor, estar melhor, te ver melhor. Quando eu escrevia que não posso travar lutas das quais eu não vou sair viva, é sobre isso. É sobre ir, ainda que junto, ao encontro de algo que me ajude a recuperar o fôlego. Um lugar em que eu possa descansar, emergir, flutuar sem ter o coração aflito, sem ter o estômago inteiro nas mãos. Eu sigo, ainda que no escuro, em busca de alguma luz no fim do túnel. Talvez não exista, mas isso também é caminhar. Se há algum engano nesse tempo de agora, que seja só sobre essa luz e esse túnel. Não houve antes disso encontro tão bonito. Sempre vai ser um grande encontro. Mesmo quando não entendo. Mesmo quando não encontro. 

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