NITERÓI/RJ
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Debutantes modernas

A festa de Bruna Câmara foi inspirada em baile de máscaras.

Foto: Lucas Benevides

Com origem europeia, o baile de debutantes é uma tradição antiga. No início era uma festa familiar onde nobres apresentavam para a sociedade a filha, que deixava de ser menina para se tornar mulher. Hoje, a celebração dos 15 anos das jovens brasileiras tem contornos muito mais modernos, e para a maioria das meninas que comemoram a saída “oficial” da infância, destacam-se as que transformam a data em festas temáticas cada vez mais exclusivas e luxuosas.

Os festejos de debutantes com status de grandes produções, hoje, podem ser divididos em pelo menos sete pilares: casa de festas, o bufê, cerimonialistas, som e iluminação, paisagismo/mobília/decoração, bolos e doces e, por fim, foto e filmagem. As celebrações chegam a alcançar valores com seis cifras. Geralmente os responsáveis buscam os fornecedores com mais nome no mercado, e esses, é claro, são os que cobram mais caro. Em Niterói, empresas de fotografia especializadas chegam a cobrar R$ 11 mil. Para contar com atrações musicais e galãs para dançar a valsa, há quem desembolse R$ 25 mil. Maquiagem e cabelo ficam em torno de R$ 900. Tudo para que o dia em que os holofotes estão voltados para a nova mulher seja inesquecível. 

Planejando há cerca de um ano e meio sua festa, Camila Costa completa 15 anos ainda em 2015. Izabete, a mãe, conta que a celebração vai unir “o útil ao agradável”, já que era uma vontade da adolescente e da família. Elas contam que o pai sempre se emociona durante os ensaios da dança para o dia da festa. O irmão mais velho quer uma coreografia especial com a aniversariante. 

“Nós sonhamos juntos essa festa, eu e meu marido. Ele, que é super-romântico, sempre sonhou dançar valsa com ela, e isso tinha que se materializar agora nos 15 anos. A gente gosta de receber, de celebrar a vida. E ela também desejava a festa”, conta Izabete. 

O primeiro contato para a organização da festa foi com o cerimonialista. Em seguida foi a vez de decidir o local. De uma forma geral, as duas estão contando com a ajuda de alguns profissionais que trabalham no ramo: como estilista e uma responsável específica pelos convites. Mas as duas garantem, a ideia é fazer uma festa grande, em alto padrão, mantendo o sentimento de celebração à vida de Camila, sem cometer grandes exageros. 

“Acho até que hoje poucas querem fazer porque essa coisa romântica da debutante já não fala tão mais alto. A tradição se perdeu. As festas estão virando eventos muito cinematográficos. A gente está tentando fazer tudo com pé no chão, tudo muito bonito. Essa essência da família estar ali junto, senão vira somente um evento social”, diz a mãe.

Júlia Manzi diz que realizou seu sonho com a festa de 15 anos, em um clube de São Francisco, que teve até bateria de escola de samba

Foto: Aquivo Pessoal

A festa de Bruna Câmara aconteceu no ano passado em uma casa de festas da Região Oceânica. Ela conta que o conceito de um grande evento para uma debutante era novo, e a decisão de fazer a festa não veio com tanta antecedência como acontece com as jovens que começam a se planejar anos antes. 

“Eu não tinha muita noção do que era 15 anos, para mim era uma festa normal, porque nunca tinha ido em uma assim. Minha mãe começou a comprar algumas revistas, e eu comecei a dar uma olhada, e a gostar da ideia. Olhando uma revista, vi uma no estilo baile de máscaras, e resolvi seguir aquele estilo”, lembra a jovem.

Com o tema definido, Bruna partiu para as outras etapas que envolvem a comemoração, como as cores que seriam usadas na ocasião. Ela manteve a tradição. Usou dois vestidos. Também preparou uma coreografia especial, que reuniu as amigas. Todas ensaiaram com um coreógrafo profissional. A mãe, Simone, conta que houve uma preocupação no sentido de participar ativamente na preparação da festa. A aniversariante fez questão de se preocupar com os gastos e, por isso, detalhes como os aromatizado res que foram entregues como brinde aos convidados e as forminhas dos docinhos foram feitos em casa. E Bruna faz coro a quem diz que a melhor parte da comemoração acontece bem antes.

“A melhor parte é antes da festa, porque ela dura, em média, cinco horas. E tudo passa muito rápido. De lembrança ficou a alegria, a parte das danças, todo mundo comendo e se divertindo. Foi tudo muito bom”, revela.

