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Elas podem

Karine Rodrigues tem 33 anos e é supervisora de 42 funcionários no Parador Bistrô, em Niterói

André Redlich

Karine Rodrigues tem 33 anos e é supervisora de 42 funcionários na rede de restaurantes Parador Bistrô, em Niterói. Todos os dias, ela lida com fornecedores, clientes e a equipe, mas não é o estresse do trabalho que a incomoda.

“O que mais me irrita é quando desconfiam da minha capacidade porque eu sou mulher”, conta a niteroiense.

Essa também é a situação de Viviane Alvarenga, proprietária do centro de beleza Mais Bonita, em Santa Rosa. A empreendedora de 37 anos já escutou dos funcionários que teria herdado o negócio “de algum homem”. Rosa Reis, de 55 anos, é atualmente sócia da clínica Spence Imagem e Beleza, mas já enfrentou dificuldades para conseguir um emprego por ser considerada “frágil demais”. 

Essas mulheres não estão sozinhas. Apesar de todos os avanços das lutas sociais, elas ainda enfrentam obstáculos maiores que os homens no mercado de trabalho.

“É como se o caminho deles fosse mais curto”, desabafa Viviane Alvarenga.

A ex-aeromoça Viviane Alvarenga é hoje dona de um salão de beleza em Santa Rosa

André Redlich

Em todo o mundo, apenas 25% dos cargos administrativos são ocupados por mulheres, e, mesmo quando são contratadas, elas ganham 24% a menos do que os homens. Os dados são do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2015. Para vencer essas barreiras, as mulheres estão se empoderando e combatendo atos sexistas no ambiente de trabalho.

A ONU Mulheres, entidade das Nações Unidas que busca a igualdade de gênero, define o empoderamento como o aumento da autoridade e poder dos indivíduos sobre as decisões que afetam suas próprias vidas. Foi baseada nessa definição que surgiu o Movimento de Mulheres 360, uma iniciativa que reúne 18 empresas, nacionais e internacionais, para combater práticas sexistas dentro do ambiente corporativo.

Margareth Goldenberg, coordenadora do projeto, cita os principais marcos que ainda precisam ser alcançados pelas mulheres no mercado de trabalho.

“Muitas coisas ainda precisam mudar, como as oportunidades de desenvolvimento profissional, a remuneração salarial, além dos estereótipos e vieses inconscientes, que são obstáculos invisíveis que impedem as mulheres de crescerem nas empresas”, pontua Margareth.

Viviane Alvarenga trabalhou como aeromoça antes de abrir seu salão e sabe muito bem como funciona a diferença salarial.

“Nessa época, as companhias davam mais horas de voo para os homens, então eles acabavam ganhando mais”, conta a empresária.

Tatiana Leite, psicóloga especializada em sexualidade humana, também menciona os estereótipos e destaca a relação das mulheres com a maternidade como um dos principais obstáculos a ser enfrentado. Ela pontua que a possibilidade de engravidar faz com que algumas empresas contratem menos mulheres e questiona porque o contrário não acontece com os pais.

“A sociedade deve reconhecer que o homem também pode exercer sua paternidade”, comenta a especialista. 

Rosa Reis, de 55 anos, viveu na pele as dificuldades da dupla jornada. Antes de abrir sua clínica, trabalhou por anos como enfermeira de cirurgias e cuidou de seu filho sem auxílio algum do ex-marido.

“Existe uma pressão muito grande para a mulher dar conta de tudo. O homem não tem que administrar a vida dos filhos e da casa, ele pode focar só no trabalho”, desabafa Rosa, cuja pressão foi tanta que acabou tendo um aneurisma aos 53 anos e precisou deixar o trabalho como enfermeira. Durante o tempo em que estava desempregada, Rosa escutou que era “muito frágil” para voltar a trabalhar.

Karine Rodrigues também é exemplo dessa “cobrança externa” e conta que, apesar de ser solteira e não ter filhos, costuma receber presentes de dia das mães de suas clientes.
“Por eu ter mais de 30 anos, todo mundo acha que eu já sou mãe”, conta. 

A diferença de tratamento no ambiente de trabalho excede a questão da maternidade. Karine Rodrigues começou sua carreira como garçonete no Outback e, quando assumiu o posto de gerência, teve que ter pulso firme para enfrentar situações de assédio.

“Uma vez, um homem perguntou a uma das minhas garçonetes porque ela não estava no cardápio. Ela era nova no trabalho e chegou na cozinha chorando. Depois disso, fui na mesa e tentei expulsá-lo. Ele disse que só iria com a polícia, então nós fomos na delegacia”, conta Karine. 

Quando ainda trabalhava como aeromoça, Viviane foi vítima de uma situação semelhante.

“Eu estava atendendo a primeira classe e um dos clientes me chamou para jantar quando o avião aterrissasse. Eu disse que não, mas ele insistiu. Quando nós chegamos no hotel, ele tinha me mandado flores e ficou ligando para o meu quarto”, conta a empreendedora. 

Rosa Reis também sofreu assédio quando trabalhava como enfermeira e explica que a profissão ainda carrega um estigma sexual muito grande.

“Quase todas as mulheres já sofreram assédio, mas a gente não tem coragem de contar. Ela finge que não sofreu, para continuar trabalhando. Principalmente na área da enfermagem, que ainda é muito estereotipada”, revela. 

Para a psicóloga Tatiana Leite, a melhor maneira de mudar esse quadro e combater os estereótipos relacionados à mulher é através de organizações e coletivos.

“Existem cada vez mais mulheres organizadas que estão fazendo valer os seus direitos. Eu acredito que é a partir daí que nós vamos conseguir estar mais no mercado de trabalho”, afirma Tatiana. 

Margareth Goldenberg, do Movimento de Mulheres 360, acrescenta que os homens também têm um papel muito grande nessa luta.

“Nós acreditamos na união de homens e mulheres em busca de equidade de oportunidades e desenvolvimento no mundo do trabalho. Um movimento de união só entre mulheres não é suficiente, temos que convocar os homens a participarem ativamente desta busca por equidade”, comenta Margareth, que ressalta que a luta é longa. 

Para mudar esse quadro, as empresas participantes do Movimento Mulher 360 estabelecem indicadores e fazem reuniões mensais para troca de práticas a serem tomadas no ambiente de trabalho.

Karine Rodrigues, Viviane Alvarenga e Rosa Reis são exemplos de mulheres que, apesar das dificuldades, conseguiram assumir postos de liderança e ultrapassar as barreiras que foram postas em seu caminho profissional. Infelizmente, essa ainda não é a realidade de todas. Quando fala do futuro das mulheres no mercado de trabalho, Karine é esperançosa e considera todas “já vitoriosas”. Já, Rosa acredita que o empoderamento é o caminho certo para conquistar a igualdade e deixa um recado.

“As mulheres devem reconhecer o quanto elas são capazes. A conquista da igualdade depende muito disso”, afirma.

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