NITERÓI/RJ
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Ele

Já começa a beijar o meu pescoço 
com sua boca meio gelada meio doce, 
já começa a abrir-me seus braços 
como se meu namorado fosse, 
já começa a beijar a minha mão, 
a morder-me devagar os dedos, 
já começa a afugentar-me os medos 
e dar cetim de pijama aos meus segredos. 
Todo ano é assim: 
vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras, 
vem ele disposto a quebrar meus galhos 
e a varrer minhas folhas secas. 
Já começa a soprar minha nuca 
com sua temperatura de macho, 
já começa a acender meu facho 
e dar frescor às minhas clareiras. 
Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras, 
seu discurso sedutor de renovação, 
suas palavras coloridas, 
e eu estou na sua mão.

Todo ano é assim: 
mancomunado com o vento, seu moleque de recados, 
esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos, 
levanta-me a saia, beija meus pés, 
lábios frios e língua quente, 
calça minhas meias delicadamente 
e muda a seu gosto à moda de minhas gavetas!

É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela, 
meu jogo e minhas varetas. 
Parece Deus, posto que está no céu, na terra, 
nas inúmeras paisagens, 
na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia, 
dentro e fora dos meus vestidos, 
na minha cama, nos meus sentidos.

Todo ano é assim: 
já começa a me amar esse atrevido, 
meu charmoso cavalheiro, o belo Outono, 
meu preferido.

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