Em março do ano passado, o Praia Clube São Francisco recebeu a “realização de um grande sonho” de Júlia Manzi. Da grande festa, que teve direito até a bateria de escola de samba, a jovem diz lembrar de cada detalhe, desde a valsa até a homenagem que recebeu dos amigos. Filha de dona de bufê, ela contou ainda mais com a ajuda da mãe nos (muitos) preparativos. E acrescenta: “Vale a pena”. 

O cerimonialista Rafael Flores auxilia a debutante Camila Costa e a mãe Izabete na escolha dos convites - O debute de Raphaela Picorelli só será em 2016, mas a jovem já começou os preparativos e, com a ajuda da mãe, Fernanda, está escolhendo o cardápio. Monique Abrantes (esq.) revela a demanda pela personalização de cada item da festa

Fotos: Lucas Benevides / Douglas Macedo

“Desde pequena, eu via as festas em revistas e sonhava com os meus 15 anos! Sempre foi meu sonho ter uma grande festa. Deu trabalho sim, mas como qualquer festa grande. Engraçado que a gente organiza tudo durante anos, fica naquela ansiedade, parece que demora séculos para chegar... E quando chega a hora, passa tudo tão rápido”, resume

Em uma fase na qual os adolescentes costumam buscar aceitação entre seus semelhantes, festas de debutantes funcionam até como uma ferramenta de promoção social. Há oito anos atuando como cerimonialista, Rafael Flores explica que, entre as jovens, quanto melhor a festa, maior o prestígio entre os colegas.  

“Hoje, festa de 15 anos é status. As meninas estão sempre tentando fazer coisas diferentes, querendo a melhor festa. Eu tenho apego à unidade, gosto de exclusividade, de fazer o diferente, pensar fora da caixa”, conta

Bruna manteve a tradição de usar dois vestidos e ensaiou uma coreografia especial

Foto: Arquivo pessoal

No mundo das festas de 15 anos, a tendência no sentido de fazer as comemorações com a cara da aniversariante é geral. Monique Abrantes, do bufê D.A. Gastronomia, elabora até docinhos com as iniciais do nome da menina e brasão da família. Tudo para fazer com que aquele momento seja totalmente voltado para a debutante.  

“Cada festa que tem uma característica temática, a gente procura criar itens exclusivos para a ocasião. É uma coisa de fazer com a cara do cliente, não com a minha. Lógico, o meu cardápio está lá, mas com o diferencial de fazer uma personalização para aquele evento”, explica. 

A lista de serviços desses eventos é enorme e entre os itens mais sofisticados estão as cabines de fotos e comidinhas do bufê, como o gold flakes, flocos de ouro comestíveis que são servidos em alguns pratos do menu. O fagottini de camarão ao molho de mascarpone com aplicação de gold flakes é um dos pratos preferidos de Raphaela Picorelli, que só vai celebrar a sua passagem de “menina para mulher” em 2016, mas já começou, faz tempo, os preparativos para a festa, que promete ser uma superprodução

“A gente sempre fez, de um a dez anos, festas para comemorar o aniversário. Lógico que não eram festas enormes, mas sempre comemoramos em casa de festas. Aos 10, paramos com o objetivo já de começarmos a nos preparar. Eu quero lembrar de como eu me diverti com meus amigos nos meus 15 anos, porque nós tivemos um trabalho enorme”, diz Raphaela. 

Fernanda, mãe da jovem, diz que fazer a festa de debutante “estava nos nossos planos desde sempre, assim como o ingresso dela, oportunamente, na universidade”. Para ela, comemorar todos os anos da vida da filha e deixar passar em branco essa fase marcante seria uma incoerência. Fernanda conta que a ideia é transformar o momento da filha em uma espécie de “Cinderela do Século XXI”. Tem que ser “único e inesquecível”. Desde 2013 no processo de planejamento da comemoração, para elas a festa já começou, já que não faria sentido passar tanto tempo se preparando para viver o festejo em apenas um dia. Tanto tempo de preparação tem sido útil para driblar a crise que toma conta do país.

“Esse tipo de investimento requer um planejamento prévio. No nosso caso começamos a organizar a festa há dois anos. Tive tempo de pesquisar, negociar parcelamentos com fornecedores. Tudo dentro de um cronograma de atividades que prevê também despesas e correlata receitas. A instabilidade econômica do país contribuiu para uma maior organização da nossa parte”, conta a mãe.



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