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Comida e liberdade

Vêm de Luiz Câmara Cascudo, em suas obras sobre história da alimentação, as primeiras notícias dadas sobre manifestações de comida de rua que se tem notícia. Era o comércio de alimentos conduzido pelos escravos, nas praças. Vendia-se angu. Aos poucos foram incluídos peixes fritos, ensopados com legumes e aipim cozido. 
Apesar de exercer trabalho importante na sociedade escravocrata brasileira, os escravos eram quase incapazes de reter seus ganhos, com o objetivo de comprar sua alforria. O grosso do lucro era repassado aos seus donos.

O comércio de comida de rua intensificou-se com a vinda da Família Real para o Brasil. O movimento nos portos era intenso e novas demandas surgiam, sendo atendidas na medida do possível. Os que chegavam buscavam a comida típica de Portugal, providenciada por seus conterrâneos, mas também as iguarias tupiniquins. Processou-se a mistura, novos pratos foram criados, e alterou-se a identidade da comida servida de forma rápida e eficiente nas ruas. E os escravos comerciantes de alimentos eram melhor tratados.

O comportamento alimentar das pessoas muda com o tempo e guarda relação íntima com as mudanças sociais. A sociedade influencia comportamentos e os comportamentos influenciam a sociedade. Somos o que comemos. Existem autores que defendem que o gosto é de fato uma escolha social e cultural, antes de uma expressão dos sentidos.
Estamos em meio à terceira “revolução industrial”. Em plena fase de grandes mudanças, a sociedade está constituindo e reconstituindo laços e reinventando relações, reestruturando a própria realidade. Em meio a esse turbilhão, assistimos emergir uma nova geração, com valores e sentimentos disruptivos e revolucionários e a desafiadora disposição de dar “uma bela banana” para o status quo. 

Em meio a isso, parece estar-se desenhando uma mudança na forma de comermos. Estamos mais preocupados com a origem do alimento, com sua qualidade, com a maneira como é produzido. Nosso gosto vem mudando. Tomávamos cervejas de milho e achávamos o máximo. Tomávamos vinhos que hoje são vistos apenas como bebidas previsíveis, postas em garrafas azuis esquisitas. Comíamos comida excessivamente industrializada e a considerávamos saudável (bizarro...). Hoje em dia, damos razão às nossas avós e redescobrimos a comida de verdade.

E há muito mais comida na rua. Não temos mais escravos, mas voltamos a cozinhar como eles, a fazer comida como antigamente. E relembramos o amor com que nossos antepassados cozinhavam. Com amor. Com carinho. Por horas a fio, no esforço de gerar valor a partir da comida feita de forma artesanal.

Buscamos nossa alforria pela comida. E continuamos lutando para conseguir fazer sobrar um quinhão do nosso lucro. Tem coisa que o tempo ainda não mudou.

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