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Lado diretor

Oswaldo Montenegro acaba de lançar seu quarto filme, “A Chave do Vale Encantado”, que está disponível em seu canal no YouTube

Fotos: Divulgação

Com uma sólida carreira musical, Oswaldo Montenegro se consagrou como um dos nomes da MPB, combinando poesia e voz marcantes em uma trajetória singular dentro do segmento. Oswaldo é um artista, e, como a arte não se limita à música, ele sempre dialogou com outras formas de expressão, como teatro e televisão. Mas foi no cinema que o então cantor se descobriu diretor. Em 2010, dirigiu seu primeiro filme, “Léo e Bia” – inspirado na canção homônima de 1979. De lá para cá, são nove anos transitando entre a música e o cinema, até que, este ano, acaba de lançar seu quarto filme, “A Chave do Vale Encantado”, que está disponível em seu canal no YouTube.

Como foi a gestação – se é que podemos chamar assim – de “A Chave do Vale Encantado”?

Primeiro nasceu o argumento: os personagens do Mundo da Fantasia moram nesse vale encantado e ali levam uma vida normal. Branca de Neve namora o Dunga, o Lobo é amicíssimo da Vovó, etc. Cada vez que uma criança do mundo real vai sonhar, os personagens são convocados pra entrar no sonho daquela criança, para executar as histórias como a gente conhece. O único que visita nosso mundo fora dos sonhos das crianças é Papai Noel, que vem trazer os presentes no Natal. Mas ele proíbe que os outros personagens nos visitem, nos conheçam, e não explica o porquê. Alguns aceitam essa medida, mas outros, revoltados, querem roubar a chave do Vale Encantado para saber que mundo é esse, que não podem conhecer. Isso gera um grande conflito.
Depois escrevi os diálogos, depois as músicas, e se passaram décadas até criar o roteiro do filme. Depois, a produção, a escolha das locações e a montagem da equipe.
 
Percebo que, no filme, você busca naturalizar os personagens e histórias das fábulas, inserindo nas entrelinhas reflexões a respeito da nossa realidade. Minha interpretação é correta? Quais outros significados você descreveria?

Sim. Por exemplo, o Papai Noel é uma analogia com a civilização judaico-cristã, que ameaça com a infelicidade quem busca o conhecimento. A Fada Azul é o arquétipo da proteção feminina, a Virgem Maria, Iemanjá, etc. O Lobo é o trombadinha, o guerrilheiro, o malandro. A Bruxa é aquela que olha sem embromação para uma civilização demagógica, manda a “real” pra todo o mundo e se insurge contra a culpa cristã, que liga a beleza à dor. Robin Hood, que nas histórias é revolucionário, no vale é um conservador. Já o Príncipe é o contrário, é aquele ator superprofissional, mas que depois do trabalho exige aventuras, como os astros ingleses do rock and roll. Branca de Neve é daquelas atrizes que misturam a vida pessoal com a profissional; apaixonada pelo Dunga, quando está em cena não consegue mais transmitir amor pelo Príncipe. Uma sátira a atores que fazem par romântico e se casam na vida real. Lady Marian é a nova mulher, independente, luta com espada melhor que Robin e discorda dele em questões profundas.
O que importa é que os personagens do vale são seres que, mesmo quando discordam completamente entre si, convivem e se amam sem julgamento. Achei importante colocar isso num momento em que a maioria dos brasileiros não aceita conversar com quem pensa diferente.
  
Trabalhar com fantasia em produção audiovisual exige uma série de recursos técnicos que, em alguns casos, se tornam inviáveis no Brasil. Como foi o processo de produção e realização do filme? 

Ele foi muito mais extenso na edição e na finalização do que na filmagem. Foram vários meses trabalhando a cor do filme. Eu queria que ele provocasse a sensação visual de um livro pra crianças. Lembro, quando era menino, de ver nas historinhas que lia um laguinho completamente azul, e me decepcionar com os lagos cor de terra que encontrava nos passeios de minha infância em Minas Gerais. As cores da Chave do Vale Encantado são exatamente como imaginamos num mundo ideal. Isso deu muito trabalho.
 
Desde “Léo e Bia”, já se passaram nove anos, nos quais você realizou quatro filmes. Poderia falar um pouco da sua relação com o cinema e dos seus primeiros passos no ramo?

A minha relação com o cinema segue a orientação do grande crítico de teatro Yan Michalski, que, ainda na década de 70, me situou dentro da estética dos menestréis. Isso significa privilegiar a narração e nunca usar a música como na ópera, em que a ação dramática é cantada. As canções entram pra narrar a história e os diálogos acontecem de forma realista. Nas décadas de 80 e 90, usei isso no teatro. Nos últimos dez anos, tantos nos filmes quanto nas séries que escrevi, continuei fiel a esse estilo.
 
Música é arte. Cinema é arte. Como é a relação entre os dois na sua vida? Existe um diálogo? 

Sim, o tempo todo. Mas sempre com a música em primeiro lugar na minha vida.
 
Daqui para a frente, você já tem algum projeto em mente ou em andamento? O que poderia nos adiantar? 

Estou fazendo uma turnê por todo o Brasil com Renato Teixeira e outra só com minha banda. Esse ano fiz Vivo Rio com o Renato e estou voltando ao Rio, no Ribalta, dia 07/09, com a minha banda. Enfim, é muita coisa, pelo menos até dezembro isso vai tomar o meu tempo. 









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