NITERÓI/RJ
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Jurei mentiras

Ainda me pergunto todo dia de manhã por que a gente volta sempre pro amor. Olha, que difícil às vezes, né? Ainda mais de manhã. O pensamento veio e eu não tinha tomado nem uma xícara de café. Isso tudo porque na noite anterior, entre uma (caixa de) cerveja e outra, numa mesa cheia de sagitarianos sem medo de viver, desandei a rir de como amar em tempos de internet torna tudo tão possível. Pro bem e pro mal. É uma chuva de gente com o astral ótimo e uma outra penca que não tem tempo pra bom-senso. O saldo às vezes é meio amargo, alguém já escreveu sobre isso. Mas eu não consigo deixar de insistir. Ainda não rolou o grande evento - e sei que não vai rolar - de eu me despedir do amor como quem fecha uma porta. Você sabe que quem é do amor é isso: aprende um monte, e, talvez, por isso, não desiste. 

Contei nesta mesa do pessoal fogo na roupa, já sem mágoa, uma história que queria filmar. É de um amor desses bem antigos que terminou comigo em plena segunda-feira e em seguida publicou no facebook: jurei mentiras e sigo sozinho. Foi difícil na época, porque Ney Matogrosso como álibi é uma jogada baixíssima. Como eu sofri. Eu chorava no chuveiro, nos cantos da casa. Conheci na mesma época um CD da Bethânia que parecia ter sido feito sob medida para minha dor. Ouvi até não ter mais lágrima. Quando decidi que não dava mais pra sofrer tanto, procurei um amigo que me ensinou a passar de fase no jogo da vida. Anotem. Abrimos um Terra Nova, prosecco que ele tinha ganhado de aniversário. Logo ali, depois da curva da dor, brindamos ao amor. A gente sabia que não ia desistir, só nos restava beber e esperar as novidades, sempre pintam.

Até hoje me perguntam como eu perdi peso, e eu conto que foi quando comecei a trabalhar. Inventei isso há tempos e parece tanto com meu sol em capricórnio que sigo contando até hoje, quando perguntam (e o povo pergunta). Conto da dinâmica difícil de trabalhar, estudar e morar em cidades diferentes. Sempre colou, e eu realmente poderia ter perdido peso por isso. Não aconteceu, puro roteiro. Cá entre nós: perdi peso quando achei que fosse morrer de amor. Sufoquei com a tristeza de ter perdido alguém que me entregou tanta coisa legal. Estava pronta para o funeral. E sigo vivíssima. De lá pra cá, aprendi um monte. Inclusive a não sucumbir tanto assim. Já ouço Sangue Latino sem chorar e conto a história na mesa pra dar força a quem está ensaiando desistir de amar e ser amado.

São nessas horas todas, nas mesas sinceras, que eu me dou conta de que eu insisto no amor porque ele é a minha possibilidade de reinvenção - nem que seja quando tenho que procurar outra música do Ney para ser a preferida. Hoje, faço acordos possíveis com o tempo. Negocio comigo mesma. Abro concessões. Rio de mim mesma, de gargalhar, com ou sem cerveja. Tento me livrar de algumas culpas de estimação, assumo os pecados, risos. E faço o possível para, mesmo antes do café, me questionar o que estou fazendo por aqui. Ainda que às vezes eu só desligue o despertador e respire fundo, eu sempre sei o que vim fazer por aqui. Amar e ser amada. Em suas variadas formas e formatos. E o que me importa é não estar vencida.

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