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Para Christina, a atividade biográfica não pode ser resumida à vida pessoal do personagem biografado, ela deve se aprofundar em temas e questões ligadas ao contexto histórico abordado

Foto: Lucas Benevides

abemos que o hábito de produzir, guardar e organizar lembranças não é de agora. Desde sempre, nos preocupamos em registrar, para além da memória, fatos que consideramos dignos de serem revisitados. Se tivéssemos acesso à vida pessoal de uma pessoa hipotética, poderíamos encontrar lembranças textuais – em forma de diários, cartas, relatos – e imagéticas – em forma de desenhos, pinturas, fotografias, filmagens –, que, costuradas na ordem do tempo, viram uma biografia, que pode ser compreendida como a representação particular de uma trajetória de vida. A biografia de um personagem importante na história, por exemplo, ganha relevância ao traçar o recorte de uma época, com seus respectivos costumes, tendências, principais atores e acontecimentos. 

É o que acredita Christina Fuscaldo, jornalista, acadêmica e biógrafa niteroiense autora de “Discobiografia Legionária” (2016) e “Discobiografia Mutante: Álbuns que revolucionaram a música brasileira” (2018) – biografias sobre os trabalhos de duas das mais notáveis bandas da história do rock nacional: Legião Urbana e Mutantes. Segundo ela, o ofício do biógrafo não se limita a explorar a vida pessoal do biografado com o intuito de mostrar aos fãs um lado mais íntimo das personalidades que cultuam, mas, também, revelar como a vida do biografado se insere no contexto histórico e como seu trabalho foi influenciado ou influenciou a sociedade que, de algum modo, o contemplava. 

“Participo de muitos debates e palestras. Em certa ocasião, num debate cuja mesa era composta por Paulo Cesar de Araújo, eu e outras pessoas, uma mulher que estava na plateia perguntou: ‘A biografia me parece fofoca e invasão na vida alheia. Afinal, por que vocês querem tanto ‘entrar’ na vida pessoal do artista?’. A minha resposta foi que, quando nós, biógrafos, estamos desenvolvendo uma biografia, não estamos só escrevendo a história de vida do artista. Estamos contando a história de um país, fazendo a reconstrução de uma época, de um estilo de vida, colocando questões sociais, muitas vezes políticas”, salienta Christina, que, hoje, está desenvolvendo a biografia de Zé Ramalho e Belchior. 

Ainda refletindo sobre o papel da biografia, a escritora salienta que seu interesse na vida de Zé Ramalho não tem origem somente nos altos e baixos de sua carreira ou nas “fofocas” que o envolviam, contudo, parte de temas muito mais abrangentes em termos históricos e sociais. 

“Para além disso, ao escrever sobre Zé Ramalho, falo de um cara que migrou do sertão para a cidade, ainda no Nordeste, e, depois, para o ‘Sul maravilha’ – expressão utilizada pelos nordestinos que se referiam à Região Sudeste. Onde ele nasceu não tinha luz elétrica e, mesmo em João Pessoa – que é uma capital –, viveu uma série de limitações. Então, me interessou muito conhecer a Paraíba. Fui pela primeira vez por conta do Zé Ramalho, em 2010. Antes disso, não sabia o que era a Paraíba. Acho um absurdo os brasileiros não conhecerem esse pedaço do Brasil, porque temos vários “brasis” dentro do Brasil. Se uma pessoa não tem condições de ir até lá, lendo o meu livro ela vai poder entender o que era a Paraíba daquela época”, explica a biógrafa. 

De família de músicos amadores e apaixonada por música, Christina descobriu o gosto por biografias de artistas ainda na adolescência, assistindo documentários. Investigou a vida de artistas pelos quais mais se afeiçoava, até que conheceu o Zé Ramalho em 1999 através da trilha sonora de uma novela. Percebeu que não existia nada escrito sobre o artista. Foi quando decidiu que ia se dedicar à sua primeira biografia. 

