Eles são especiais

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Marcella Sosinho adotou o gato Fred, que só tem um olho.

Foto: Lucas Benevides

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que 44% dos brasileiros têm, pelo menos, um cachorro em casa. Por outro lado, um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que cerca de 20 milhões de bichinhos ainda vivem nas ruas e sofrem por doenças e maus tratos. Que tal adotar um companheiro que precisa de você? Se levar para casa um pet só gera o bem e o amor, adotar um cachorro ou gato com algum tipo de deficiência transcende esse sentimento. Cuidar de um bicho com necessidades especiais não só torna a vida do animal mais feliz, mas vira um aprendizado para os donos. No entanto, a adoção nessas condições ainda não é uma realidade para a maioria das pessoas. A falta de informação é a principal vilã dessa história.  

Contrariando o que muitos pensam, os animais têm uma enorme capacidade de se adaptar perfeitamente às suas condições e serem felizes do jeito que são. Para chegar a essa conclusão, a professora Luana Jotha, de 30 anos, precisou passar por várias experiências para enxergar que “todos os animais são especiais; alguns, mais”, como costuma dizer.  

“Não é um bicho de sete cabeças. Um animal especial é um animal normal. Seu cachorro de raça que tem problema de pele, às vezes, requer mais cuidados do que o meu que é paraplégico”, compara Luana, que tem um gato e quatro cachorros, sendo que três deles são especiais: Petit, Vida e Enzo. O primeiro, um dachshund fruto de um antigo relacionamento, é paraplégico e já teve três hérnias, uma delas operada. Hoje com 12 anos, Petit também é cardiopata.  

“Até eu conseguir um especialista, oito veterinários me recomendaram a eutanásia. É um exercício de aceitar um animal como ele é. Muita gente pergunta se tem como voltar a ser um animal normal. Tem! Só que, às vezes, não tem, e a gente tem que aceitar. Não temos que exigir mais do animal do que ele pode”, alerta a professora.  

Há dois anos, outro cachorro especial surgiu em sua história. Luana voltava de um feriadão quando encontrou Vida, que tem idade estimada de 8 anos, atropelada na estrada. O motorista fugiu sem prestar socorro. Não teve jeito: a levou para casa.

“Vi o cachorro se arrastando na rua e, na hora, enxerguei o Petit ali, porque é a mesma ideia de deficiência. Fiquei com medo por ser um animal de rua, mas ela já se enroscou na minha perna. Ela estava muito magra e com muito carrapato”, lembra.  
Depois de ficar internada um mês, Vida ficou na casa de Luana temporariamente, mas não encontrou uma família para adotá-la. O atropelamento deixou sequelas irreparáveis. A cadela ficou paraplégica e epilética, em decorrência de um traumatismo craniano.  

“Ela tem alguns complicadores. Tem infecções recorrentes no trato urinário. Já foi desacreditada várias vezes por muitos médicos, porque não tinha nenhum antibiótico que poderia fazer efeito. Tratamos, então, com terapias alternativas”, explica.  

Luana Jotha é “mãe” de Vida, Enzo e Petit, que lhe dão amor e carinho diariamente.

Foto: Lucas Benevides

E o destino, mais uma vez, não poderia ser diferente. Enzo, um shih tzu de dois anos, foi encontrado com um mês de vida na rua, com o intestino para fora. Ele estava com uma coleira e uma carteira de vacinação, sinais que apontam que ele foi abandonado por conta do problema de saúde, prolapso de reto e hérnia umbilical.  

“Descobrimos que o prolapso de reto era só um sintoma de uma doença muito pior, que é uma fraqueza muscular generalizada, que não sabemos qual é a causa. No começo, quando não sabíamos que ele tinha essa doença, um monte de gente quis adotá-lo, porque é um cachorro de raça. Com o decorrer do problema, essas pessoas desapareceram”, lamenta Luana.  

É justamente esse preconceito que a professora quer combater. Desmistificar o mundo dos animais especiais se tornou sua missão de vida. Para isso, ela mantém um site, o “Meu Pet Especial”, no qual conta suas histórias de superação e amor, além de histórias de pessoas que passam pela mesma situação, mas que abrem o coração e o lar para os pets com deficiência.  

“Desde que o Petit apareceu na minha vida, senti uma necessidade de informação. Quando a neurologista me falou que ele não ia mais andar, para mim era uma sentença de morte. Eu via que as pessoas tinham a mesma falta de informação que eu e estavam sofrendo como eu sofri”, contou Luana, que completa dizendo que existem, sim, desafios, mas que superá-los é apenas questão de tempo.

A administradora do site, aliás, já alcançou 8 mil acessos diários e tem quase 30 mil seguidores em sua página no Facebook.  

Com tanta inspiração, uma das alunas de Luana resolveu adotar um gato especial. A estudante de psicologia Marcella Sosinho, de 26 anos, tem um felino de apenas um olho. Fred foi achado na rua, com menos de um mês de vida, com um dos olhos para fora, retirado após procedimento cirúrgico.  

“Ninguém quis adotá-lo porque ele ficou sem um olho. Tem gente que para na rua e diz ‘tadinho’. Gente, ele não nota a diferença, não está nem aí e é superfeliz assim. Os outros gatos e cachorros brincam com ele normalmente. As pessoas podiam se espelhar mais nisso. O que é ser normal? Todo o mundo é diferente”, argumenta Marcella, chegando à conclusão de que cuidar de um animal com deficiência é uma verdadeira lição de vida.