NITERÓI/RJ
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A esquerda invisível

Quando eu era uma universitária, menina capixaba, na Ufes, a esquerda estudantil me chamava de esquerda festiva. A mim e minha trupe de artistas e outros pensadores que ousavam ser alegres na irreverência. Era como se ter bom humor tirasse a seriedade dos temas. Sem contar que o nariz torcia de homofobia, misoginia, palavras que não estavam na boca do povo daquela geração como estão agora. Avançamos muito, mas convido minha esquerda de hoje a se olhar no espelho. Todos nós, inclusive eu. O que veremos? Quem somos?

Venho dizendo por aí, nos encontros, nos salões dos cafés filosóficos que frequento, que é preciso que reparemos se não estamos, sem perceber, perpetuando pensamentos e opressões contra os quais pensamos lutar a vida inteira. Portanto, não faz sentido que, por ingenuidade ou cegueira, se continue a ver o mundo da sacada da Casa Grande. Acho que vale a pena dar uma olhada na educação que recebemos toda embutida de preconceitos e de forma tão arraigada, por mais de esquerda que sejamos, em quantos de nós nunca ocorreu, nem no imaginário, namorar ou casar com um preto ou uma preta? Sendo Brasil. A gente tem que se perguntar se a gente não está reproduzindo e perpetuando a obra da escravidão. Se não há sequer um jornalista preto nos quadros dos maiores jornais do País, ou há só um, o que isso diz de nós? Por que se tem gente de esquerda escrevendo roteiros, filmes publicitários, ensaios, dirigindo jornais e etc? Por que em tais plataformas de vanguarda o negro não figura? O que faz isso ainda não entrar no olhar de um jovem produtor de elenco? Esse escrito é para todos. O racismo é um sistema e, como tal, está emaranhado em vários modos e critérios de forma tão normativa que nem percebemos o quão bizarro e atuante ele se faz em várias ações diárias nossas.

Às vezes, em calorosas discussões, alguém fala: “Isso é o ‘racismo inverso’”. E sei que quem me diz isso não sabe que quando usa tal expressão está reconhecendo a firma de que concorda que o “racismo certo” é o do branco sobre o negro. Como se existisse algum racismo certo.

Não quero ser chata aqui, nem indelicada, muito menos quero desconcertar meus amigos, inúmeros, brancos no sentido de que, apesar de todas as suas ousadias na vida, apesar do seu pensamento inclinado ao bem-estar comum e à coletividade, seu olhar continua na gaiola da Casa Grande. Entram em restaurantes, frequentemente, onde não há presença de nenhum negro entre os clientes, algumas vezes, nem entre os garçons e outros funcionários, e não reparam nisso. Isto está dentro do normativismo, do racismo “certo”. Não é por maldade, trata-se de uma espécie de cegueira, não houve negros em seus colégios, em seus condomínios, na vizinhança. Não está no escopo do que eles chamam de sua realidade numa vida de flagrante privilégio. Uma grande amiga, Ju Mesquita, atriz, branca, artista da melhor qualidade, me confessou, no dia das Diretas Já em Sampa, que só agora percebeu o quanto de privilégios cobriu a sua vida sem que ela se desse conta, até então, sem que ela percebesse que as chances oferecidas aos negros são inversamente proporcionais às que são oferecidas a ela. Achei lindo aquele reconhecimento, pedi que ela os descrevesse para mim, fizesse por escrito um testemunho. E ainda disse mais, que se ela me permitisse, assim que me entregasse, eu o publicaria aqui. “Claro”, ela me disse, com um sorriso lindo. E falamos juntas: “Precisamos falar sobre Kevin”. Falo assim porque penso que esse assunto precisa chegar à mesa dos pensadores contemporâneos, à mesa da elite branca da esquerda.

Estive em cartaz agora, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, num teatro público. Era para fazer um fim de semana, fizemos três. A peça “A paixão segundo Adélia Prado” abarrotou o teatro, que andava meio parado de público, e deixou, algumas vezes, 50 pessoas do lado de fora bradando por ingresso a R$ 5, preço popular. O que tomou meu coração foi ver a delícia daquele povo inteligente, inquieto, curioso, estudioso, ser considerado. Muita gente de esquerda ali, e entenda-se esquerda aqui como aquele que acredita numa sociedade que beneficie a todos e não aquela que só quer saber dos privilégios de alguns em detrimento da miséria de muitos. O Brasil mudou minha gente. Há uma rapaziada negra que está doida para votar num representante negro. Se não negro na cor, negro no olhar. Há uma juventude negra e pobre que já sacou que é a primeira a morrer e que, sem estudo, fica-se mais desprotegido. 

Ela existe e as pessoas que têm o pensamento avançado e que querem agir politicamente de maneira profunda, estão dispostos a essa autocrítica para que se torne mais coerente e mais legítima a nossa luta. E mesmo que em sua casa, nas grandes festas de família, não haja um cunhado preto, ou cunhada, ou sobrinho, não se desespere, a revolução pode começar por você. Quando a bola chegar na sua vez, faça ela mudar de lado. Como ensinar um filho a ser humanista, não racista se, na casa da gente, nenhum preto amigo frequenta nenhuma festa? Como? Como explicar isso, sendo Brasil? A Casa Gande era, sobretudo, mimada, e se queremos mesmo nos livrar de seus preceitos escrotos, temos que parar de achar que ser clean e elegante é não usar cor, é não sambar, é não estar à vontade na alegria de viver. Aquela mesma alegria que trago até hoje e que fez com que, nos tempos de faculdade, pensassem que era menor a minha revolução. Precisamos nos unir, a fortalecer nossa gira. Somos muitos. Os conservadores são menos intolerantes entre si. E é isso que peço a todos. Vamos crescer. É necessário. 

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