“Em 2005, trabalhando em jornal, consegui ‘vender’ uma pauta sobre um show que o Zé Ramalho ia fazer no Metropolitan. Era muito difícil entrevistá-lo, mas acabei conseguindo o direito de 15 minutos com ele por telefone. Pesquisei profundamente a vida dele no próprio setor de pesquisa do jornal, e ele acabou ficando muito impressionado. Os 15 minutos viraram quase uma hora, e ele me perguntou como eu sabia aquilo tudo com apenas 24 anos. Falei que, apesar de ser realmente muito difícil achar coisas sobre a vida dele, era muito fã e tinha pesquisado. Depois disso, mandei um pedido de autorização para escrever sua biografia, que levou dois anos para ser respondido”, lembra. 

A resposta de Zé Ramalho foi, na verdade, um convite para que trabalhasse em um roteiro de entrevistas para um DVD especial. A autorização para que escrevesse sobre sua vida veio a reboque. Logo em seguida, o biógrafo Paulo Cesar de Araújo foi processado pelo cantor Roberto Carlos, que, depois de reagir negativamente ao conteúdo apresentado no livro “Roberto Carlos em Detalhes” – de 2006 – acionou a Justiça e conseguiu o encerramento da produção, distribuição e venda por todo o Brasil, em 2007. Com isso, Christina ficou órfã de editoras que investissem em seu projeto, pois o caso tomou grandes proporções e assustou as empresas. 

Até conseguir assinar com uma editora, se passaram 10 anos, nos quais Christina não estagnou. Continuou pesquisando e, até hoje, permanece em regime de produção, conciliando sua vida de escritora com as pausas da vida acadêmica. 

Paulo Cesar de Araújo representou os biógrafos na “linha de frente” da luta pelos direitos da categoria na sociedade

Foto: Lucas Benevides

Paulo Cesar de Araújo é um baiano morador de Niterói, jornalista, historiador, professor universitário, e, como já citado anteriormente, biógrafo. Foi um dos atores centrais da luta jurídica que praticamente definiu o destino da biografia enquanto gênero literário consolidado no mercado editorial. “Roberto Carlos em Detalhes” – seu segundo livro – é uma biografia não autorizada do cantor, que reúne em 504 páginas materiais conquistados em 16 anos ininterruptos de pesquisa.

Foram entrevistas, recortes de aparições na mídia, análise da obra... Enfim, uma historiografia que constrói o retrato de uma época em que a sociedade brasileira via sua realidade representada nas músicas do jovem vanguardista. Segundo ele, a proibição foi importante, pois criou um debate na esfera pública.  “‘Roberto Carlos em Detalhes’ não foi o único livro proibido no Brasil. Tiveram outros livros proibidos, biografias inclusive, mas nenhum livro antes desse suscitou um debate nacional. As pessoas conversavam em bares, nas escolas, nas ruas e nas redes sociais, que já estavam a pleno vapor. O debate foi bom, pois chamou a atenção para a questão: ‘quem é o dono da história?’.

Quando Roberto Carlos falou: ‘A minha história é patrimônio meu’, ele estava apresentando uma visão patrimonialista da história. As pessoas se dividiram, uns concordando, outros discordando. O livro acabou se tornando a base da luta pelo direito do historiador pela sua história. Em essência, foi essa batalha que se travou no caso do meu livro”, reflete Paulo, que faz todo o histórico desse processo na obra “O réu e o rei: Minha História com Roberto Carlos”, de 2014. 

Em maio daquele ano, a Câmara Federal aprovou um projeto de lei que legaliza a publicação de biografias não autorizadas e, em junho de 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) acabou, através de votação unânime, com a necessidade de se conseguir um autorização prévia do biografado antes da publicação.  Além de formado em Jornalismo pela PUC e em História pela UFF, Paulo também é mestre em Memória Social Pela UNIRIO – cujo trabalho de conclusão deu origem ao livro “Eu não sou cachorro, não” (2002), uma história sobre a realidade dos artistas do movimento brega durante a ditadura militar.

Atualmente, é professor do Departamento de História da PUC Rio, onde desenvolve pesquisas – e futuros livros – sobre futebol, MPB, cinema, entre outros assuntos que envolvem o Brasil como um todo. 

Com experiência no ramo da produção musical, o jornalista Leonardo Rivera resolveu juntar o útil ao agradável para contar a história de uma das principais vozes da MPB contemporânea, no seu livro “Seu Jorge – A inteligência é fundamental”

Foto: Lucas Benevides

O produtor musical niteroiense Leonardo Rivera, de 44 anos, juntou sua experiência acumulada em anos de carreira no mundo da música com as habilidades textuais que apreendeu na faculdade de Jornalismo para escrever a biografia de Jorge Mário da Silva, o Seu Jorge, cantor carioca que conheceu na época que ainda tocava no Farofa Carioca, nos anos 90.

“Conheço a história do Seu Jorge. Quem conhece os primórdios de um artista, trabalha nesse meio e é jornalista, naturalmente tem vontade de contar a história. Foi o que eu fiz”, relata.

Lançado em 2014, o livro começou a ser gerado ainda em 2008, quando Léo reencontrou Seu Jorge em um show no Caio Martins, em Niterói, após anos sem contato. O jornalista filmou uma entrevista para seu canal do YouTube, e decidiu contar mais do que está presente no vídeo em um livro.

Anos depois, em um show no Circo Voador, Léo comunicou ao cantor que escreveria uma biografia, mas obteve uma resposta neutra, sem oposição, mas também sem autorização explícita.

“‘Seu Jorge – A inteligência é fundamental’ não é autorizada, porém não é proibida. Isso é o que sempre foi dito sobre o livro, e é real porque, desde o primeiro momento, eu comuniquei e, na época, não existia a lei da biografia não autorizada aprovada pelo STF. Eu concordo com essa lei. Tem que existir biografia não autorizada, porque senão vira propaganda da própria pessoa. Não acho que necessariamente a publicação do livro precise ser autorizada pela pessoa ou pela família. Essa liberdade é fundamental para a literatura e para a democracia”, expõe. 

Biógrafo nato, o niteroiense Pedro de Luna, além de jornalista, é um apaixonado por música, característica que o conduziu naturalmente aos meandros do rock‘n’roll nacional para revelar ao Brasil o que foi a cena underground

Divulgação

Conhecido tanto pelo volume de trabalhos produzidos quanto pela repercussão na cena literária, o niteroiense Pedro de Luna é autor de seis biografias: “Chico Alencar – caminhos de um aprendiz”, sobre o ex-deputado federal; “Marcatti: Tinta, suor e suco gástrico”, sobre o quadrinista; “Brodagens”, que conta histórias do rap e do rock carioca através do músico Gilber T; “Filipe Salvador: a cultura de Angola no Brasil”, sobre o pintor africano; “Niterói: rock underground (1990-2010); e, no ano passado, “Planet Hemp: mantenha o respeito”, que conta a história da banda que tomou conta da cena underground ao apresentar um discurso contraconservador politizado, que levou aos holofotes as causas defendidas pela sociedade periférica, como a igualdade racial, social e a cultura canábica.

“De todos os meus biografados, eu tinha interesse por todos, mas não era íntimo de nenhum deles. Acho, inclusive, que se fosse um amigo muito íntimo, poderia colocar em risco a biografia no sentido de não ser tão imparcial, por não querer ser indelicado e tal. O que eu acho muito natural, nesse processo, é que, depois que começa, você se torna, se não amigo, pelo menos mais íntimo dos biografados. Com o Marcatti foi assim. Eu não tinha nenhum contato com ele. O Chico Alencar eu não conhecia pessoalmente, tinha apenas uma grande admiração pelo seu trabalho e, hoje, mais ainda. O nível de intimidade de ir na casa das pessoas bater um papo eu só consegui através da atividade biográfica”, comenta Pedro, que, além dos livros físico e digital, está investindo no formato de audiolivro com a gravação de “Planet Hemp: mantenha o respeito” dividido em capítulos, que estarão em breve disponíveis nas plataformas digitais de streaming. 


 

 





 

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